Subversa

[Entrevista -Ângela Vilma] “Sou uma desajustada no mundo. Cheguei até aqui por conta da Literatura. Sem ela não teria vingado” | por Dan Porto

 

“Porque nós, os infelizes, faremos uma festa”. Foi assim, por meio da publicação do poema Balada dos infelizes no Jornal Rascunho de setembro de 2019, que o universo me alcançou Ângela Vilma. O texto foi parar no 2º Julho Literário; eu ousei marcá-la em uma postagem, ou enviar o vídeo por mensagem, não lembro bem; A Solidão mais funda veio parar na minha estante; minha série poética foi parar na estante da Ângela; e cá estamos: em diálogo.

 

Poetisa, mas também contista, cronista e professora de Literatura na Universidade Federal do Recôncavo Baiano, radicada nas graças de São Salvador (Deus guarde a Bahia!) Ângela Vilma resiste à realidade: “enfrento-a com a poesia”. Na resistência, durante o ano passado, batemos um papo, ela de lá e eu de cá.

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Em 2015, no blog Aeronauta (http://wwwaeronauta.blogspot.com) você registra que “Escrevo para dar o tapa na cara que eu não dei […] para lavar a minha honra. Todos os dias quero […] me vingar”. Você segue escrevendo? E segue escrevendo para se vingar? De quê ou de quem?

Sim, continuo escrevendo, mas neste ano terrível, 2020, quase nada. Passei um ano doente, muito doente. Por não conseguir escrever, vivi menos, morri demais. Sem escrever, não consigo descontar os murros que a realidade me dá, todos os dias. Guardo, entalada, a dor. A pandemia me deu a tensão extrema, a total falta de vontade de viver, a atrofia. Os sentimentos ficaram encalacrados, adoecidos. Há uma confusão aqui dentro muito grande. Escrevi poucos poemas, quase nada. A minha dor não consegue ganhar forma, está em estado de nebulosidade total.

 

Você publicou livros e textos em coletâneas de 1990 a 2006, depois no blog de 2007 a 2016. O que escreveu após 2016?

Em 2016 publiquei o livro A solidão mais funda, de poesia, pela editora Mondrongo. Participei, com alguns poemas, de alguns números da revista Organismo (Salvador) e de outras antologias, como Mulheres poetas e baianas (Caramurê, 2018) e Poesia Brasileira em contracorrente (o retorno estético do século XXI) – também pela Mondrongo, em 2019, bilíngue com tradução francesa, organizada pelo poeta Wladimir Saldanha. Publiquei poemas também nas revistas Mallarmagens e Germina. E não deixei de escrever textos no Facebook e no Instagram.

 

De algum modo, a formação acadêmica em Letras/Literatura potencializa a escritora?

A formação acadêmica ajuda no sentido da consciência formal da arte. Estudar a Literatura enquanto forma artística, texto orgânico, e não só mero tema, contexto social, nos ajuda a sair da inocência – e cegueira – do sentimento. Conhecer os mecanismos da forma nos liberta da emoção fácil, das gratificações pequenas, e nos lança no universo maior: este que a forma artística dá ao sentimento, tornando-o atemporal e belo, mesmo em sua miséria.

 

Seus textos foram objeto de estudo em um programa de mestrado em 2016. Você se tornou uma escritora cult? Isso foi programado?

Acredito que não; cult jamais. Sou povão. Sem contar que, infelizmente, os textos acadêmicos são pouco lidos. Quem me lê hoje são os amigos do Facebook e do Instagram. As redes sociais deram uma recepção instantânea ao escritor solitário, que faz livros e poucos leem. Tanto que a aluna da UFBA, autora do trabalho de mestrado – Naiana Pereira de Freitas – , me conheceu lendo o meu blog Aeronauta (objeto de sua dissertação), pela internet. Só a conheci pessoalmente muito tempo depois.

 

A literatura te conduziu na vida? Como?

A Literatura me mostrou a verdadeira vida: que é a vida da imaginação; me conduziu pela vida prática. Desde criança sempre gostei muito de ler. Meu pai lia muito, não dormia antes de ler o jornal e um pouco de literatura. Ele amava Jorge Amado, e a gente cresceu nesse ambiente, minha irmã e eu. A família dele toda era ligada ao cordel, eram repentistas também.

Depois, fui estudar Letras sem imaginar que gostaria de ser professora. Só fui descobrir quando dei minha primeira aula, ao terminar o Mestrado. A literatura foi me levando pela vida prática, e hoje vivo dela. Sem ela eu acho que estaria num hospício ou teria me matado. Só a literatura me conecta à realidade. Este poema de Wislawa (A realidade, Wisława Szymborska) diz muito sobre o que penso da realidade: “A realidade não cede”. Enfrento-a com a poesia.

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Ângela ainda publicou Poemas para Antonio (P55, 2010). E além das publicações em revistas, como é o caso do poema que acompanha esta edição, prepara seu novo livro de poemas, Inúteis, que deverá ser lançado pela Editora Patuá. Trata-se da seleção de mais de oitenta textos escritos entre 2013 e 2016. Desde já aguardamos com ansiedade essa novidade que a Patuá, certamente, saberá editar com esmero.

Como não bastasse, o estupendo A Solidão mais funda acaba de ganhar nova impressão pela Editora Mondrongo, da Bahia. A mesma editora ainda deve lançar a seleção de textos publicados no referido blog, organizada por Emmanuel Mirdad.

 

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1 Comentário

  1. Rozana Gastaldi Cominal 16 de janeiro de 2021 em 15:50

    Excelente e oportuna a entrevista com Ângela Vilma. Já a acompanho pelas redes sociais, toda semana meus olhos atentos buscam sua palavra, pois seus textos são viscerais, provocativos, sem perder a ternura, o lirismo, é a simplicidade com rigor, diria. E estou cada vez mais curiosa para ler o livro dela “Aeronauta”, homônimo d e seu blog. Aliás quantos tesouros ali depositados pela rápida leitura que fiz.

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