Subversa

Dos afetos da constância | Stella Lacerda


Quase toda semana, meu pai vai à feira só para comprar o queijo de coalho ferrado que eu gosto. No mesmo dia ele avisa: “O queijo na geladeira”. E, no tardar dos dias, invariavelmente, diz: “E esse queijo? É bom, né?”. É. Ele deve achar que eu não reparo. Mas eu reparo em tudo. Sempre. Se o queijo demora um pouco mais, me pergunto o que aconteceu e o quanto de culpa carrego no (in)acontecido. O queijo é chamado assim por ser marcado com ferro, a marca identifica que ele veio do sertão ou de um produtor sertanejo, que é pré-cozido e aerado, do jeito que eu gosto. Não deve ser premiado, mas eu tenho certeza que é o melhor queijo do mundo. Porque é o acompanhamento ideal para o arroz vermelho ou para um rubacão com feijão de corda. Porque é da minha terra, está sempre aqui, e eu nunca enjoo dele.

É que esses afetos da constância me comovem mais do que quaisquer outros. Assim, assíduos, me encantam em sua qualidade de sempre estar lá, e em abundância, porque eu demando estas presenças, mesmo que para meramente observá-las, ou esperá-las. As presenças a conta-gotas me desassossegam quando equivalem a inúmeras ausências, distâncias, e palavras não ditas.

As palavras, elas também são muitas e contínuas, fontes e formas de afeto que passam sobre a cabeça e circulam pelo meu corpo desde o princípio. Foi o meu pai que me ensinou a juntá-las em sílabas, depois de perceber que eu precisava aprender a reconhecer seus signos com certa urgência, já que elas não paravam de verter da minha boca e, pela espuma que derramava, não poderia esperar pela escola e seu tempo tão devagar. Assim, quando sentei naqueles bancos, já riscava inúmeras sílabas no céu da boca, nas paredes e nos móveis. Nessa mesma época, meu pai costumava fazer peixe com batatas no forno, era minha comida preferida, que, no itinerário da mente infantil fantasiosa, talvez me encontrasse mais vezes ou mais rápido do que no plano dos acontecimentos. Impossível saber. As noções de tempo e espaço ficam prejudicadas diante das coisas preferidas, e de suas lembranças, quando não mais permanecem.

Foi na infância também que descobri o mel, e é evidente que o dulçor não é coisa rara na língua dos pequenos, que costuma ser feita de açúcar, mas a lembrança da constância da cor âmbar é a minha, do meu tempo, e que se prolonga até hoje, em vidro largo. É que desde o início, o tempo da minha respiração é desencontrado, e os silvos dentre os pulmões sempre chegaram aos ouvidos do meu pai como som amargo, a ser adoçado. Então, ainda hoje, quando não sou tão grande, e apesar dos zumbidos dos meus ouvidos, ele ainda escuta os silvos baixos e avisa: “Tome o mel”. Na garrafa se vê escrito, em sílabas juntinhas, que a medicina também vem de terra árida.

É de se perceber a confusão que existe entre alimento e emoção para o meu pai. Talvez porque ambos tenham lhe faltado ao mesmo tempo, a comida se confunde com o afeto. Certamente as duas ausências se alojaram no mesmo canto do corpo e, por isso, não consegue senti-las em descompasso.

Por demonstrar o valor do alimento, meu pai me ensinou que há coisas que só são boas se vierem do sertão, porque despontam daquela terra e de mais nenhum outro lugar. Qualquer outra coisa é mera réplica que não satisfaz as papilas gustativas. Porque existe a Canaã de cada um. Mas também aprendi que toda terra fértil é assim, feliz, porque dá seus próprios frutos, esconde suas raízes únicas, e suas próprias nascentes. Tem que saber o que de melhor cada terra dá. E que podemos plantar ou comer de outras terras. Aí residem a importância dos espaços e a gastura da saudade.

Por fincar o afeto nas pequenas constâncias, meu pai me ensinou o valor da espera. É que leva tempo para produzir o queijo, o mel, para juntar as sílabas. Logo, o valor da espera se fixa na constância. Pois é o tempo da espera, sua cadência, que pode até ser descompasso, que testa as nossas predileções e revela a importância de todas as coisas. Não é tudo que se espera, não é tudo que permanece. Cada coisa é conduzida em fios do tempo distintos, que se encontram e desencontram pelo caminho. Fio nenhum é igual ao outro, e tecê-los é como juntar sílabas. Aí residem a importância do tempo e a gastura dos desencontros.

Leite, mel, peixe e escrituras são coisas sagradas para algumas religiões, e na minha casa não é diferente. Nessa Canaã particular, os oratórios foram se espalhando pelo tempo e espaço, cristalizando dogmas e fermentando costumes, dentre os fios dos dias. Os símbolos que se apagaram, e os signos dos novos tempos dão corpo a este sincretismo que é a única religiosidade possível nesta terra e tempo.

Observando os gradientes de cinza na cabeça do meu pai, enquanto cerro os olhos da mente a buscar a lembrança de como os seus cabelos eram quando me trazia um prato de peixe com batatas, entendo a sacralidade dos afetos da constância, da terra e dos fios do tempo. Abro os olhos. Um copo de suco. “Para os seus pulmões, é abacaxi com mel.”.


Stella Lacerda | João Pessoa, Brasil | stelladelacerda@gmail.com

Sobre o Autor

2 Comentários

  1. Ana Clara 16 de maio de 2020 em 07:07

    Fiquei emocionada, uma boa narrativa é assim, toca nosso íntimo.
    Muito orgulho dessa “pessoinha” tão cheia de emoções dentro de sim, e que consegue transformá -las em algo tão sublime.

    • Lúcio Palitot 22 de maio de 2020 em 17:18

      Parabéns Stella! Seu texto me fez vivenciar seus sentimentos e lembranças como se fossem meus!

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