Subversa

Coisas mínimas que, entretanto, continuam | Francieli Borges (Santa Maria, RS, Brasil)

Ilustração de Jaime Ferreira


As costas doíam, a leitura era infértil, o tempo chovia e eu cansava. Uma névoa de preguiça se abatia sobre pessoas e coisas. Curvada sob a mesma página d’A poética de Dostoiévski, pensava sobre o texto, sobre outras variadíssimas situações, sobre a atitude de pensar e em como chegava a palavra e quais lembranças tirava de mim. O verbete “tradição” era aquele que eu lia num blablablar sobre sistema literário. Essa expressão sussurrava variadas lembranças. Tradição, tive um sobressalto, era conceber, sem alarde, que hoje tenho amigas que já são mães – digo porque perdi em qual momento da linha do tempo essa condição tornou-se um dado, notícia comum, perdeu o status de susto. São mães. São várias que já se ocupam de outras vidas pequeninas, ainda que para mim seja tão recente quando jogávamos bola na rua que não existe mais, na frente das casas que não existem mais, nós, miúdas da escola. Corríamos nos pilares e tábuas soltas de um projeto que há anos já é um lar, uma materialidade que também é possível que já tenha sido reformada. Os anos adiantam. Quantas coisas só são vivas ainda cá dentro?

A neblina preguiçosa ficou demasiado densa, deitei, por fim, e antes de adormecer, pude pegar uma réstia de claridade azul que entrava entre as cortinas. Aquela luz embalou um sono inocente, milagroso, toda a espessura acinzentada se-me-fugiu. Despertei com toques muito suaves de alguma fritura, algum cozido na vizinhança, julguei que preparavam um banquete. O cheiro que acordou trouxe ainda outra tradição – palavra-valise que agora uso sem questões. Sou proprietária exigente e egoísta de tradição.

Recordei os nonninhos. No sonho, os três ainda viviam: os idosos mais a casa. Na última vez que a vi antes que tivesse o destino da nossa, a demolição, pareceu tão pequena. Era enorme na minha memória. Travessos, certa vez, no pega-pega, corremos por aquela sala enorme com tapete solene. Meus olhos de menina, que quase nada semelhante haviam apreciado, julgaram-no luxuoso. Nas vezes em que voltei a vê-lo, acompanhada de minha mãe, impressionei-me como tudo estava sempre no lugar reservado para si desde o início dos tempos, objetos estáticos, brilhosos, organizados e que conferiam honras à minha presença. Louças muito bem equilibradas em cristaleiras com vidros muito limpos. Guardanapinhos de croché esmerados à mão estavam a postos, protegiam móveis diversos. Um gramado se estendia muito além-janela, limitado por um muro de roseiras. E o silêncio. Constrangia e encantava aquele silêncio. Muitas vezes ainda quis ser abraçada por semelhante falta de som, sem nunca ter podido, às vezes temo ser prisioneira do barulho para sempre. Até os pássaros irrequietos, abundantes, moradores de entardecer das duas árvores dos nonninhos, troncos que tantas brincadeiras abrigaram, até eles abafavam o canto, respeitosos.

Essa lembrança quentinha embala, empurra, esgota e esconde o que vem depois: o alzheimer dela, a solidão dele, o vermelho das janelas desbotando, a tristeza dos fins. Ficam apenas os sorrisos que começavam nos olhos e derretiam pelo rosto até chegar na boca, uma réstia do gosto oco e opressor das ausências. E o cheiro da lentilha, agora verdadeira, que me impregna a carne e a outra casa, tão longe, em todas as distâncias, daquelas que já habitei.

 


FRANCIELI BORGES é curiosa com as letras e as manuseia por ofício e gosto. | FRANCIELIDBORGES@GMAIL.COM

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