Subversa

E foi aí que eu virei árvore | Vicent Bernardo


As tardes se passaram e eu estava em meu quarto todos esses dias, na frente do computador tentando fazer algo produtivo. A xícara de café que peguei no dia 01 ainda estava ali, com formigas devorando o resto do leite endurecido no fundo. O café não me fez falta, havia pedido para meu colega de quarto comprar um estoque de energéticos e mesmo preocupado ele ainda vinha me entregar uma latinha daquele líquido ácido com um sabor de guaraná extremamente enjoativo, mas que realmente faz efeito.

Eu já não sabia mais o que era dormir, a ansiedade havia me consumido de um jeito que ao pregar os olhos tudo o que me vinha à mente era o trabalho. Estava sujo, fedido, um pouco acabado. Parecia ser muito mais velho do que realmente era. Meus olhos estavam cansados, profundos, quase escapando de meu rosto, enquanto minha boca pálida estava já quebradiça como um monumento de areia prestes a desabar.

Havia desistido de dormir no dia 05, quando meus pelos já estavam começando a pinicar e eu, que não tive tempo de apará-los, apenas cocei e cocei cada vez mais até irritar meus poros e inflamá-los. No dia 10 eu já estava irreconhecível. Meu colega de quarto, o Pedro, havia ligado para meus pais para que viessem e me fizessem sair do quarto, mas eu não podia fazer isso, precisava terminar tudo o que eu tinha para fazer ali.

Meu corpo havia endurecido na mesma posição no dia 20, só minhas mãos se moviam para receber os e-mails dos meus clientes e fazer tudo o que me pediam, enquanto eu sentia meus pés criando raízes no chão. No dia 25 encontrei uma pequena folha murcha no topo da minha cabeça, mas não consegui tirá-la, pois os meus braços estavam grudados em meu tronco.

Meu coração começou a bater mais lentamente à medida que meu corpo se petrificava. Foi quando decidi tentar me levantar que finalmente caiu a ficha do que estava acontecendo comigo. Meu corpo estava se transformando, enquanto minha mente trabalhava sem parar. O cansaço extremo havia me feito uma metamorfose, já que eu não mexia boa parte do meu corpo, eu ao menos deveria servir a um propósito além do trabalho excessivo e do exagero de consumo dos energéticos.

Pouco a pouco fui me transformando, meus pés criaram raízes duras e grossas, enquanto minhas pernas atrofiadas se uniram e formaram a parte inferior de meu tronco. Meus braços viraram galhos tortos e finos, enquanto minhas mãos, que ainda eram feitas de carne e osso, lentamente se transformavam em espinhos.

Decidi que era hora de parar, sair um pouco, respirar um ar antes de dar adeus ao meu curto momento na terra. Sim, perdi minha vida pelo trabalho, mas ao menos continuarei aqui por muito tempo sendo útil para o mundo, era o que eu dizia a mim mesmo enquanto sentia-me endurecer. As raízes se desprenderam do chão para que eu andasse até a rua, caminhei pesadamente enquanto meu colega de quarto corria atrás de mim apavorado.

Foi então que encontrei uma pequena área sendo preparada para receber uma mudinha aqui perto de casa, talvez fosse o destino preparando o mundo para mais um acontecimento extraordinário. Senti o cheiro adocicado que infestava o ar da pequena cidade de Dom Ferdinando, nas montanhas de Pernambuco, enquanto me aproximava lentamente da área verde, olhando as pessoas me notando e se assustando.

Então, me encaixei na pequena área e senti minhas raízes penetrando o chão, tamanha a tesão e sede que sentia, foi surreal. Os grãos de terra recém-molhados, as larvas e minhocas se arrastando de um lado ao outro, o eu não me sentia mais obrigado a fazer nada além de estar ali, respirando, vivendo, sabe? Foi tão gostoso me libertar do fardo de ser uma pessoa com responsabilidades, com aquele demônio da ansiedade sempre a espreita enquanto meu corpo definhava para fazer suas vontades.

E foi aí que eu virei árvore…


VICENT BERNARDO ALVES | Aracaju, Brasil | vicentbernardoalves@gmail.com

Sobre o Autor

4 Comentários

  1. Lis 16 de setembro de 2019 em 11:35

    Muito mais que, profundo e encantador!

    • Vicent Bernardo 1 de outubro de 2019 em 12:28

      <3 obrigado

  2. Rodrigo 16 de setembro de 2019 em 11:43

    Perfeito demais, amei cada verso!!

    • Vicent Bernardo 1 de outubro de 2019 em 12:28

      Vc é um amor <3

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367