Subversa

COMO APRENDI A VER FANTASMAS* | Ana Gabriela Rebelo

 

A primeira vez que encontrei uma delas eu estava sozinha em casa depois de uma manhã inteira na escola. O dia estava fresco, ventava muito e eu me lembro de me sentar de uniforme escolar e meias de algodão sobre o colchão alto da cama da mãe. Lembro da luz que entrava pela janela do quarto e do cheiro que subiu no ar quando abri o antigo álbum de casamento.

Lá estavam crianças em trajes sociais, a igreja escura, o padre posando para a foto e o bolo confeitado de pasta branca. O rosto da mãe assim mais jovem e, de todo modo, mais velho – porque constantemente eu tenho essa impressão de que as pessoas vivas serão sempre mais velhas nas fotografias. Atrás do bolo confeitado, como que escondida para que ninguém pudesse ver, havia uma imagem de cinco pessoas sentadas em um brinquedo de parque, todas, sem cabeça.

Aquela imagem, mal enquadrada e já desbotada pelo tempo, me evocou algum tipo de exotismo misterioso. Foi aí que comecei a ver que havia algo de diferente nas fotografias feitas ao acaso. A mãe dizia que eram erros, mas por algum motivo tinha pena de jogá-las fora. Por isso colocava todas elas dentro dos álbuns, enfiadas por detrás das outras fotografias, as boas.

Eu gostava das ruins, especialmente daquelas com paisagens tremidas e pessoas embaçadas. Encontrar aquelas fotos era como ver o que mais ninguém podia ver. Assim foi que comecei a minha busca pelo invisível, vasculhando pelas brechas dos álbuns de família. Só depois entendi que o invisível está por toda parte

O melhor das fotografias talvez seja o movimento de procura, a busca por alguma coisa que não se sabe bem o quê. O pior, é sentir aquilo que falta – sempre falta. Fotografias me doem. Como fantasmas que, por um breve momento, pudessem ser reais novamente. Desde que você se foi eu espalho fotografias pelo chão da sala. Como pequenos portais, espelhos, passagens no tempo.

Já faz cinco anos que eu te vi pela última vez, você nunca mais voltou. Foi desde então que eu passei a vasculhar fotografias escondidas nas dobras das coisas. E talvez seja por esse motivo que eu possa sempre te ver nos lugares onde você não está.

 

*trecho de romance em processo de escrita


Ana Gabriela Rebelo | Rio de Janeiro, Brasil |  é escritora, psicóloga e artista interdisciplinar. Autora de Caderno de Sonhos (Editora Urutau,2020) e do site Paisagens possíveis:  www.paisagenspossiveis.com | anagabrielarebelo@gmail.com

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Helena Rebelo dos Santos 15 de março de 2021 em 17:07

    Simples e enigmático, real e, ao mesmo tempo, indefinível, o texto prende a atenção, comove e deixa a vontade de seguir lendo, pede mais. Muito bom

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