Subversa

Dor suspensa | Flávio Sanso


Raio-x. Ultrassom. Mamografia. Palavras em tipografia. Letras metálicas e justapostas na fachada de um muro, de trás do qual a moça surge aos saltos, no estilo Saci-Pererê, um dos pés – pendente, descalço e inchado – é a causa da careta de dor, não uma dor qualquer que caiba em algum relatório anatômico, falo de uma dor mais apropriada a abordagens poéticas e, sendo assim, tomando emprestado o que já disse o poeta, esta é a dor que deveras sente.

Um braço a envolve pela cintura. Quem exerce a função de muleta de carne e osso é um homem mais velho e mais baixo que ela, talvez o gesto funcione como solidariedade, mas na prática demonstra pouca serventia, a moça continua a ter dificuldades para se movimentar, só o que conseguiu avançar aos pulinhos foram míseros metros a custa do esforço estampado no rosto contorcido de padecimento. Aí então acontece a surpresa. Impulsionado por uma ideia providencial, o homem ajusta o corpo e num movimento de muita agilidade pega a moça nos braços e passa a carregá-la, sem que ela, descontado o constrangimento inicial, se oponha à iniciativa.

Ao tomar para si uma missão tão vistosamente hercúlea, ele não transparece incômodo algum, não bufa de cansaço, não cora de acanhamento, o que parece sentir é uma espécie de regozijo heroico. E a composição à la Pietá vai abrindo alas entre a curiosidade das pessoas, que diminuem a marcha, sendo fácil adivinhar que muitos já têm os dedos coçando de vontade de deitar o celular na posição em que a cena inusitada possa ser enquadrada, mais um tema para alimentar o trânsito faminto de redes e grupos.

Eles vão se afastando em direção aos fundos de uma rua. Quando estão na iminência de sumir de vista, ela recosta a cabeça nos ombros dele e chega a fechar os olhos. Quem quer que consiga de algum modo gravar este instante, seja na memória de um celular ou na boa e velha memória da cabeça, tem amostra de como funcionam os dias, esses emaranhados de tempo intercalados de períodos de suspensão da dor, a dor que ela deveras sentiu, sente e sentirá, mas não agora.


Flávio Sanso | Rio de Janeiro, Brasil | flavio.sanso@gmail.com

 

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