Subversa

EXEGESE DA LETRA A | Henrique Grimaldi Figueredo


I

De todos me é o mais estranho e o que me mais exige dedicação-contra-a-insatisfação-crônica da linha que nasce fadada a apagar-se. Movimento aterrador esse que aborta a escrita à medida que escreve-se. Penso que é muito devido a tua última fala: não acabamos, apenas silenciamos; e o cruel do silêncio é que quedamos sempre na espera d’um decibel qualquer, apuramos os ouvidos na expectativa d’um eco que não é nosso mas a voz do outro. Há um espaço vazio e convexo entre a fala minha e a espera sua, e outro côncavo e lento entre a fala sua e a espera minha, que é o espaço mesmo da contagem tanta do seu cabelo mutante e dos quinze fios – agora mais – brancos que lhe coroam a fronte.

II

Disse-lhe logo antes que todo caos zela pelo seu centro de ordem. Que caos existe mesmo na condicionante d’organização pretensa ‘-poético isso, vou ali buscar um café’, e era assim que nascia outra e mais uma vez o debate nosso. Há lembrança muita e presença pouca. Mea culpa, mea máxima culpa. Você a esgrafinhar em esferográfica azul um poema novo às minhas costas, a Broadway, líquido-coado, intercâmbio de letra, desaparecimento mútuo e retorno afobado. Essa história nossa é o tráfego noturno na autopista, olho vez aberto vez fechado, a ver se há colisão inédita que superponha o décimo oitavo dia do mês de janeiro.

III

Ontem rascunhei na contracapa d’um livro o pensamento de que o poema é como o sexo dos anjos, muita forma, nenhum corpo. Se há alguma verdade nisso, somos nós a transa toda de Miguel e Lúcifer, que é o pugilato último da cisão do céu. Pensei que depois disso proibiram-se os anjos de trepar. E seguimos assim, como eles, em etéreos divergentes que apenas, e sobretudo, tangenciam-se. Que é a história inteira dos polos magnéticos e da circunscrição da terceira lei de Newton e da proporção astral de Kepler. Penso mesmo que tais leis foram criadas no divino apenas para apartar a luxúria dos anjos. i.e, forma extensa, corpo nulo.

IV

Estranho amar em suspensão. Mas digo-lhe: a ideia, é ela o mais sensual da existência. Nessa coisa meio solta que é a partida de futebol interminável entre deus e o diabo, compomos a plateia cansada. Creio que seja esse esgotamento a razão pela qual soube recentemente que os anjos estão a armar o fim do mundo. O apocalipse, meu caro, nada mais é que o modo inventado para o reencontro dos amantes angelicais. Os cento e vinte dois quilômetros entre minha e sua casa superam, parece, muito a distância entre inferno-céu. O primeiro reduto meu, porque você mora logo ali abaixo do dedo de deus.

 

[e vejo, da varanda, a unha do criador a te guardar,

 tesa na serra feita de brumas].


Henrique Grimaldi Figueredo | São Paulo, SP.

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367