Subversa

Depois da metamorfose | João Vitor H Jaeger

 

Um sonho me acordou. Lamento não recordar o que se passou em minha vida onírica, mas estou certo de que a mesma fora intensa no profundo da madrugada. Às vezes, tenho a impressão de que a passagem do sonho para a vigília se dá por algum elemento intermediário, comum a ambos os estados da alma. Assim foi, tenho certeza, apesar de minha memória me pregar peças a essa hora da noite. Mas conservei, ao longo do dia, um estado de espírito. Talvez uma estesia. Acrescento que tenho notado algo de diferente na minha forma de perceber os sentidos. Por isso, ressalto que estesia seja a palavra mais precisa quanto a isso que noto estranho e impreciso desde então. Consigo apenas registrar que essa noite passada foi densa. O escuro que vivi entre o dia anterior e hoje teve uma densidade própria. As noites, todas as noites, se tornaram noites densas. Lamento não conseguir descrever de forma mais correta, ainda que seja essa minha presente volição. De fato, tomo esses apontamentos também na tentativa de compreender o que apenas percebo esteticamente estar outro.

Ergui-me, ainda com os olhos semicerrados, tentando distinguir o que se punha diante de mim. Não era claro tudo o que estava vivendo naquele suposto despertar. O quarto era preenchido por uma luminosidade baça que atravessava as frestas da persiana quase fechada. Olhos e janelas, pálpebras e cortinas semicerrados. Ela permanecia deitada enquanto eu avançava para dentro da manhã. Algo estava diferente. Ela já está de pé e se aproxima de mim. Algo mudou

Soubera eu desenhar retratos. Substituiria as letras pelas linhas do seu rosto. Acompanho seu caminhar um pouco desajeitado como quem atravessa o umbral do mundo dos sonhos para o mundo da vigília. Talvez sua mente ainda esteja noutro paralelo onírico relutando contra o magnetismo do corpo desperto. Agora a claridade está mais intensa e reluzente na pele alva. Com a luz desenhando-a pelos flancos, observo-a encurtar a distância de nossos corpos. Hesitante, ela se aproxima sem ver o que estou vendo. É noite que se forma do outro lado. Ela ali servindo de ponto de contato entre o claro e o escuro, a luz e a sombra. Ela me toca com um beijo e serve uma taça de café passado. O que aconteceu?

Volto às minhas notas depois de um breve cochilo. Tenho dificuldade de permanecer atento e desperto, mesmo que intente não perder nenhum instante da escrita. Às vezes, as ideias flutuam e apenas de maneira fugidia consigo capturar o que elas querem dizer. Porém, distraio-me com a ventilação ora suave ora intensa dela aqui tão perto. O ar balança para dentro, para fora de suas narinas criando assim, uma cadência noturna. Como nunca tinha notado isso? Como, depois de tantas noites ao seu lado, somente agora percebo o ritmo da noite que tantas outras vezes senti sem compreender? Ela dorme, e mesmo dormindo, captura meu olhar. Contemplo-a estirada na cama sob os lençóis como alguém que observa uma escultura realista e se encanta com a sutileza e maciez do mármore. Buscando encontrar nesse estado intermediário entre o sono e a vigília, a pedra angular de uma existência na carne. Assim, vou flutuando também para dentro dela. Dentro de mim.

Fui para o banho como era de praxe. Sempre preferi molhar meu corpo pela manhã. Acrescento que continuo preferindo banhar-me em um chuveiro frio. Não importando qual seja a estação, as águas a contornarem meu corpo precisam estar geladas. Essa manhã não foi de outra maneira. Ao toque da primeira gota sobre o ombro direito, fui levado para as águas gélidas das cachoeiras no inverno. São memórias que revivo na temperatura da minha pele, no tremelique incontrolável e no grito inevitável de dor e satisfação. Através da contração de todos os músculos do meu corpo, rememoro, revivo histórias sem poder trazer uma fotografia. São episódios grafados na pele enrugada depois de horas em baixo da água, episódios pintados na roxidão dos lábios e da ponta dos dedos. Lembranças acalentadoras de um tempo que me rasgou e que evoco pela temperatura. O chuveiro passou a ser uma espécie de cachoeira urbana. É preciso uma parcela anoitecida para que se possa tecer a trama aquosa dessa experiência. O que percebo agora é que a água, a pele, a memória, se compuseram em um único instante. Ali, trazendo para dentro de casa a cachoeira da minha história, domesticando também as águas, controlando seu fluxo conforme minha vontade enquanto abro mais intensamente o registro, ou interrompo seu movimento, pude e posso viver também o que se registra em mim. Eu ali, tomando em meus braços, torso e ventre, as águas gotejantes que se lançam na minha direção. As águas também buscam o colo. Revivendo, de um jeito outro, a primeira vez que me lancei nas águas, saltando na direção do imprevisível. Estou nu.

Visitamos seus pais, como se faz habitual e sistematicamente. Enquanto ela se aproximava da família, eu me retirava para o jardim. Ali me sentei, como muitas outras vezes o fiz. Dessa vez, foi durante o entardecer que outro acontecimento banal me surpreendeu por sua novidade.

Algo dessa novidade torna complexo o ato de escrever, pois percebo que não consigo encontrar uma palavra horizontal, que sirva para experiência vertical do texto que escrevo. Eu estava sentado sob o abrigo da sombra de uma caneleira. Era final de tarde. Poderia tentar assim: O sol se punha. Todavia, não acredito que fosse servir plenamente, pois o sol também caía. Então, o sol caía no entardecer. Que idílio avistar a cena cadente de uma estrela candente se jogando, se arremessando, caindo no entardecer que a acolhe em toda sua extensão. Parece que não consigo mais, restrito à linearidade da escrita, descrever de forma suficiente o que vivi. Pois eu também era parte desse sol que me entregava para os braços da noite que se aproximava. Eu estava ali, recostado, desfalecendo, confiante que a noite pudesse me receber em seu colo. O sol se despedia. O sol estava se ponto nesse movimento paradoxal em torno da terra que orbita entorno dele. O sol, fixado no centro do sistema solar, mantém o movimento pendular da vida e da morte a cada ida e vinda. Vê-lo nascer a cada manhã satisfaz a nostalgia de uma era em que habitávamos o centro do universo. O sol, nascente e morrente, era também um pouco de mim que ali nascia como percepção. Deixava seu rastro flamejante no alaranjado celeste. As nuvens ardem a cada entardecer.

Era a primeira vez que via a incidência dos raios solares atravessarem o verde das folhas. Eu estava seguro na sombra, contemplando essa despedida. Algo acontece no momento intermediário entre o dia e a noite. Tonalidades doiradas, levemente opacas, recheavam a atmosfera. A tarde caía como um véu. Eu ali olhando para o alto dessa árvore tentando buscar seu cume, observando a claridade baça, ainda que penetrante. Pois estava eu, desconhecendo o tempo em que vivia. Eu estava ali, onde acredito já ter estado antes, mas dessa vez num ali que habitava pela primeira vez. As folhas, a persiana, meus olhos, tudo semicerrado, permitiam apenas uma semivisão do que acontecia no todo.

Tenho muita dificuldade para exprimir o exato sentimento e percepção que me acompanharam e ainda me acompanham. Mas o que vivi, tentando recompor e ordenar os acontecimentos do dia, o que vivi, de fato, poderia se traduzir assim: eu vivi o entardecer. Estava ali mesclado com a temperatura, as tonalidades, as cadências do fluxo natural da vida. Eu vivia, no que é mais íntimo do que se pode dizer estar vivo, eu vivia o pôr-do-sol. Tentei capturá-lo como uma fotografia, encarando-o em sua queda sem mover as pálpebras. Tentava queimar, no filme da retina, a sua imagem. Tentava fotografar na carne da visão sua existência fugidia. Eu queria carregar essa tatuagem estelar para dentro de onde habito. Voltamos para casa.

Tentei, ao fechar os olhos, encontrar o ruído amarelecido e incandescente daquela estrela que vi partir. O sol partia. Não me satisfiz com o escuro em meu olhar. Almejava manter a imagem estanque, ainda que estivesse em movimento. Não queria ter dito adeus. Queria ser visto também diante dos olhos de fogo dessa esfera solar. O sol partia. Quedava tentando captar seu movimento, saber algo de sua trajetória. Quantas vezes acompanhei teu movimento sorrateiro diante da minha cabeça sem que tu pudesses perceber minha contemplação? Como redigir esse estado de espírito? O sol partia. E também partia meu ser. Queria mesmo trazê-lo para dentro de casa, domesticar também sua energia, calor e luz. Mas o sol me escapa, apesar de qualquer esforço. Vestígios, apenas, de uma trajetória sideral que permanecem cravejados no universo visual. O apartamento reluz uma cor outra. Talvez seja eu outro a olhar o suposto mesmo apartamento. Ainda reluto em acomodar isso outro que está aqui.

Ao escrever essa palavra, sou tomado de um encanto profundo. Esse termo e arquitetura, essa habitação que nos coloca a parte. Que de certa forma nos aperta, que nos faz viver também apartados. Esse substantivo abstrato montado em concreto. Substantivo concreto para uma vivência abstrata. Assim, em apartamentos, vasos, ou em outras formas de distanciamento, criamos uma forma de metasobrevivência que nos sustenta na ilusão de estarmos juntos.

Passei a me sentir como se também fosse parte das coisas com as quais me relaciono. Os órgãos dos sentidos, grãos de sentido, parece, passaram a ser um portal de comunicação e comunhão com o que antes eu compreendia estar lá fora, diante e alheio a mim. Agora, quando ouço um pássaro cantar, ouço um canto difícil de distinguir se dele ou meu. Difícil também me posicionar no que antes chamava de interior. Minha anatomia que me parecia ser tão própria, da forma como costumava vivenciar, se transformou. Agora, fico com a impressão de que os termos que costumava utilizar para nomear as coisas perdem seu sentido, perdem seu valor taxonômico, de modo que precisaria, portanto, reformular todo o glossário do tempo que tive até aqui. Vejo-me, conforme percorro esta pena por sobre o papel, na difícil tarefa de definir – redefinir seria um engano – coisas que, desde então, vivo de forma outra.

Releio alguns trechos até aqui, revivendo neste texto, a sombra que vi se formar ao lado dela, a sombra-ela que via também presente nessa manhã. A água que me banhou e que se acolheu em mim. A tarde que caiu diante de mim. A tarde que caiu em mim. O sol que se pôs diante de mim. Eu que me pus diante do olhar desatento do mundo. A tarde que caí. O sol que me pus. A noite que nasci o agora da noite que escrevo. Eu não encontro um ponto-origem. O momento parcialmente exato que me pudesse servir como referência para dizer com calma e solenemente quando foi que aconteceu. Eu mesmo escolhi o termo metamorfose por força de expressão, sem mesmo saber exatamente se é de uma metamorfose que se trata.

Eu não era assim. Agora, parece, a maciez do vento frio acaricia meu pudor como nunca outra vez pude sentir. Contorna-me em sussurros como que me convidando a entrar em casa. Estive vento do lado de fora de casa. Estive vento. Onde a pequena troca de um d por um t pode causar a confusão em que persisto. Eu-vento vendo o pondo no verbo da carne rarefeita sob efeitos que me respiram. Talvez a casa seja uma referência material que me permite compreender um dentro e um fora. Ainda assim, vejo-me sendo visto de dentro e de fora simultaneamente. Refletido e refletindo a imagem das coisas que chamo eu. Talvez vão. Vão – substantivo e verbo – para contemplar a carne do vazio e o instante do movimento. Observo a noite pela eu-janela vista através de outra janela que vê através de outra janela que observa através de outra janela a necessidade de olho-janela ter um observador para ver seu vão. Quando se vai ainda estando no mesmo lugar para outro lugar buscando a diferença marca do que distingue a realidade da ficção da vigília e do sono como se houvesse um esqueleto capaz de osso entre a carne do músculo e a carne daquilo que se vive no lobo occiptal e na visão buscando um olhar no olho na pressão do que se ouve e do que se escuta entre a pele véu no poro janela de uma abertura semicerrada

u m o l h a r q u e s e p e r d e n o t e m p o p o r n a o t e r t e m p o q u e c a i b a n o i n s t a n t e d e o l h a r a c o i s a q u e s e b u s c a c o n t o r n a r c o m a f o r c a d o q u e s e v e u m c o n t o r n o s e r i a o s u f i c i e n t e p a r a m a r c a r a d i f e r e n c a e n t r e o q u e a t e e n t a o c h a m e i d e c o r p o e o q u e a t e e n t a o c h a m e i d e o u t r o s q u a n d o p e r c e b o q u e o u t r o s e e u e c o r p o s a o u m a f o r m a i m p o s s i v e l d e d e c l a r a r o q u e s e j a p e l a f o r c a d o a b i s m o q u e s e i m p o e e n t r e a t e r r a o b a r r o o c i m e n t o o c o n c r e t o e a t e r r a d e n o v o o s o l o o n d e a r a i z s e i l u d e a c r e d i t a n d o e s t a r n o s o l o f a z e n d o b r o t a r p a r a o m u n d o o p r o d u t o e s f o r ç o d a s u a i l u s a o

Volto, sem ter partido. A noite que a rua observa sou eu. Minha pena é o lampião do acaso. Outra vez tento dormir com a dificuldade de alguém que tenta acordar de um pesadelo. Eu queria dormir para viver no tempo onírico o pesadelo que hoje vivo em vigília. Não importa a hora da noite, tampouco onde me encontro. Aquilo continua lá fora. Outra piscadela. Não sei quanto tempo. Aqui e agora. Ainda escuro. Somente isso. Eu escuro. Sem dizer se o escuro é lá ou cá. Escuro. Ainda. Somente isso. Sem dizer quando foi que iniciou ou qual a previsão para concluir. Ainda.

 


João Vitor H Jaeger |Porto Alegre, Brasil | é psicanalista bilíngue (Português e Libras) em Porto Alegre. Dedica-se majoritariamente à prática clínica escutado surdos e ouvintes. Realiza pesquisa em psicanálise junto ao programa de Mestrado do PPG da UFRGS. Escreve por lazer e inquietação. | joaojaeger@hotmail.com

 

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367