Subversa

Deep fake | Anderson S. Freixo


Dr. Alberto caminhava de terno com sua maleta pela rua estreita ignorando os miseráveis que se espalham ao redor. Seus óculos à prova de sol, seus sapatos à prova de poças, seu colete à prova de balas. Marchava por entre as barracas de ambulantes, os pedestres e os pedintes mais firme e decididamente do que o que se costuma se esperar de alguém com sua idade e seu porte físico. Hoje era um dia especial. Sentia prazer em antecipar o momento de desfrute do presente que ele mesmo decidira se dar, e discretamente sorriu. Sentia-se, inclusive, um merecedor legítimo desse presente, como se o fato de sua vida ser no geral insuportável desse a ele o direito de ser momentaneamente feliz, permitindo a ele um usufruto sem culpa. Esse capricho era como o pagamento por todo o sofrimento sofrido. Não era uma simples satisfação, era uma alegria legitimada por um certo senso de justiça cósmica.

Havia preparado cuidadosamente os detalhes desse dia especial. Apesar da rígida fiscalização desde que proibiram os serviços de deep fakes – falsificações de vídeos produzidas através de algoritmos computacionais de aprendizado de máquina, mais especificamente, redes neurais artificiais –  conseguiu junto a um estúdio clandestino uma simulação que parecia ser bastante convincente. Para tanto, cedeu centenas de fotos e minutos de vídeos e gravações de voz para que a simulação fosse a mais realista possível. O estúdio prometia uma experiência “inesquecível”. Sentiu-se um tanto patético ao procurar pelo serviço, principalmente dada a especificidade de seu pedido, mas havia aprendido que passar pelo ridículo tem um preço que os ricos podem pagar com dignidade. O peso que sentia da mala era como o antepasto que prenunciava o prato principal do dia. E essa ideia era justamente o que o fazia abstrair todo o peso da carga.

De repente, o celular vibra no bolso do paletó. Olha o visor sem interromper a marcha. É seu filho Pedro. Surpreso, mas genuinamente feliz, atende a ligação. “Oi, filho, quanto tempo!”. Infelizmente, o entusiasmo com que o dr. Alberto atendeu o telefone não encontrou paralelo do outro lado da linha. Pedro foi seco e ríspido. Precisava de dinheiro outra vez. Ao ser indagado por seus motivos, usou outra vez a cartada do filho-coitado-do-pai-desnaturado. Aquela velha ladainha. Dr. Alberto ainda tentou explicar que poderia dar o dinheiro, se o filho explicasse a finalidade do pagamento.

Pedro, como sempre, falava ao telefone de modo evasivo. Provavelmente o dinheiro seria usado pra comprar drogas, quitar dívida com agiota ou qualquer coisa desse tipo. Parece que o dinheiro que dava ao filho era a parcela de uma indenização por danos morais que não terminava de quitar nunca. Pedro precisava aprender a caminhar com as próprias pernas, como Dr. Alberto tivera que aprender também, de um modo muito mais difícil. É muito fácil viver se fazendo de coitado. Mas essa ligação tinha que ser logo hoje!?

Dinheiro, aliás, era algo com o qual dr. Alberto já não se importava mais há tempos. Continuava ganhando dinheiro, e muito. Mas não porque quisesse, necessariamente, mas sim porque era o que tinha feito desde sempre. O fato é que dr. Alberto passava agora por um certo processo de alheamento de sua própria vida. Estava cansado. Não levava mais nem a si e nem à sua carreira muito a sério. Continuava fazendo as coisas que sempre fez simplesmente por sempre tê-las feito, mas sem convicção, e observava com desinteresse o desenrolar dos fatos. Vivia desenganado, essa é a verdade. Tinha aberto mão de tanta coisa pra conquistar o que conquistou, pra depois perceber que havia se afastado de tudo que era mais próximo pela intangibilidade de um dinheiro e de um sucesso que pareciam agora ser só isso mesmo, “dinheiro” e “sucesso”, apenas palavras. Mas isso não chegava a incomodar muito, realmente. Era apenas nos intervalos de tempo entre uma atividade e outra e às vezes antes de dormir que vislumbrava angustiado esse seu imenso vazio.

Assim, não negava dinheiro ao filho por ganância, egoísmo, nem nada do tipo. E sem dúvida o amava e queria seu bem. Era uma questão de princípios, apenas. A conversa prosseguia no telefone semelhante a um diálogo entre postes. Como cada um possuía a verdade, não era necessário ouvir o que o outro dizia, bastava convencê-lo de que este estava errado. Mas como o outro possuía a verdade também, não escutava, apenas queria convencer o primeiro de que estava certo. Era menos diálogo que dueto de monólogos. “Eu te odeio!”, disse seu filho antes de desligar o telefone abruptamente. Certa vez ouviu alguém dizer que amor e ódio consistem no mesmo afeto, em sentidos opostos. Usou essa teoria para amortecer a pancada, convertida então em leve mágoa. Todo pai é filho, mas nem todo filho é pai, essa é a raiz de toda a incompreensão. Tudo bem. Podemos dizer que Dr. Alberto havia falhado como pai, mas isso apenas porque tinha falhado como ser humano no geral, em primeiro lugar. Pensando sobre essa situação que o filho acabara de trazer à tona, sentia-se de certo modo injustiçado, enquanto carregava além do peso da idade e das responsabilidades, o peso da culpa e da maleta, continuando a caminhar, apesar disso, com a mesma firmeza, pela ruela enlameada.

Injustiçado sim, pois não fora avisado de antemão das consequências de ser um cretino. Foi fazendo as cretinices porque parecia uma boa ideia até chegar a esse ponto em que o edifício que fizera de sua própria vida simplesmente desmoronara e ele, aturdido, tropeçava nos escombros. E era tarde demais pra tentar consertar as coisas. Não conseguia se lembrar em que momento havia se tornado esse ser tão horrível aos olhos da família. Tinha a impressão de ter feito o melhor o que pode. Pelo menos até certo ponto. Um ponto provavelmente localizado entre o divórcio e o novo casamento.

Chegou ao hotel mais preocupado com essas questões do que gostaria de estar. Queria poder apagar aquele curto diálogo com Pedro da memória. Certamente comprometeria sua “experiência inesquecível”. Havia reservado um quarto de hotel para essa ocasião especial para se certificar de que não seria perturbado. Pegou a chave do quarto na recepção e subiu até o segundo andar de elevador, negando a ajuda do funcionário para carregar sua maleta.

Assim que entrou no quarto, tirou os sapatos e deitou-se de costas na cama. Fechou os olhos. Pensou no telefonema do filho querendo se esquecer. Ainda estava ofegante da caminhada. Decidiu tomar um banho antes de seu momento especial.

Saiu do banheiro de roupão sentindo-se mais relaxado depois de um banho quente de mais de meia hora. Pegou a maleta ao lado da cama e num gesto quase solene depositou-a sobre a mesinha e a abriu. De dentro dela, tirou primeiro uma caixa de papelão em formato hexagonal um pouco maior que sua mão. Em seguida, uma pequena garrafa de vinho. Por fim, tirou seu notebook e um pendrive. Ajustou meticulosamente a posição de cada um desses elementos sobre a mesa, com um esmero que já não mais demonstrava em outros aspectos de sua vida.

Sentou-se na cadeira diante do computador, ergueu as costas, fechou os olhos e respirou fundo. Transportou-se para um outro tempo, num outro lugar. Abriu os olhos e a tela do notebook, encaixou o pendrive no aparelho. Enquanto a tela exibia uma mensagem de carregamento, dr. Alberto destampou a caixinha de papelão, de onde tirou um pequeno bolo de chocolate. Tirou também de dentro da caixa uma pequena vela, que colocou em cima do bolo. Uma voz suave de mulher saiu do computador avisando que a simulação começaria em alguns segundos. Sentiu um frio na barriga.

A tela ficou preta e em seguida viu surgir nela a imagem de seu filho Pedro, olhando fixamente em sua direção e sorrindo. “Pai!? Você tá aí?”. Sim, era o rosto de seu filho. Era a voz de seu filho. Realmente, era seu filho. Com lágrimas nos olhos, respondeu. “Oi, meu filho! Tô aqui sim!”. “Oi, pai! Feliz aniversário!”. “Obrigado, meu filho!”, disse sem segurar mais o choro. Era realmente uma experiência inesquecível.


Anderson Freixo | Feira de Santana, Brasil | anderson.freixo@gmail.com

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2 Comentários

  1. Sergio Queiroz vides oereira 21 de dezembro de 2020 em 22:16

    Muito bom, o final surpreendente, parabéns cara!

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