Subversa

Centauro | Bruno Nogueira (Uberaba, MG, Brasil)

Ilustração: tela de Jaime Ferreira

O trabalho de Marília era cansativo, mas simples: andar pelo shopping o dia todo, procurando essas marcas que de vez em quando a derrapagem de calçados deixa no chão branco; quando encontrasse alguma, era esfregar na mancha uma bola de tênis enfiada na ponta de um cabo de vassoura usado. O resultado de um serviço bem feito seria um chão comível, em que os frequentadores do shopping tivessem prazer em pisar, do qual pegariam um chiclete e voltariam à boca – ou essa era a descrição do coordenador da equipe de limpeza.

A melhor ferramenta pra eliminar essas manchas é o feltro de bolas de tênis. A mancha sai com facilidade, e como é pouco abrasivo, o piso não sofre nenhum dano. Funciona melhor até mesmo que produtos criados pra isso, como super-limpadores – além do quê, pedir aos trabalhadores que se ajoelhem munidos de esponja seria inconveniente aos passantes e negativo em termos de marketing.

A própria bolinha tem uma resistência estoica. O processo todo começa em se fazer uma lobotomia, cortar a pele dela e se forçar abaixo a ponta do cabo de vassoura, até que ele atravesse o oco por completo e toque no interior da pele do outro lado. Ela não murcha quando cortada e pode ser lavada pra reutilização. O cabo da vassoura, se possível, se retira das usadas.

O trabalho é cuidadoso, e Marília tem que caminhar constantemente, à procura das mais-numerosas-que-parecem marcas, olhos fixos no chão a todo instante. A bola segue à frente, deslizando o feltro já descolorido e parcialmente careca pelo chão branco e liso, e Marília segue cabisbaixa, a cabeça funcionando diversa, enquanto o corpo vai no automático, os olhos achando sem falha as menores manchas, nas quais a bolinha é esfregada com firmeza.

Marília leva com cuidado a bola de tênis, sempre a desviando de líquidos e da sujeira mais pesada que aparece a sua frente. A porta do supermercado, assim como a de lojas como C&A, Riachuelo e Renner são os pontos de marcas mais numerosas, exigindo Marília com mais frequência que a área das outras lojas, coisa que ela sabia bem e agia de acordo – mas hoje era um dia excepcional, e Marília estava desconjuntada. Todos os dias de esfregar a bolinha shopping abaixo e ver sua cor e seus cabelos caindo lentamente tinham sido casuais, rotineiros; ela olhava a bolinha pela mesma luneta que via as manchas no piso, do fundo de alguma coisa amordaçada. Mas hoje, pela primeira vez, ela tinha percebido que a bolinha, esse tempo todo, estava olhando de volta.

Já tem um mês que ela faz o serviço na mesma área. Mal percebe as lojas de que passa em diante, e consegue se guiar simplesmente pelos padrões de manchas de borracha, como quem acha um caminho observando as constelações – oposto exato das manchas escuras no chão branco. Seu olhar segue apenas a bola, que por sua vez remove as marcas e traça entre elas pontos que desenham nada. Mas nesse dia, algo inesperado aconteceu: um homem, que acertou em Marília uma ombrada, lhe pediu desculpas.

“Tudo bem, moça? Desculpa, correria, já viu.”

O olhar de Marília sobe da bolinha, e ela simplesmente abana a cabeça diante do acontecimento inusitado, enquanto tenta se lembrar de alguma ocasião parecida, de algum outro momento em que teve a invisibilidade quebrada por algum cliente do shopping. O estranho esperou que ela dissesse que não tinha sido nada, não, antes de pedir desculpas outra vez, e ir embora, levando uma sacola enorme com o nome Centauro gravado. Aquilo lhe pareceu absurdo e de sonho, antes de ela lembrar que é o nome de uma loja, da loja à sua frente, que tem em destaque numa vitrina várias bolinhas de tênis, sem uso, ao redor de um manequim que empunha uma raquete e veste um traje de tenista completo.

O olhar de Marília se repete no entre aquelas bolinhas novas e amarelas na vitrina iluminada, e a bola esbranquiçando em desgaste na ponta do cabo de vassoura que ela arrasta. Ela sente o coração travar, como se tentasse bombear uma palavra por uma veia pequena demais, e anda dali descuidando do chão por vários metros, a bola se movimentando erraticamente, como a bengala de um cego. Ela se senta num dos bancos do shopping pela primeira vez.

Estava alagada por lembranças de quando menina em Ilha das Flores, que seus pais a punham sobre um banquinho e ela cantava o forró raiz da região com sotaque gostoso e voz doce, os concursos de beleza da adolescência na escola, o romance de juventude com o filho de um fazendeiro das proximidades, que montava a cavalo tão bem e tão desde pequeno que os dois eram inseparáveis. Lembrava até de alegrar os pais contando pra eles a geografia da região, que ela tinha aprendido bem menina e lembrava até hoje.

Mas seu supervisor chega e quase a faz gritar botando a mão em seu ombro, que ela tira num movimento susto. Sim, está tudo bem, e não, ela só tinha sentido um mal-estar passageiro, se levantava já, e levanta, mas agora ela se lembra das histórias sobre o dono da empresa, um ex-jogador de tênis que dizem que pede às empregadas da própria casa esfregarem o chão com bolinhas, e está sempre apertando nas mãos as bolinhas, jogando na parede, usando pra isso e praquilo, cortando ao meio e colocando em paredes e chãos pra amortecer portas e dar um tom vagamente esportivo, excêntrico, na casa que ele envolve nessa obsessão pelos tempos passados, pela sua a bem da verdade pouca e curta quase-glória como tenista.

E Marília, agora observada pela bolinha, fica revolta pensando na obsessão desse homem, que mais que ninguém devia saber que a bolinha não é feita pra isso, que ela devia ter como destino um momento ápice de jogo, que era feita pra golpear no vento trajetórias belamente calculadas e orquestradas por jogadores que se enfrentam em quadra, desenhando com mestria rítmica as parábolas cuidadosamente escritas, e Marília tem ânsias, parada, imóvel, a bolinha gasta e furada, branca e careca, esperando paciente conforme ela se vê incapaz de esfregá-la em mais qualquer mancha de calçado, e sente o olhar curioso do supervisor nas costas de seus ombros imóveis.

 


BRUNO NOGUEIRA é graduado em letras. Professor, escritor e tradutor, trabalha atualmente na tradução do livro “Obras completas (y otros cuentos)”, de Augusto Monterroso.

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