Subversa

Eu odeio os artistas | Francisco Mossri


Eu odeio os artistas:
Seus sonhos ingênuos,
pensamento raso, seu pseudo-
envolvimento;
E também a arrogância, a erudição,
a causa profunda que os compele,
a percepção que os inquieta,
o fazer que lhes dão razão de ser.

Prefiro antes os miseráveis,
Os desajustados, os loucos,
os vagabundos, os perdidos, os ignorantes,
os que não sonham mais.

Odeio os artistas e suas esperanças
por um mundo melhor.
E seu desejo por um mundo
que não farão se não por acidente,
acaso, sorte ou circunstância,
de que o mundo real, do dinheiro, do poder e da sociopatia,
veja nos seus sonhos oportunidade pragmática
de reabsorver a inocente rebeldia
em dinheiro, status e poder.

Eu odeio os artistas
porque são crianças que vivem a infância que eu já não tenho,
acreditam no que eu já não posso,
imaginam o que eu já não vejo,
e são felizes

Eu odeio os artistas
Por suas depressões tão sinceras
de efeitos inúteis
Por suas angústias tão profundas
Que só podem ser expressas em arte
(Ou assim dizem, e nem sempre têm a verdade do que dizem)

Eu odeio os artistas
pelo seu amor pela arte.
Pela sua crença em algo chamado arte,
E em adolescentes, velhos e mortos
chamados artistas.

Eu odeio os artistas
por sua veneração pelos gênios do passado, e suas obras tão bem conformadas à intelectualidade
Sejam unânimes ou polêmicas,
Ainda assim conformadas.

Eu odeio os artistas
e sua admiração pela cultura do povo
Essa cultura que é desse Outro, mas do qual se sente parte
Seja como portador e guardião de costumes
Seja como exótico observador
Desfrutando da simplicidade festiva
ou solene
da reunião das pessoas

Eu odeio os artistas
E seus parâmetros técnicos delirantes
linguajar iniciático, hermético,
que serve politicamente para elevar,
ou diminuir,
ao esconder que a experiência indizível é
forçosamente subjetiva e intransferível,
sendo portanto impossível fazer qualquer comparação objetiva, seja entre experiências-obras diferentes, seja entre experimentadores(experiências) diferentes de uma mesma experiência-obra (experiências).

Eu odeio os artistas
Do fundo da sua importância
ao topo da sua insignificância.
O orgulho estúpido do músico, e seus games de escalas e arpejos
O ego raso do ator, e sua sensibilidade mal-instruída
A loucura egoísta do artista plástico, e sua subjetividade “descolada”,
A erudição ornamental do escritor.

E odeio também aqueles que dizem que generalizo,
que eles também são artistas em sua crítica,
pois falar de arte – essa coisa-quase-não-coisa, sempre subjetiva, delírio sem parâmetros –
só pode ser, já em si, fazer arte.

Eu odeio os artistas
Porque fazer arte é tentar – inutilmente –
Dar voz à experiência em sua parte indizível,
E quanto mais a obra sucede em dizer,
Mais ela está errada,
Mais ela esconde que não pode dizer
O que originalmente a levou a ser criada por não poder ser dito.

O que mais seria o trabalho de um crítico de arte,
se não tentar exprimir, através de palavras, a sua experiência inexprimível causada pela tentativa falha de outrem
De dizer o seu próprio indizível?
Os críticos, e aqueles que falam de arte são, então, artistas,
E eu os odeio também.

Por tudo que são os artistas,
prefiro os que não o são.
Prefiro aqueles que vão por aí,
vivendo simplesmente,
Ou sobrevivendo,
porque mesmo que não o estejam pensando, também desfrutam do inexprimível,
E não se sentem mais ou menos especiais pelo que fazem disso;

Vivendo o indizível, sabem ou não sabem que não o podem dizer.
E os ignorantes, os desajustados, os marginais, os loucos, os perdidos, os excluídos, quando o exprimem, são artistas
E esses artistas eu não odeio.


FRANCISCO MOSSRI | Rio de Janeiro, Brasil

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