Subversa

Ela pensava que a pessoa é obrigada a ser feliz | André Siqueira


Me embriago de café nesta tarde
sem Madama Butterfly,
quem sabe um sumi-ê.
Não.
Uma epifania buliçosa pela
cozinha, indícios de salvação.
Não.

Já é hora (falta pouco) para o jantar
então pego alface, tomate. Despedaçá-los.
Eis que encaro:
escarlate do fruto ou de meu
retesado sangue?
Esclareço:
corte no médio canhoto.

Ensaiar a fusão do mato mais vulgar
com a sinfonia (compô-la) da
amada, estalactite que quer submergir
no espírito com raízes da
natura perdida da felicidade.

No banho abro o registro. Choque
no corte mas a vida não
acorda só dormita estranha
perdendo tempo absorta e inútil.

Me embriago de mim mesmo
alcaloide à deriva
de furor trespassado pelo café
amargo que adentra
– escureza que desce nesta
caverna domesticada dando à
luz tolerâncias pantanosas na
plateia de uma ópera naufragada
em meio ao pânico do nada
pode ser feito.

Somente suportar a ração que
passa debaixo da lucidez inflamada.


André Siqueira | Jacareí, Brasil | andremorrissey@hotmail.com

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Iris Franco 21 de junho de 2019 em 23:58

    Nossa, eu viajei neste poema! Nunca pensei que um corte pudesse levar a uma reflexão tão profunda! Que lega, muito bom mesmo! Adorei.

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