Subversa

Da janela uma tabacaria | David Coutinho (Rio de Janeiro, RJ, Brasil)

Ilustração: Isabela Jerônimo


Ao poeta Fernando Pessoa

 Acaba o fumo

Da cadeira defronte à janela estendo as pernas

Me tenho observando através das vidraças

O que por fora é vazio e opaco

 

Aqui dentro

Um milhão de mundos (que ninguém saberia)

Cruzando ruas e vielas

Como se cruzam os pensamentos sobre as ruas e vielas

 

Estou cheio do mistério que cria teia nas paredes

Cheio dos cães acuados que cantam para a noite a noite toda

Não há mais vida ou menos vida afora da janela do que aqui, onde há mistérios em teias de aranha…

Pois me encontro certo

Como um milhão de mundos e um milhão de vidas também se encontram

E quem poderá dizer, senão?

 

Goteja

Porque ontem choveu

E lavou a janela

E passou como quem morre

Vindo novamente o sol

E eu assisti,

– como quem vive o espetáculo de ser um espectador de si

 

Falharam-me os propósitos

E a lealdade que devo a Tabacaria do outro lado da rua

Posto que acabe o fumo

Acabando-se também o eu que tragava

…traguei-me

Para cuspir de volta toda angústia

Tendo a sensação de que nada penso sentado na cadeira

Quisera fosse; que eu fosse o que penso sentado na cadeira

Aí então eu seria nada, logicamente

Pouco menos que isto

 

Tenho meu nome e sou identificado

Tenho a certeza do tempo

Que soprará meu nome e identidade

Que não deixará mais que pó onde foram gigantes palácios

Da vaidade das vaidades

O estrume

 

Senão, errado?

Concebo tão pouco do que alcançam meus olhos?

Não tenho certezas, nem aspirações

Altas, nobres ou lúcidas

Tudo irrealizável

Sendo a minha única

Certeza de que sou irrealizável

 

Havia gente nas calçadas

Também aqueles cães que cantavam para a noite

Nenhum sequer

– olhou-me –

Nenhum sequer

– sentiu-me –

Pois sentiria, quem sabe, a rebentação de sete mares sobre sete rochas

Mas havia gente na calçada

Todas refletiam nos espelhos das vitrines

Eu também refletia

E era como elas

Sentado do lado oposto

 

O que fiz dos sonhos

Dos segredos, filosofias e humanidades

Derramei-os ao chão como se chora o leite derramado

Tenho sonhos que já não sonho há muito tempo

Pois acabou o fumo e esta aflição não me deixa dormir

Pois tenho olhado a vida passar pelo vidro da janela

Ainda que a vida que passa não seja a mesma que vejo

Tenho o pânico de estar só no meu quarto sem luz

Sinto tanto espaço me sufocar

Contudo, o mundo é alheio

Como indefinido

E não haveria um para se importar

Risquei todos até que me encontrar só: no quarto, ante a janela.

 

Não tenho nesse instante vontade de chocolates

Não como aquela menina que come chocolate em frente à Tabacaria

Noto – com sensibilidade singular – que os olhos do homem se enchem de vida

Uma pretensa esperança que tão logo o desperta à realidade

Conheço aquele homem, é Pessoa

Como eu

É meu irmão (ainda que não tenha me percebido, olhado ou sentido)

Eu sinto com ele

Estamos apenas uma rua atravessada de diferença

Contudo, distantes…

 

Estou enterrado até os olhos

Levanto as mãos na mesma esperança dúbia que assisti

Há quem possa me salvar?

Das paredes que o tempo tornou úmidas

Dos tapetes sensatos cheios de poeira e lembranças

Dos quantos pés que por ele um dia passaram, inútil

Com expectativa de ter o mundo refeito em pequenas mordidas no chocolate

 

Invoco, aquém, alguém

E não há quem segure minhas mãos

Risquei todos até que me encontra-se só: enterrado até os olhos

(Transbordando de esperanças pelas mãos)

 

Sinto frio e ponho uma camisa

Que pesam tais quais correntes no calcanhar

Tudo foi estrangeiro, como todos

E como todos tenho vivido minha possível realidade

Tenho passado noites remexidamente procurando o sono

Tocando ao peito um sopro qualquer que inspire

Na certa decepção que lateja se não inspirar

E nada me inspira,

neste momento…

 

Penso em mim

Havia pensando também na chuva do dia anterior

Como na madeira desta cadeira que sento e estico os pés à janela

Enquanto penso, tudo isso está tão certo

Tudo merece estar em paz

Do cliva ao castanho claro

O brilho – que outrora foi alto – agora manchado

(tais quais minhas paredes úmidas)

Num cheiro imperceptível de madeira que não há

Em sua durabilidade desconhecida

Gozar o conhecimento de todas as eras

Deleito a sensação

E Sorrio francamente

Pela possibilidade de parafrasear a cadeira em que sento com a vida

De me esticar ausente em meu próprio corpo

Assistindo ao dono da Tabacaria defronte

Que se chega zangado à porta

Trazendo a verdade dos tempos da criação do mundo

A verdade dos tempos da criação do homem e da mulher

Dou conta de que há tempos acabou meu fumo

E não há – agora – outra verdade senão esta

 

Visto uma roupa amassada

Uma roupa desbotada

Abandono meu mundo por instantes

Cruéis instantes em que desço sozinho as escadas

Me dou numa calçada

Onde as pessoas se cruzam como se cruzam os pensamentos

Sobre ruas e vielas

Mais reais do que pela janela de antes

Tão cheias de cores e de passos firmes

E sou ali invisível

Ninguém toca minhas mãos, nem chama meu nome

Como não olhavam ou sentiam o ser que estava depois da janela

 

Aquele que era eu

Agora que sou outro

Onde a rua nos obriga a caminhar

Minha testa ardeu de – vertigem

Os músculos da coxa queimaram como o fogo das humanidades

Não reconheço o próximo, o próximo não me reconhece

Apenas cuidamos de não nos esbarrar

Estamos perdidos e não nos salvamos: falta tempo

Sobram os chocolates e as verdades

 

Caminho até o outro lado da rua

Caminho até a tabacaria do outro lado da rua

Um ímpeto caprichoso devora-me de dentro e sobe a espinha

Toda vez que fiz – e faço – esse trajeto

Toda vez que me exponho a par daquele que ficou na cadeira

Olhando-me pela janela

 

Desejo tabaco

Entro na tabacaria – tomo nota do quão agradável é o cheiro dos mais variados fumos reunidos num só lugar

Pessoa se ergue e sei que sente comigo naquele momento

Acende um cigarro…

Pego o meu fumo, me obrigo ao mal estar de estar disposto

Pessoa se senta, se mete para trás na cadeira como se fosse cama

(se houvesse uma janela e esticasse os pés…)

 

O dono da Tabacaria volta

Traz na áurea tantos destinos

Seguindo descaminhos da fumaça que inunda meus pulmões

Desfazendo sob meus pés tudo que há de concreto

E metafísico num instante

 

Preciso voltar à fortaleza

Reestabelecer a concepção de meus sentidos

Dou uns trocados, todos os trocados do meu bolso

Pago o fumo e saio

(com o dono da Tabacaria a me acompanhar até a porta)

Sigo confiante de volta à minha janela e minhas pernas esticadas

Sigo confiante de volta ao meu desterro

E as teias da parede

E a sufocante solidão de estar só, atravessando a rua tão perigosa

 

Olho para trás

Num golpe repentino

Da sensação única que se tem por estar sendo observado

É Pessoa sem metafísica

Me olhando de uma janela, como antes eu também olhara

Aceno; num gesto consentido e honesto

Ele grita Adeus, ó Esteves!

E morro porque me reconheces

Morro porque há quem me sinta e me acene às mãos

Meu universo se reconstitui em ideal e esperanças,

O dono da Tabacaria sorriu.


DAVID BARRETO COUTINHO é professor e pesquisador por ofício, escritor por prazer. É formado em História e possui mestrado em História Política, tendo assim alguns artigos publicados em revistas especializadas nesse meio. Atualmente, dedica-se à pesquisas na área de Ciência da Informação e a divulgação de seus textos literários. | BARRETOCOUTINHO2@GMAIL.COM

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