Subversa

Festina Lente | Norberto do Vale Cardoso (Chaves, Portugal)

Ilustração: Marilia Moser

Ilustração: Marilia Moser


Procuro o lugar onde não há trevas, mas encontro sempre um revólver sobre a mesa-de-cabeceira, no lugar onde deveria constar o dicionário de aramaico ou o de sânscrito. O meu corpo está a ser rodeado de areia, submerso numa cova em frente ao mar. A minha cabeça é um labirinto: como to explicar, se nem eu mesmo o consigo percorrer, sempre nele me perdendo e continuamente nele tentando voltar ao princípio, sabendo que tal não é possível. Como te dizer sequer quem eu sou, se não sabes mais que o meu nome, mesmo que o nome seja uma casa com um rosto sem que apreendamos os seus compartimentos interiores. Como te explicar que a minha vida é como a de um candeeiro pendurado num tecto a julgar-se alguém enquanto emite uma espécie de luz. Como to explicar sem contornar as coisas essenciais, sem que olhes o relógio de pulso para averiguar se tens ainda tempo de me escutar. Se eu fosse capaz, far-te-ia ouvir como quem esquece as coisas, as flores que murcham, o tempo que passa e o tempo que vem, magoando-te tão fundo quanto me magoa sentir a polifonia de Bach. Além disso, não pretendo ser em ti um lugar que doa, procuro apenas esse lugar onde não haja trevas para que delas saia ileso para ti e para o mundo. Um lugar onde o meu corpo se mova. Onde a cabeça tenha um rumo certo. Onde o candelabro seja um braço para nele pousares a cabeça. Mas sou como uma faca sem lâmina à qual falta o cabo; uma vontade aprisionada que só a loucura pode libertar.

A esta hora deves estar a perguntar-se por onde ando, o que faço, que terá sido feito de mim, mas não é isso que espero: que te perguntes por mim como um sinal de que ainda tens esperança que eu viva, que faças de cada dia um lázaro passível de voltar para os teus braços depois de desvelar os seus membros. Não quererás, por certo, esperar por mim tanto quanto Penélope aguardou por Ulisses, como se eu regressasse de entre aqueles que devem estar mortos. Espero, sim, que vás caminhando, como te pedi, não esperando por mim, ou esperando sem que eu seja em ti uma contracção, antes encontrando, numa fuga silenciosa, um lugar onde ninguém te encontre para, depois, poderes viver sem relutâncias e animosidades para comigo. (E, quem sabe, eu te possa encontrar depois da vida.)

Porque me engano todos os dias, porque me falseio para todos a toda a hora, sinto ainda que é tempo de começar a correr, a correr devagar como quem tenta mover-

-se numa cova feita no meio da praia deserta, entrevendo, entretanto, a maré que sobe. Correr. Devagar. Não há outro modo de chegar a esse lugar que sempre procurei desde que me não lembro ou me lembro e não quero lembrar. Há-de existir uma luz algures, num qualquer mês, num qualquer tempo, num momento que ainda não sou capaz de precisar. Há-de existir. E então corro. Corro através de uma rua interminável. Corro através dos campos. Das ladeiras das cidades. Das cidadelas abandonadas. Das pontes. Dos caminhos. Dos cardais. Corro, sim: mas não sei se fujo, se regresso, se parto, se não saio inclusive do mesmo lugar. (Esta é a minha maior preocupação.) Não sei. Sei apenas que corro incansavelmente, mesmo sabendo que esta é uma corrida perdida antes de começar. Corro. Corro devagar. Por vezes, a lâmina do sol incide nos meus olhos, o dia finda, a terra gira, outra parte do dia há-de chegar, outro lugar, outro cabo de outra parte da terra, mas, independentemente disso, não pretendo baquear. Por mais que as árvores se esfolhem, por mais que o mundo se mova, não quero alquebrar, mesmo que sinta que sim, que sou intermitente, que quase me vergo, que a sede e a fome condenam o corpo, que as emoções saqueiam a mente e – o que mais me custa – a própria memória.

A caneta fumega algures. O cálice apresenta-se a alguém. A estrada gretada dificulta os passos de quem corre. O lugar onde não haja trevas pode ficar para trás – nunca tinha pensado -, mas agora que reflicto sobre isso o cenho dói-me um pouco mais no que quero ser: um homem que corre incansavelmente cansado; um homem que ninguém veja, que se encontre oculto entre os outros, obnubilado pela sombra das ruas por onde passa. É que eu quero continuar sozinho, observando, neste correr devagar, a vida das formigas, como se todo o tempo estivesse ainda à minha frente no formigueiro das palavras que construo por dentro. A verdade é esta: quero que a exaustão me obrigue a engalfinhar em posição fetal, a partir da qual não procure recuperar (com horas de atraso) a desvantagem em relação aos outros corredores. E deixar de falsear, e deixar-me deste logro que sou, desta representação maquinal que, em dia, me corrompe.

Sim, talvez haja outras ruas e, nelas, outros corredores compenetrados nas suas corridas. Talvez de entre eles haja um outro corredor a correr, coetaneamente, mas, por paradoxo, num outro tempo, como eu, quem sabe. Talvez não nos vejamos, ladeados pelos edifícios, mediados pelo público que passa – sem ver – enquanto se encaminha para as suas vidas difíceis, que são quase como um objecto que não se entende para que serve nem como funciona. Talvez não nos conheçamos, nunca nos tenhamos visto e nunca nos encontremos. Quem sabe corramos na mesma rua, que parece multiplicar-se em várias ruas de todas as cidades do mundo, como se a corrida fosse uma maratona interminável. Talvez entremos no ventre da cidade, em que os dois percursos se possam encontrar, mas talvez não nos apercebamos da presença um do outro, prosseguindo cada um a sua corrida como se estivéssemos sozinhos nela, únicos corredores da corrida mais absurda.

Nada importa. Ninguém regressará seja onde for depois desta corrida, tenha ela a distância que tiver. Tudo o que é perdido é definitivamente perdido. Nada é resgatável. O que se dá hoje não se dá ontem. Sabe-se e era preferível que não se soubesse e não se soubesse que se sabe. Tudo se encontra à nossa frente. Tudo ficou para trás. Tudo se move. Tudo escapa. O mar sobe. O corpo está enterrado na areia da praia. O labirinto nasce dentro do labirinto. Os lábios cerram-se. Os leprosos escondem-se. Os candelabros agitam-se com o vento que escorre por uma porta entreaberta que não esqueço. (Como poderia?)

Quem sabe sum poeta, compenetrado na leitura, veja o seu trabalho lento pontualmente interrompido, marcando a passagem, «Só havia/ o caminho do monte./ A ele fui, carregando nos ombros pai Anquises», para se tornar no observador único da corrida inexistente dos corredores invisíveis. Quem sabe o poeta seja capaz de ver ou de ter a sensação (da qual duvide entretanto, tendo em conta a negaça popular) de que um homem (ou dois) passara por aquele lugar sem parar, ou se pergunte para onde ou para quem correria o corredor (ou a sombra do corredor) que lhe parecia ter vislumbrado, de onde ou de quem fugia (se corria, se fugia, se existia). Quem sabe a sua conjectura o perturbe como um fardo que carregue para todos os lados, sem que haja meta que cortar, numa corrida lenta, lembrando o decreto de Virgílio para a destruição da Eneida – como um atleta que abandona a corrida após muitas léguas de esforço.

(Sim: abandonar no último fôlego ao avistar a praia.)

Quem sabe o poeta regresse ao seu trabalho e crie inúmeras versões desta corrida inexistente: pedras amovíveis, olhadas da prisão onde se encontra em consequência de um voto – e cada folha branca das mil que enfrenta seja um ex-voto.

Se isso acontecer, podes ter a certeza de que na minha mesa-de-cabeceira encontrarei, não o revólver, mas o teu anel, o fio com que adornas o pescoço, as fitas com que apanhas o cabelo, e então é certo que a luz da manhã incidirá nos meus olhos sem me magoar, traduzindo para a minha língua, mesmo que em catacreses, as trevas que jamais me voltarão a encobrir.


NORBERTO DO VALE CARDOSO é doutorado em Ciências da Literatura pela Universidade do Minho. Professor e investigador. Publicou, na Texto, o ensaio António Lobo Antunes: As Formas Mudadas (2016). É autor de várias publicações, estando integrado em várias antologias de poesia e conto. | NORCARDO@GMAIL.COM

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