Subversa

Espaço | Laura Elizia


Quinze segundos.

No espaço tudo que há é o vazio. Algumas pessoas acham triste, e muita gente simplesmente não suporta estar rodeado pelo vazio o tempo todo. Estar no espaço não é a mesma coisa que observar uma noite de céu estrelado, como se vê da terra. Estar no espaço é mais parecido com desmaiar e perder os sentidos, já não referencial em nenhuma parte. Tudo que há é nada.

O vazio pode ter diferentes formas. Gosto do vazio, do vácuo, do silêncio, do extremo frio onde nada além dele próprio sobrevive. Estar no espaço me faz sentir sortuda, vibrante, porque nos tornamos mais conscientes de quão raro somos. Algo não é a norma da física, não ter nada é a regra. O vazio é a regra.

Há um certo contentamento em acertar a forma como se vai morrer. Desde a primeira missão até a Estação espacial, assim que subi a rampa da nave soube, assim, como uma intuição profunda que não voltaria mais a terra. A única forma de fazer isso é morrendo. Ainda assim, fui em frente. O que mais eu poderia fazer?

Se tiver sorte, vou conseguir sobreviver o máximo, os dois minutos paradoxais que parecem curtos, o que são dois minutos, afinal? E tão longos, sabe quanto dura dois minutos de sufocamento e congelamento? Uma eternidade.

O espaço é assim, um paradoxo. Ele não é receptivo, nunca quis ser nossa casa. Mas, aqui estamos. Agora, ele será também meu túmulo. Ninguém vira recolher meu corpo, quando perder a consciência – coisa que farei em breve – serei apenas um pedaço de carne inerte flutuando sozinha na imensidão do universo. Até onde? Até quando?

Não há resposta. O espaço é um lugar onde as respostas são erradas ou inexistentes. O espaço é a não-resposta.

Dez segundos.

Cientistas acreditam que temos cerca de 70 mil pensamentos por dia. Sentirei falta de cada um deles, mas, sentirei ainda mais falta de ser consciente de estar onde estou. Esta é a coisa que mais me perturba em morrer, não a morte em si, mas o desconhecimento.  Para onde vão nossos pensamentos quando morremos? Para onde vão nossas memórias?

Nós ainda não sabemos, nós sabemos muito, porém, maior é o número de coisa que desconhecemos, que ignoramos. Somos seres tão ignorantes. Não saber é tudo o que temos, é nossa principal característica. O capitão da Estação, Ecklie, um sujeito alto, com uma mancha de nascença vermelha no rosto perto do nariz, gostava de dizer que somos crianças engatinhando, o espaço é o berçário.

É possível que Ecklie tivesse razão. Como uma criança tola cometi um erro por desatenção, agora o traje está furado. O que será que Ecklie está pensando agora? O que será que dirão na Terra? Posso imaginar o pânico se espalhando pelas faces daqueles que estão na estação de controle. Sei que alguns vão chorar, mas não posso sentir muito por eles.

Seja lá quem você for que encontrar essa gravação, desculpem-nos se estivermos fazendo demasiada sujeira e bagunça no espaço. Não era a intenção. Ainda não sabemos o que fazer com essa mente, e esses polegares, e toda essa vontade de ir além. Você nos perdoaria?

Cinco segundos.

Estou ficando letárgica, os pensamentos diminuem, as sensações vão me abandonando como marinheiros que se cansaram de seu comandante ineficaz, minha língua começa a ferver. Posso ouvir o ar vazando do traje de forma contínua, não é um chiado, não há barulho no espaço. Possivelmente estou delirando e imaginando para onde se vai o oxigênio.

Sou uma criatura frágil, de uma espécie frágil. Talvez outras espécies, se um dia encontrarmos, elas sejam melhores nisso do que nós. Será que terão uma pele mais dura ou pulmões que suportem o nada? Será que eles não padecem tão facilmente no vácuo? Ainda sequer sabemos o que é o vácuo.

Acho que estou me fundindo com o espaço já não resta tempo. Não faz mal, fico feliz de morrer aqui, nessa imensidão tão linda, não posso imaginar um lugar mais calmo para repousar. Quem quer que encontre essa gravação, por favor, não fique triste. Se eu amassa alguém, esse alguém seria o espaço, e essa seria minha carta de amor a ele.


Laura Elizia | Córdoba, Argentina

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Neusa Haubert 15 de setembro de 2020 em 12:04

    Profundo e inquietante. Nossa, emocionada pelo texto. Obrigada pelo turbilhão de emoções sentidos.

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