Subversa

[FEBRIL] | Pedro Pedrosa


Só disso sei, deixei o sentido às traças do que já fui. Fecho os olhos e ainda vejo estes Campos de Carvalhos, o que em outra vida poderia ter sido, mas ele domina melhor o meio que o naufraga, a gramática, os tempos. Ficha técnica, ritos iniciais, a vigorosa novela de Aldous, me cercam obrigações, reflexos mal ajambrados, trechos e cacarecos do que interrompi no meio ou do que se deve finalizar, mesmo que não se saiba como. Não domino o meio, mal ele me domina também, são apenas palavras, eu tento me convencer, não são bichos, não são monstros. Não há nada de eticamente reprovável em se apagar uma palavra, não é como tirar uma vida, por mais que pareça. Não é um crime errar uma vírgula, as vírgulas não se ofendem. Se eu nunca mostrar este texto a ninguém, a gramática não será ferida, não desperdiçarei o tempo de nenhum leitor, o novo acordo ortográfico não será descumprido. Não existe palavra de má índole.

 

Talvez índole seja a única palavra de má índole.

 

De qualquer modo,

É só uma luta que travo contra o febril. Toda vez que penso ou escrevo essa palavra, ouço o cantar (gritar?) de um gavião. Não suporto mais seus limites, sua visão dormente, os medos que sempre se consultam a terceiros para se legitimar como medos, e, pelo amor de deus, ainda bem que falou: os sonhos. Os sonhos do febril.

Ainda tento me convencer que são sonhos. Como seriam sonhos, se não dormi? Foi uma noite inteira de virar de um lado para o mesmo, ignorando o outro, nadando em meu suor e nas toalhas que ele consumiu, lembro perfeitamente bem da parede rente ao meu rosto, como seriam sonhos? Como seriam sonhos se nos próprios sonhos, eu descrevia meus sonhos, já duvidando que fossem sonhos?

Peguei uma van com meu pai, passando por vários municípios do interior de meu subconsciente, raras vezes vou até lá. A verdade é que se pareciam e muito com as quadras comerciais de Brasília, mas entupidas de fliperamas e de rostos conhecidos. Era madrugada, uma daquelas madrugadas que duram dias, numa loja de inconveniências eu contava à caixa de um sonho que tinha tido, minutos atrás, onde eu estava na casa de um casal de professores de palhaçaria e os contava do febril. Eles riam, com os cantos dos olhos, e se usavam de seus silêncios para me chamarem de vitimista. O homem, irônico, e sua maneira italiana de me apressar a amarrar os sapatos, e a mulher, linda, silenciosa, seu olhar fala mais que um manifesto, ela parece dominar toda a estranheza que me aflige e me tira o sono. Como fui parar ali? Novamente desperto. Procuro o termômetro derrubando tudo que há de pé ao meu redor. E antes que o encontre, estou no Jardim de Alah, com meu pai e meu irmão, voltando para casa, passo por Rahira, mas não a cumprimento, com medo de ela não me reconhecer. Conto a meu irmão do sonho onde eu e meu pai pegávamos uma van e passávamos por várias cidades pequenas como Guaraíra, Joyce e Carne Assada*.

Poderia ficar a noite inteira, se fosse noite, assim, como de fato fiquei, reconectando os sonhos onde eu contava de meus sonhos aos personagens de meus sonhos.

 

Por isso me aflige tanto o febril a ponto de eu querer expulsá-lo da primeira pessoa: nem sei.

 

Vá pra porra.

Vou tomar uma novalgina.

 

*Destas cidades, a única que sei que realmente existe fora do meu subconsciente é Carne Assada. Fica na Bahia.


Pedro Pedrosa | Rio de Janeiro, Brasil | é graduado em Bacharelado em Interpretação Teatral pela Unirio, integra o duo musical Pedroso&Pedrosa e colabora com os coletivos Grupo Sem Cara e Semáforo Afogado. | pedropedrosamar@gmail.com

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