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Deveríamos ser deuses | Cláudia Köver (Lisboa, Portugal)

Deveria haver um compartimento no nosso corpo reservado apenas à saudade. Não teria de ser grande, porque a saudade, no geral, aperta sempre.
Aperta o coração.
Deveria ser proibido sentir uma angústia que não se pode resolver.
Proibido não por lei, mas por ensinamentos de infância, ou por inquestionáveis leis da física.
Deveria ser possível fechar os olhos e encontrarmo-nos com outros em sonhos. Num mesmo sonho.
Ao invés de sonharmos com alguém que, por sono pesado ou desinteresse, não se lembra do que sonhou.  Deveria ser fácil gostar das pessoas.
Na realidade, é.
Mas, tal como sucede com todos os simples sentimentos, complicamos um pouco, sofremos um pouco. Talvez para moldarmos os nossos caminhos mortais um pouco mais à semelhança das trágicas epopeias gregas.
Deveria ser tudo perfeito. Mas o quase é a palavra que mais se adequa ao Ser humano.
A única coisa total é o sentimento.
Não se pode “quase” sentir.
No fundo, os nossos sentimentos são a única característica que nos assemelha aos deuses. Mesmo que apenas por um segundo.
E o sentimento dos outros é o que faz de nós mortais. Porque estes, não os podemos comandar.


CLÁUDIA KÖVER, lisboeta de origem alemã, vive actualmente em Bruxelas onde se dedica à comunicação estratégica em assunto europeus. Em 2010 ganhou o Prémio Jovens Criadores (categoria conto) e publicará brevemente na revista galego-portuguesa Revirada (poesia). | CLAUDIA.KOVER@GMAIL.COM

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