Subversa

Cinco notas para um poema político | Fernando Alves Medeiros


1

Queria eu apenas fazer um poema político como a minha última canção…

Bobagem!

Se tudo no fundo é deveras político: a adesão, a ação, a reação, a omissão, a rejeição, a deglutição — da imagem e do seu negativo —, a discussão, tudo, enfim, tudo no mundo é, do começo ao fim, em última análise, em última instância, um puta problema político.

Até mesmo falar da flor, das mágoas, da inconstância das águas, do voo do condor; fechar os olhos frente ao sangue de nosso filme de terror, são também lados de um inescapável ato político.

Ser poeta, insisto, tem algo de ator, tem bem pouco de esteta ou profeta e bastante de político.

2

Queria… Ah, como eu queria ! Queria mesmo fazer esse poema como manda a tradição, as boas práticas, o figurino!

Mas muito me irrita o parco alcance das nossas palavras.

Gritar do alto do prédio o meu desatino, cravar nessa tua cara privilegiada de alienado convicto todo o atraso contemporâneo do qual jamais sairemos ilesos: um negro inocente morto por oitenta tiros simultâneo a um buraco negro longínquo fotografado por oito potentes telescópios…

3

Queria eu gritar meu poema político…

…mas as janelas são péssimas testemunhas, sempre mudas, recortadas e surdas, separadas de mim como água e óleo.

Os carros, uns atrás dos outros, correndo até o final dos tempos; o sol risonho que se esconde detrás do bonde; o futuro e retrocesso num mesmo jornal impresso…

4

Meu grito rouco, louco, rasgado, pouco ou nada produz — ou modifica — diante do curso implacável das coisas.

5

Eu queria sim atirar meu poema político do alto, para retratar a merda dos nossos dias pesados, o mal expresso e escancarado às voltas de mim.

Mas, quando o grito torna-se algo típico, os versos fazem voo de elástico — normaliza-se a revolta.

E penso se… Será válido todo esse excesso?

Tantas posturas, tantas palavras no papel superfantástico do poeta viviendo de aplausos envueltos en sueños?

Views & likes costuram o ativismo de gabinete, palmas restritas, seguras, de sua paróquia de plástico. Ramalhete, hóstia, doce calma que cura da ilusão; a convicção abalada de meu monolítico poema político…

Queria eu…


Fernando Alves Medeiros |São Paulo, Brasil | http://cafeseblablablas.blogspot.com.br/

 

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