Subversa

Criatividade | Eric Costa (São Luis, MA, Brasil)

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Foto: Luciana Belinazo

E a criatividade do ser humano? Não há quem me faça pensar que ela não está inferior a outrora.
Se Jacques Bossuet disse ser a contemplação a janela e olhos da alma, não vejo outra explicação para tal paradoxo da humanidade. E o paradoxo não é entre a criatividade atual e a de outrora. É o paradoxo no que vivemos hoje. O ser humano especializou-se em duas rotinas: buscar inovações e cair no mais do mesmo. E, acreditem, elas coexistem.
Sempre procuramos inovações em nossa busca por conhecimento. Em uma velocidade e disposição desenfreadas, diga-se de passagem. Quando não produzimos conhecimento, estamos insatisfeitos com a velocidade que os artigos científicos chegam às revistas. Quando produzimos, achamos que poderíamos fazer mais.
A inovação dita o dia-a-dia. Novas formas de conhecer, novas formas de até mesmo fazer outros conhecerem movem nosso cotidiano. Pena que mesma vontade não se reflete no autoconhecimento.
Quantos nessa desenfreada corrida pelo lucro e conhecimento param e refletem acerca de si mesmo? O “eu”, que está aqui, que é você, é mais distante e menos palpável do que pesquisar a função da proteína das células da mucosa do rabo da salamandra, às vezes.(!!!)
Se os grandes pensadores faziam da contemplação uma rotina, inevitável associar a ausência de autoconhecimento atual a falta de momentos de reflexão. Talvez até falte o que contemplar para muitos de nós, solenemente imersos em selvas de pedra sem fim.
O homem de hoje pensa mais. Sim, pensa bem mais. O homem, de séculos atrás, que contemplava a natureza, pensava com mais inteligência e conhecia-se primeiro para conhecer mais depois.
Jacques Bossuet falou dos olhos da alma na contemplação. Victor Hugo, porém, disse e diria de novo que contemplar o mar, em certas ocasiões, é sorver um veneno.
Ah, a oração intercalada! Tudo ali, entre vírgulas. Porque o mar ao qual Victor Hugo se refere talvez seja não o de sua época, mas o de hoje: o ser humano, que só contempla o mar da produtividade, do lucro e do próprio capital, sorve um incrível veneno. Veneno mortal de uma sociedade oriunda de si próprio.
Produzimos, criamos, mas conhecemos mais o alheio do que o próprio. Vivemos? Ora em acepção física do termo. Ora, muito raramente, na acepção mais plena. E, no fim de tudo, nos envenenamos: afogamo-nos em nossas próprias criações e entranhas.


Eric de Medeiros Costa (São Luis, MA, Brasil) é acadêmico de Medicina da Universidade Federal do Maranhão. Vê o escapismo de seus dias, às vezes solitários, no futebol, na música, literatura e em sua própria introspecção.

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