Subversa

Destaque: Cinco estudos para o retrato de um pássaro | Edson Costa Duarte (Campinas/Dublin)

Ilustração: Neal Pickhaver

Ilustração: Neal Pickhaver

I

Não tenho asas

mas sei o tormento do pássaro.

Confabulo com a chuva

e há muito canto meu canto.

 

Sou mudo

raras vezes

canto.

O peso do silêncio

me abate quando

menos espero.

 

Das cinzas do meu sonho

renasço pássaro.

 

II

Coleciono penas

feito criança implume.

Afogo

minhas mágoas

meus desafetos

no sonho de ser pássaro.

 

III

Conheci as cinzas

do fogão à lenha.

Desde menino

armei arapucas.

Meu pai pagava

para eu soltar

os passarinhos.

 

Conheci desde cedo

a angústia de ser preso

desespero e medo.

 

Hoje

das cinzas do que fui

construo o pássaro.

 

IV

Um canto

nunca se esquece.

Ecoa até a alma.

Floresce

feito flor implume.

Nunca fenece.

 

V

Do bem-te-vi

guardo o canto.

Essa dor de estar

preso a um corpo.

 

E outros trinados

mais graves

menos amenos

que o grito

de um ser humano.

 

 

SOLO

 

O pássaro que fui

canta em bem-te-vi.

Ai, bem-te-vi, ai ai.

 

O canto que ouvi

Rubro longe daqui.

Ai, bem-te-vi, ai ai.

 

O canto que eu vi

Triste-alegre nada ali.

Ai, bem-te-vi, ai ai.


EDSON COSTA DUARTE (Pratápolis, MG) estudou letras na Unicamp (1988-1991), fez mestrado sobre a obra de Clarice Lispector (1992-1996) na mesma universidade, e doutorado na USFC (2002-2006), sobre a poesia de Hilda Hilst. Entre 2007 e 2009, fez pós-doutorado no IFCH, Unicamp, sobre e prosa de Hilda Hilst. Escreve poesia e prosa há muitos anos, tendo publicado quatro livros: Diário de um P.M.D. ou Diário de um diagnóstico (CBJE, 2008); Lírica impura III (CBJE, 2008); Cartas para o Nunca (Madio Editorial, 2010); Líricia impura I (EDUFSC, 2011). Publicou também vários textos em sites da internet e em revistas impressas. Trabalha com preparação e originais, revisão de textos e aulas particulares de português desde 1996. Corrigiu as redações dos vestibulares da Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente vive em Dublin, desde outubro de 2015. | DUARTEAZUL@IG.COM.BR

 

 

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