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[Entrevista- Itamar Vieira Junior] Somos privilegiados: presenciamos o nascer de um clássico | por Dan Porto e Tânia Ardito

 

“Escrever é estar vivo. Acho que escrevemos de inúmeras formas com nossas vidas através do mundo-tempo. O que convencionamos chamar de escrita é apenas um registro. Todo escritor escreve talvez para registrar um testemunho do seu tempo, acho que esse é o meu mobilizador para escrita.” Itamar Vieira Jr.

 

Salvador, Bahia. De lá Itamar Vieira Junior tem registrado o nosso tempo, o cenário do Brasil profundo na sua amplidão de vozes. Professor com doutorado pela Universidade Federal da Bahia, funcionário do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra –, pesquisador das temáticas étnicas, estreou na literatura em 2012, com o livro de contos Dias (Caramurê, 2012), vencedor do Concurso XI Projeto de Arte e Cultura.

Na tarefa de registrar o tempo, em 2017 lançou A oração do carrasco (Mondrongo), o segundo livro de contos, indicado ao Prêmio Jabuti e vencedor do Prêmio Humberto de Campos da União Brasileira de Escritores (Seção Rio de Janeiro) biênio 2016-2017.

O livro mais recente, e merecidamente incensado, é Torto arado, chegado ao Projeto Julho Literário por indicação de Marcos Fernandes, do Blog Best Não Tão Seller. O romance foi o vencedor do Prêmio Leya 2018, publicado por esta editora, e no Brasil pela Todavia.  Além do prêmio em Portugal, foi vencedor no Brasil do Jabuti (2020) na categoria romance e também vencedor do Prêmio Oceanos (2020). Já foi traduzido para o italiano e teve os direitos comprados para o audiovisual recentemente.

Crítica e público têm apontado as qualidades técnicas do romance, como o domínio das palavras, em uma escrita suave que se contrapõe a uma atmosfera árida, sem exageros estilísticos ou rebuscamento da linguagem, respeitando o som das palavras.

Por ocasião do resultado do Prêmio LeYa, diz o júri: “O Prémio LeYa 2018 é atribuído ao romance Torto arado, de Itamar Vieira Junior, pela solidez da construção, o equilíbrio da narrativa e a forma como aborda o universo rural do Brasil, colocando ênfase nas figuras femininas, na sua liberdade e na violência exercida sobre o corpo num contexto dominado pela sociedade patriarcal.”

Na leitura do obra, encontramos um diálogo com a tradição do romance rural brasileiro, incluindo temas como identidade, ancestralidade e da religião de matriz africana. A ausência de fala de uma das irmãs, silenciada e convivendo com uma cicatriz, toma um lugar universal, pois o silêncio imposto é vivido na pele não só pela grande parte da população brasileira, mas além fronteiras.

Diante do sucesso de vendas de Torto arado e das tantas solicitações para eventos, Itamar nos atendeu gentilmente por e-mail para a breve entrevista que você confere abaixo:

 

Todos os seus livros de ficção foram premiados. Foram escritos pensando em concursos literários?

Foram escritos, a princípio, por um compromisso comigo mesmo de exercitar a escrita, já que a literatura é uma das minhas paixões. Ocorre que como eu não conhecia o mercado editorial, editoras, e mesmo escritores vivos, só me restava submeter os meus escritos a concursos e prêmios literários.

 

Sobre o enredo de Torto arado, em entrevista para a São Paulo Review, você diz tê-lo escolhido por conta das inúmeras farsas na história do país. Como pesquisador, professor, escritor, você acredita que teremos uma revisão dessas farsas e sua consequente reparação?

A revisão já ocorre pela pesquisa acadêmica, pelos movimentos civis organizados, e por alguns de nós que, como cidadãos, refletimos sobre nossa própria história. A literatura é apenas um registro, mas que tem um poder único como expressão artística de deslocar o leitor para o lugar do personagem, onde ele pode exercitar a alteridade.

 

Houve algumas tentativas de aproximação de Torto arado com o filme Bacurau. Isso te incomoda ou ajuda? Há aproximações possíveis? 

Algumas referências são feitas, sim. Não só com Bacurau, mas também com Sobre os ossos dos mortos, da Olga Tokarczuk, e mesmo Parasita, de Bong Joon-ho. Acho que são obras que tratam do tema da não conciliação, por isso a referência. Sou admirador de todos os citados, então para mim é uma honra.

 

Acredita que o trabalho dos escritores contemporâneos, em alguma medida, ainda pode contribuir para uma expansão de consciência coletiva e volta ao humanismo?

O nosso projeto de escrita não deve ser movido por essa premissa. Ele deve se aproximar da experiência humana, livre, sem censura. Mesmo que essa experiência não pareça relevante para alguns ou desagradável para outros. Mas é inegável a contribuição da literatura para a expansão do horizonte humano. É uma experiência muito íntima e envolvente, que nos transfere para o lugar do outro.

*

No horizonte, Itamar promete um novo livro de contos, por enquanto sem título pela Editora Todavia. “Torto arado é parte de um projeto maior que se debruça sobre a relação do homem com a terra. O próximo projeto parte dessa premissa, mas não há prazo para concluí-lo”, acrescenta.

 

 

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