Subversa

ENTARDECER NA VILA | Pedro Belo Clara

A calcinada pedra do dia

enfim brota em leve flor.

 

Da serra desce uma brisa

beijada por tomilho e alecrim:

vem suave

– acariciando os rostos trigueiros,

os frutos crescendo

no sonho da dádiva;

vem doce

– despertando o sono das giestas,

alisando as penas

dum estorninho cantor.

 

Na partida iminente da luz

respiram-se os aromas tranquilos

das sementes adormecidas,

o perfume dos ribeiros

aguardando a chegada da lua.

 

Risos ecoam por travessas

não há muito brancas de sossego,

duas carícias no segredo das esquinas

dançam como lábios que se abraçam;

 

vozes distantes evocam memórias

sem nome que as valha

e um antiquíssimo canto

recomeça na frescura das fontes.

 

Só um jovem coração

nas pedras da rua

em vão procura

um amor que deixou escapar.


PEDRO BELO CLARA nasceu em Lisboa, Portugal. Um ocasional preletor de sessões literárias, atualmente é colaborador e colunista de diversas publicações literárias portuguesas e brasileiras. O seu último trabalho foi dado aos prelos sob a epígrafe de “Lydia” (2018). É o autor dos blogues Recortes do Real, Uma Luz a Oriente e The beating of a celtic hear.

Sobre o Autor

4 Comentários

  1. conceição lima 12 de julho de 2021 em 18:27

    O poema revela, na verdade, alguma diferença, em relação à linha dos anteriores, não escapa à magia das fontes nem ao cicio das folhas…Mais narrativa? Com certeza… MaIs discursiva? Sim, mas as palavras continuam a levar-nos a uma foz em largo estuário…Obrigada!

    • Pedro Belo 12 de julho de 2021 em 19:25

      Obrigado eu, minha amiga! É sempre um prazer saber um trabalho meu merecedor da sua atenção. Fico muito grato.
      Sem dúvida que assim é… É outra parte de mim, diria, outro modo de expressão pessoal. O veio lírico, mais difundido, vai secando um pouco e novos caminhos vão sendo explorados. Faz parte. O lírico também encontra a sua evolução, claro, novos modos de cantar sem perder a melodia base que lhe é característica, mas por vezes sabe bem, há necessidade, até, de enveredar por outros rumos. Estes trabalhos foram desenvolvidos um pouco nessa óptica, alimentados por essa necessidade.
      Renovo os meus agradecimentos, cara Conceição. Espero que se encontre bem, assim como todos os seus.
      Beijos e até breve.

  2. Pedro Marques 29 de julho de 2021 em 11:52

    Um poema que me sabe a rio, a giesta e a pinhal juncando o chão de pinhões de pinhas mansas; me evoca o assobiar do gaio, o som das lágrimas da fonte, o entardecer quente entre as searas. O poema não é só o imaginário do poeta , mas também o imaginário de quem o lê.
    Lindo poema.

    • Pedro Belo Clara 1 de agosto de 2021 em 16:33

      «O poema não é só o imaginário do poeta , mas também o imaginário de quem o lê.» – nem mais, meu caro. Muitíssimo bem dito. É talvez uma das maiores valências e belezas da arte: aquilo que nela podemos ver, aquilo que de nós nela encontramos – mesmo que o seu autor não tivesse tal intenção. Então, a obra torna-se também um pouco nossa. E assim como a nós aconteceu, acontecerá no próximo. Talvez por aí se diga que certas obras, as maiores, se tornam património de todos nós, uma herança humana: não só contam a nossa história, ou alguns episódios dela, como se tornam o espelho do nosso próprio percurso, da nossa memória, do nosso desejo, da nossa ânsia mais recôndita.
      Muito grato pela sua leitura e respectivo comentário.
      Um forte abraço! E até breve.

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