Subversa

Expandindo a Desigualdade de Renda | Frederick Seidel (Tradução: Felipe G. A. Moreira)


Eu tenho uma vida de apetite e, sim, é isso aí,
Eu tenho uma vida de privilégio em Nova Iorque,
Comendo torradas amanteigadas na cama com dedos abucetados na manhã de domingo.
Que que você disse?
Eu tenho uma regra —
Eu nunca dou para mendigos nas ruas que levantam suas mãos pra cima.

Eu acordei nessa manhã no meu ar-condicionado.
No fim das minhas pernas estavam meus pés.
Pé e pé estendidos pra fora do edredom olhando pra mim!
Levanta. Vai. Vai indo.
Meus pés estavam lá do outro lado das minhas pernas.
Levanta. Vai. Vai indo.

Eu realmente acho que eu não vou.
Obama está indo até que bem.
Eu acho que eu não vou.
Levanta. Vai. Vai indo.
Eu posso ver que por trás da janela não está chovendo.
São tão incríveis essas previsões de tempo intermináveis, sempre erradas.

Os pobres estão mais pobres que nunca.
Os ricos estão mais ricos que os pobres.
É verdade sobre os pobres?
É sempre possível ser divertido.
Eu vi um rato lá embaixo no metrô.
E daí que você viu um rato.

Eu admiro os pobres profusamente.
Eu quero o autógrafo deles.
Eles me deixam tímido.
Eu mantenho a minha distância.
Eu estou chegando ao fundo da ilha.
O baixo Broadway chega a ferver e a prefeitura está fervendo.

Eu tô meio que dormindo mas eu tô acordado.
No outro fim de mim estão meus pés
Em sapatos de considerável sofisticação.
Andando pela Broadway no calor.
Eu tô meio dormindo no calor.
Eu tô, por assim dizer, usando um chapéu.

Não sou nenhum São Francisco.
Estou numa das minhas viagens.
Quando eu olho no espelho,
Tem um homem velho viajando.
Existe um deserto de Gobi.
E isso é poesia ou, melhor, retórica.

Você vê o que acontece se você não faz sentido?
Só tem sentido não fazer.
Você sente a cintilação de um colibri.
Demora um segundo para achar.
Você ouve um zumbido.
Tá aqui. Tá ali. Isso paira, implorando, mãos pra cima.

Alguém vive uma vida de apetite e, sim,
Vive uma vida de privilégio em Nova Iorque.
Tantos arruinados recusam com suas mãos pra cima.
Me ajuda por favor a conseguir algo pra comer.
Eu sou um papa num púlpito de humildade ar condicionada
E expandindo a desigualdade de renda chupando, sobretudo, buceta.

A dama de companhia na corte imperial
Agita seu ventilador no calor de Heian, Kyoto.
Quão delicada ela o faz.
Você não pode ver.
Como você quer viver?
Ela transpira só um pouco.

Do lado de fora do Palácio do Departamento dos Veículos Motorizados, Francisco de Assis
Está comendo lixo com os sem teto
E escrevendo um poema para Deus,
E para o nosso senhor Irmão Sol.
Deixa pra lá que o sol é perigosamente quente
Lá fora da calçada.
Abra seus braços como um novo baralho
E embaralhe as cartas.
Agora abra o seu coração.
Agora abra sua arte.
Agora fique de joelhos na rua
E coma.

Tradução: Felipe G. A. Moreira


Widening Income Inequality | Frederick Seidel

I live a life of appetite and, yes, that’s right,
I live a life of privilege in New York,
Eating buttered toast in bed with cunty fingers on Sunday morning.
Say that again?
I have a rule—
I never give to beggars in the street who hold their hands out.

I woke up this morning in my air-conditioning.
At the end of my legs were my feet.
Foot and foot stretched out outside the duvet looking for me!
Get up. Giddyup. Get going.
My feet were there on the far side of my legs.
Get up. Giddyup. Get going.

I don’t really think I am going to.
Obama is doing just fine.
I don’t think I’m going to.
Get up. Giddyup. Get going.
I can see out the window it isn’t raining.
So much for the endless forecasts, always wrong.

The poor are poorer than they ever were.
The rich are richer than the poor.
Is it true about the poor?
It’s always possible to be amusing.
I saw a rat down in the subway.
So what if you saw a rat.

I admire the poor profusely.
I want their autograph.
They make me shy.
I keep my distance.
I’m getting to the bottom of the island.
Lower Broadway comes to a boil and City Hall is boiling.

I’m half asleep but I’m awake.
At the other end of me are my feet
In shoes of considerable sophistication
Walking down Broadway in the heat.
I’m half asleep in the heat.
I’m, so to speak, wearing a hat.

I’m no Saint Francis.
I’m in one of my trances.
When I look in a mirror,
There’s an old man in a trance.
There’s a Gobi Desert,
And that’s poetry, or rather rhetoric.

You see what happens if you don’t make sense?
It only makes sense to not.
You feel the flicker of a hummingbird
It takes a second to find.
You hear a whirr.
It’s here. It’s there. It hovers, begging, hand out.

One lives a life of appetite and, yes,
Lives a life of privilege in New York.
So many wretched refuse with their hands out.
Help me please get something to eat
I’m a pope in a pulpit of air-conditioned humility.
And widening income inequality, eating mostly pussy.

A lady-in-waiting at the imperial court
Flutters her fan in the Heian (Kyoto) heat.
How delicately she does it.
You can’t see
How you want to live?
She perspires only a bit.

Outside the Department of Motor Vehicles palace, Francis of Assisi.
Is eating garbage with the homeless
And writing a poem to God
And to our lord Brother Sun.
Never mind that the sun is dangerously hot
Out on the sidewalk.

Open your arms like a fresh pack of cards
And shuffle the deck
Now open your heart
Now open your art
Now get down on your knees in the street
And eat.


In Frederick Seidel Widening Income Inequality (2016, Farrar, Straus and Giroux)

 

 

 

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