Subversa

Girafas de vidro nas estantes | Isadora Lobo


Vem de uma família de girafas. Mulheres-pescoços, mulheres-nós nas gargantas. Elas que frente aos contratempos preferem estagnar o medo, apertando-o até que suma. Mas ele volta nas madrugadas.

Mulheres-girafas, não deixam as crianças sair do condomínio. Tem medo do povo, desse povo que anda e vive nas ruas. E que sobretudo não hesita em falar perto de suas crianças ideias de embolar a mente, ideias de que tudo se pode, que está tudo bem andar por aí, ou que não são assim tão sombrias as ruas quanto dizem as girafas, que também há muito que aprender fora das paredes das escolas, que antes de cinco segundos é permitido pegar os docinhos caídos no chão, por Deus não, é melhor que fiquem perto, é melhor que não se sujem dos vírus das ruas, que não fiquem sabendo das ideias de revolução e prazer, meu filho! dizem as girafas! minha filha! gritam as girafas: Voltem já pra casa!

É sabido que mulheres-girafas são as mais elegantes, disso muito se fala por aí. Vejam, vejam seus pés de bailarinas, placa de metal no peito, por sorte se respira um pouco, aspira-se um quase nada, no fundo há medo do perigo dos ares, encurtam as narinas a evitar as doenças, só comem os frutos mais altos, aqueles que somente elas alcançam. Frutos vermelhos,  envernizados, nunca antes tocados por mãos humanas. É sabido que invejam os pássaros. Esbarram os pequenos por estar sempre mirando os topos. E o pescoço cresce

Nesse jogo esquecem-se o prazer do corpo, nós em seus crânios, nos joelhos, pedras pontudas crispadas na superfície dos pés, desde aí até o topo se mostram ao povo, conforme caminham, Oh! Como são belas! Oh! Como são altas! Endurecem suas longas línguas no céu da boca, conforme são observadas.

É portanto de ralo conhecimento os nós apertados em suas articulações, os inchaços constantes, a crispação em suas têmporas maxilares, o custo de seu alinhamento e elegância, é de ralo conhecimento suas insônias, suas noites de não dormir pois tantos medos, tanta morte a atormentar a vida, termômetros nos pés das camas e um de repente acordar gritando, acordar gritando e derrubar as águas nos eletrônicos.

Tampouco se sabe de seus sonhos, pois as girafas os guardam em caixinhas que escondem, as girafas vivem com seus homens e pronto, mal se sentem tronco abaixo, evitam todo e qualquer contato com as forças da selvageria, não não, preferem se lançar aos ares como é de suas naturezas, essas mulheres-girafas sabem o que fazem, fazem o tic tic nas listas das agendas, arrumam impecavelmente suas malas, suas malas e as de seus homens, bem como os assuntos com antecedência, creem controlar os dias, e quase sempre o fazem. Com exceção de quando seus corpos vem a pregar peças fazendo com que adoeçam: o maior pesadelo das girafas, pois de repente lembram ser carne e vísceras. Pois de repente lembram que são gente, apesar de seus rigorosos hábitos de assepsia. E que assim como o povo, assim como “os outros” que andam na rua com aquelas caras normais, aqueles que suam, assim como eles carregam substâncias fétidas. Apesar dos perfumes e águas de colônia, às vezes se lembram.

Apesar de seu conhecimento teórico, seu conhecimento teórico-literário das profundidades das almas, preferem falar sem dizer nada, preferem os trabalhos de se distrair do corpo, o corpo é sujo, preferem estar limpas após banhos, é preciso limpar tudinho, ensinam às girafinhas, esfrega esfrega, até sair todo o cheirinho, ouviu meu amor? Lavou direitinho? Depois do banho cortam e pintam as unhas dos pés, passam cremes nas cutículas, seus longos pescoços permitem que se minguem, seus olhos como quase a chegar nos pés, de modo a ver as unhas de perto e evitar qualquer deslize.

Mulheres-girafas têm medo da matéria. Temem tudo aquilo que é orgânico, tudo aquilo que apodrece. Não têm o menor interesse na Terra e em seus ciclos de morte-vida, do contrário: tem pavor. Se enganam constantemente, se lavam, se perfumam. E então em algum dia de calor e suor se lembram de que elas próprias, de que mesmas são matéria, então disfarçam, novamente banhos, cosméticos, ar condicionado. Preferem o vento, preferem o vento embora tenham frio, usam casaquinhos quando vão ao shopping, preferiam ser de plástico, preferiam ser de vidro

Isso! Se fossem de vidro seu processo de decomposição duraria quanto? Mais de mil, quatro, um milhão de anos? Parece bom às girafas, é isso mesmo, girafas-de-vidro: eis a imagem. Girafas de vidro nas estantes.

Se derrubadas das estantes quebram e por isso, vivem em estado constante de tensão. Estão alertas, alertas, seus olhos vítreos zanzando de um lado a outro, buscando controlar, buscando saber o que se passa, mas eis o fardo das girafas: não controlam. Seus pescoços rígidos impedem quaisquer desvios, movem apenas os olhos de lá até cá e vice-versa, movem os olhos a querer saber o que se passa, cada micro detalhe, cada grão de areia torto, o fardo das girafas, girafas de vidro, sim, o fardo é que apesar de seu mais profundo desejo de controlar tudo que há, de dirigir suas vidas em volantes precisos… estão à sorte como todo o mundo. Assim lhe disseram suas psicólogas, assim ouviram com pavor: não controlam. Se algum desastrado chega perto delas e se empolga com alguma história, se começa a falar gesticulando com toda a energia de seu ser, pode muito bem esbarrar nelas, derrubando-as no chão e fazendo com que quebrem em mil pedacinhos.

Pode acontecer, pode sim acontecer e de uma hora pra outra, mas é como o avião cair: são raras as vezes, tudo que se pode é torcer com medo, torcer com medo para que não aconteça. E é melhor quebrar, melhor quebrar em mil pedacinhos do que apodrecer, apodrecer na Terra juntos aos vermes, isso nunca, melhor quebrar sob o chão duro.

Por esses motivos, por esses medos das mortes súbitas e indomáveis, vivem constantemente em estado de alerta. Medo. Medo é o que circula por seus moldes de vidro, essas girafas quando se põem de pé, com suas apenas pontas dos pés no chão, nádegas fechadas a enrijecer as cadeiras, mas nada disso se vê como já disse antes, a girafa não deixa que vejam suas fragilidades, é uma dissimulada, desculpem mas é verdade,  irritantemente elegante. Se guarda em caixinhas, a verdade de si guarda em caixinhas que por sua vez guarda nas profundezas dos armários a cadeados, seus sonhos, suas vontades, e eu que arrombei uma caixinha, e eu que revolta com elas de tão sonsas e descobri de uma delas a seguinte verdade: sonhava ser cantora. Desde menina que queria cantar, mas como vos disse no início, vocês se lembram, disse assim: “Vem de uma família de girafas. Mulheres-pescoços, mulheres nós nas gargantas (..)” Disse assim, não disse, pois é, então quando girafa-menina, quando antes mesmo de aprender a se guardar em caixinhas, empolgada com sua nova descoberta, a que nascera para cantar, nascera para estar nos palcos e fazer passar os sons pelo seu longo pescoço, empolgada com a descoberta foi contar para a família, foi dizer às mulheres-girafas, levava até um show preparado com as suas canções preferidas, vinha treinando em seu quarto a alguns dias, cantaria para as suas parentas as canções que a faziam sentir o mundo mais lindo, e então elas se abraçariam e fariam planos. Mas ao invés disso

Ao invés disso, ao fim da notícia, nem ao menos permitiram o início do espetáculo, as grandes se entreolharam sérias, as girafas se olharam preocupadas, a girafinha com as lágrimas a quase sair dos olhos, ficaram longe suas expectativas, achou que cantaria para elas e então ficariam sorrindo. Mas ao revés. O silêncio. E a tensão suspensa no ar.

Então uma das girafas, não só uma como a mais velha, a girafa-senhora do mais longo pescoço, ela se levantou e foi caminhando até o seu próprio quarto. O tempo parecia congelado, em sua ausência não se disse palavra, voltou com uma grande caixa vermelha, se sentou na frente da pequena demonstrado a mais genuína preocupação, abriu a caixa dando a ver dentro dela inúmeras outras caixinhas, caixinhas de diferentes tamanhos cores e materiais, e disse à pequena – escolha uma – e a menina obediente como a ensinaram, escolheu uma delas, era uma caixinha de vidro, e então a girafa disse que agora o seu trabalho seria se esvaziar de todas as ideias fictícias como aquela, de todos os sonhos ilusórios, era preciso não ficar sonhando mas ser capaz de viver o mundo real e trabalhar, um trabalho normal uma casa e um marido, uma família a ser construída, era tanta coisa a construir, não havia tempo a perder com mundos de fantasia, na vida real ideias dessas te atropelam, e conforme dizia tudo isso a girafa-senhora, conforme dizia tudo isso um fundo de tristeza a lhe apertar os olhos, uma nostalgia de quando ela própria pequena, de quando ela própria em seu ritual foi intimada a guardar o seu primeiro sonho, sua caixinha era azul sua cor preferida na época, foi sua primeira caixinha, na época que teve uma ideia, uma ideia de que agora já nem se lembra pois fez o certo, se livrou dela para todo o sempre.

Então sim, esse fundo de nostalgia a fazer soluçar a voz certeira, um aperto no peito a ver a água a estourar feito bolha e virar lágrima, estourar feito bolha e virar lágrima nas bochechas da menina, essa menina ainda chora pensa ela, ainda tem águas por dentro, dá-se tempo ao tempo isso muda, conforme for preenchendo as caixinhas vai secar, aqui vos conto o grande segredo, a caixinha é de coletar mágoas desesperos, o material a preenchê-la é justo a lágrima mas não só, a lágrima mas também o grito, as caretas-contorções, as tremedeiras, a raiva, suores de febre de revolta, esse material, é essa matéria prima o que preenche as caixinhas, a torneira dos sonhos esquecidos de tanto espremê-los, e depois de muitas chuvas tormentas vendavais fazer chegar o esquecimento, o vazio total de quem já não sente, de quem já não sonha, de quem executa: de quem executa o que é preciso ser feito, até que se esqueça os sonhos, cada um dos sonhos insensatos, esse de querer cantar da menina seria apenas o primeiro, depois dele viriam outros e mais outros, e seriam tantos que se teria a sensação de que não chegariam nunca ao fim, mas uma hora sim chegariam, e então o ciclo estaria completo: se daria enfim a passagem para o estado primordial, o suprassumo da existência dessas mulheres, por fim verdadeiras girafas. Perfeitamente ocas e cristalinas, girafas-de vidro nas estantes.

A girafa senhora comunicou todo o procedimento à menina, agora a deixariam sozinha para que ela pudesse executar o serviço, um serviço que ninguém mais poderia fazer por ela, tampouco presenciar, pois esse não era o tipo de coisa de mostrar pros outros, era preciso que estivesse a sós. Pois não se deve estar triste nem raivosa em frente aos outros, não se deve pois é feio, então se te ocorrem os súbitos devaneios, deve-se pedir licença com decoro, correr até em casa e procurar a sua caixa, de aqui em diante sua maior companheira, a caixa secreta que é só sua, e que ninguém mais nunca vai vir a conhecer. E aí sim, aí sim quando ninguém a estivesse observando poderia gritar, então poderia espernear, poderia chorar por dias, sim, havia esse detalhe, não havia como prever o tempo do procedimento, o importante era não parar no meio, era preciso ir até o fim,  exterminar todas as ideias falsas, e para isso precisava estar disposta a ir até o final, custasse o que custasse. Estava pronta? A menina acenou obediente, e então foi deixada a sós.

A girafa-senhora, embora parecesse às outras firme e certeira, embora tenha executado com primor a sua tarefa, não pôde deixar de sentir, conforme vinham escasseando as palavras ao final do discurso, a já tão conhecida sensação: a dos olhos a se encher de águas, a das ideias traiçoeiras a atormentar a mente. Um instinto da menina em si, água água, mas ainda? Um impulso de tristeza, uma vontade, uma vontade de soltar os pregadores de si, desatarraxar os parafusos de tantos anos. Vontade de arrancar a menina daquela cela cheirosa, rasgar aquelas caixas todas, vontade de chegar e vai menina! Vai viver, abre essa porta, joga tudo pelos ares, vai andar ver gente, sentir o vento e as delícias que eu nunca pude, ai que vontade de ouvi-la cantar ao menos uma vez, de dizer a ela que fuja enquanto ainda dá.

Mas não, de forma alguma, já chega. Já chega disso, impulsos estúpidos, rebeldias de menina, já chega! Pediu licença com toda a classe que era esperada de si, pediu licença às outras girafas, um mover-se como plumas enquanto dentro incendiava, “Se me dão licença”, e foi em direção a seu quarto, seu armário, tirou de lá a grande caixa surrada, pegou a derradeira caixinha, a última que faltava. E então foi. Em meio a choros, em meio a berros e assustadores espasmos musculares, em meio a lágrimas, suores e substâncias fétidas, tudo isso a fazer encher a caixa derradeira, sabe-se lá quanto tempo ali passou, não importa, pois uma vez iniciado, era até o fim. Depois de incontáveis horas de raiva e delírio, ali estava ela, enfim: vazia. Completamente seca, completamente oca, estava completo o ciclo. De ali em diante seria mais uma entre as girafas-de-vidro. Pra sempre amada, pra sempre admirada por todas as outras, todas a olhá-la de baixo, e diriam: “um primor”.  Inegavelmente perfeita.


Isadora Lobo | Brasília, Brasil | isadoraloboarte@gmail.com

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