Subversa

(Des)construindo a noção de texto | Pedro Lima (Curitiba, PR, Brasil)

A CAIXA | @mariliamoser Acrílica sobre tela

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A priori, conceituar a noção de texto aparenta ser uma tarefa rápida e efêmera: uma pessoa leiga em Linguística não exitaria em tentar fazê-lo, muito provavelmente definindo-o como um enunciado escrito e estruturado dentro do esquema começo-meio-fim. Entretanto, essa definição se mostra superficial ao ser rapidamente testada, pois ela não abarca uma série de nuances e possibilidades.

Dentro da literatura há claros exemplos: ao seguir tal conceito à risca, um romance como Lolita, do escritor russo Vladimir Nabokov não seria um texto, uma vez que a história, em suas primeiras páginas, já revela o desfecho da trama a ser apresentada: o fictício professor de filosofia John Ray escreve um breve relato sobre como a obra chegou às suas mãos, bem como o destino final de vários de seus personagens e emite impressões sobre eles. A obra se propõe, portanto, a mostrar ao leitor como a trama chegou ao ponto em questão. Lolita, considerado um clássico da literatura mundial, se constrói na cabeça do leitor a medida que a leitura avança, como um quebra-cabeças: as peças vão se encaixando conforme o leitor as conhece e as “experimenta”[1] (o experimento aqui é considerado as possibilidades de como a história obteve o seu final, revelado no início do texto).

O poema As meninas da Gare, de Oswald de Andrade, também apresenta um fenômeno peculiar: ao lê-lo, sem procurar realizar uma análise muito elaborada de sua leitura, o leitor verá nele a descrição de um grupo de meninas bonitas e pueris. Ao saber, no entanto, que a expressão do título tem origem no francês e que originalmente se refere às profissionais do sexo que trabalhavam perto de estações de trem, o leitor não verá mais inocência alguma nas meninas descritas no poema do escritor modernista – ou, ao menos, não verá tanta inocência como via antes. Ao saber, também, que o poema é a transcrição literal de um trecho da carta escrita por Pero Vaz de Caminha ao Rei Dom Emanuel I em que o navegante descrevia as suas primeiras impressões ao chegar no que hoje é o território brasileiro, o leitor também não fará a mesma leitura feita inicialmente.

Uma leitura breve e passageira gerará uma interpretação específica de As meninas da Gare, a qual possui o seu próprio sentido. Uma leitura apurada e minuciosa, na qual se procura obter informações extras que venham a acrescentar novas conclusões, gerará uma outra interpretação do poema. E ambas são sustentáveis e possíveis de serem mantidas dentro das dimensões em que se apresentam.

Está claro, pois, que Lolita e As meninas da Gare não são leituras convencionais. Contudo, ambas apresentam uma coesão (logicidade) e coerência (sentido) inegáveis, ainda que a seu próprio estilo.

Essa afirmação é considerada hoje um dos maiores princípios da Linguística Textual. A professora de Linguística da Universidade Estadual de Campinas Ingedore Koch – uma das maiores autoridades brasileiras dentro da área – afirma em seu livro O texto e a construção dos sentidos, lançado em 1997, que “… se a coerência não está no texto (…) ela deve ser construída a partir dele (…)”. Logo, o esquema anteriormente mencionado, começo-meio-fim, pode não se apresentar sob parâmetros considerados comuns, mas ele se comporá diante do leitor assim que ele ler o texto que lhe for apresentado, qualquer que seja ele.

Dessa forma, uma nova definição de texto se faz necessária, mais abrangente e ampla do que a supracitada. Com base nos dados discutidos, é possível definir o texto como sendo “todo enunciado que vise transmitir uma mensagem ao longo de sua leitura”.

Ainda que essa nova definição seja mais precisa do que a anterior – a qual é pautada apenas no senso comum – ainda é possível questioná-la e problematizá-la: todo texto é compreendido somente através da leitura de um enunciado escrito? Evidentemente, não.

Pensemos num congresso, por exemplo: o palestrante transmite uma mensagem aos seus ouvintes e a sua fala está estruturada dentro do esquema começo-meio-fim, o qual pode se apresentar, conforme já demonstrado, de diversas formas. Ele pode utilizar artifícios pouco convencionais para alcançar o seu alvo, como, por exemplo, falar sobre uma tribo indígena isolada na Selva Amazônica para explicar suas ideias sobre economia ou apresentar um trecho da Bíblia à plateia e revelar que ele faz parte dessa obra após propôr reflexões sobre outros assuntos, visando assim uma meta que, até determinado momento, apenas ele conhecerá. Ainda assim, ao terminar a sua palestra, os ouvintes sairão dela com uma mensagem bem clara em suas cabeças, podendo tecer comentários e conclusões logo depois.

Logo, a conclusão de que o conferencista transmitiu um texto aos seus ouvintes é inevitável de se chegar. Ainda que textos transmitidos oralmente e pela escrita possuam mecanismos próprios de articulação e estratégias específicas para interagir com o leitor, impedindo-o que ele se canse e se entendie, ambos possuem um objetivo claro: transmitir uma mensagem.

Embora um desenho também contenha uma mensagem, defini-lo como texto seria uma atitude precipitada, devido à sua alta carga de subjetividade e à noção de que ele está atrelado à arte – que pode muitas vezes ser abstrata, ou seja, o autor do desenho em questão pode não querer transmitir absolutamente nada com ele – compromete uma análise dele como pertencente à categoria texto. Para fins didáticos, não entrarei nessa discussão.

Uma nova definição de texto, após as análises aqui feitas, se apresenta: toda manifestação linguística oral ou escrita que vise transmitir uma mensagem, sendo a mesma estruturada dentro do esquema começo-meio-fim. Ainda que esse esquema não esteja claro em alguns casos, é possível traçá-lo e identificá-lo: um grito de socorro é nitidamente um texto[2]. O emissor transmite, ao gritar tal palavra, uma mensagem com começo (“Não estou bem.”), meio (“Preciso de ajuda.”) e fim (“Alguém venha me ajudar!”).

Com tal definição em mãos, é possível compreender melhor a própria origem da palavra texto: ela vem do latim TEXTUM, que significa tecido. Como todo tecido, o texto entrelaça (no caso, ideias), une (através dos articuladores) e visa formar um todo. É curioso notar também que, assim como o texto, o número de arranjos possíveis que fios podem fazer para formarem juntos um tecido é imenso.

 

Referências bibliográficas:

 

KOCH, Ingedore. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 1997.

COSTA, Iara Bemquerer e FOLTRAN, Maria José (org). A tessitura da escrita. São Paulo: Contexto: 2013.

BENTES, Anna C. Linguística textual. In. MUSSALIM F. E BENTES, Anna C. (Orgs.) Introdução à linguística: Domínios e fronteiras. S. Paulo: Cortez, 2001.

NABOKOV, Vladimir. Lolita. Tradução de Jorio Dauster. Rio de Janeiro: O Globo, 2003.

ANDRADE, Oswald de. As meninas da Gare. Disponível em <http://www.portugues.com.br/literatura/oswald-andrade—modernista-revolucionario-.html>. Acesso em: 03/12/2014.

[1]          Para mais informações sobre esse assunto, recomenda-se a leitura do capítulo Coerência, do livro A Tessitura da Escrita, de Iara Bemquerer Costa e Maria José Fontran.

[2]          Stammerjohann (1975) foi o primeiro a definir um grito de Socorro como sendo um texto.

 


PEDRO LIMA é aluno de Letras da UFPR, trabalha atualmente como tradutor para o site Literatortura.

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