Subversa

Cenário de uma manhã ou uma viagem | Mírian Freitas


Inesperada manhã

acesa em seus fluxos contínuos de luz

ilumina as descobertas das águas

os santuários aquáticos, o vento

e suas vertigens,

as escamas tristes dos peixes

a permanência discreta das tartarugas

na areia.

Tudo sopra na memória o mar imenso

sua penugem azul

adorna a paisagem

vestimentas lendárias

sopram dizeres límpidos de um som diverso

muito além da dimensão do cântico das sereias.

 

Nenhuma água se comunica comigo.

A solidão venta na casa dos olhos:

há  sede de liberdade.

 

Gaivotas esparsas no revoar águas salientes

enxergam na luz desta manhã

a força do alto,

a vasta certeza do movimento do universo.

 

Atrás, no bem longe além,

a paisagem  se despede no horizonte.

 

Cavalos roucos nas molduras do céu

gritam palavras desalinho e medo,

são selvagens, mas escutam fábulas

como crianças em delírio.

 

Noutras existências já viviam de lamúrias

pés descalços, cascos escuros

visitavam os planaltos áridos

sorriam muito.

Choravam muito.

Aprenderam o amor.

(O  amor  desencanto?).

Agora, no presente desdito,

avesso de tantas dúvidas

desaprenderam a amar.

(Além do vínculo e das dádivas

não são os únicos que sofrem).

 

O coração é lenha.

 

Primeiro, reinventaram o vento

depois  a noite, a lua, as estrelas

adiante viram os adeuses,

as vozes dizendo noturnas:

 

– ama-te a ti mesmo ó criaturas

ao menos no meio da terra pálida

alimenta-te de profundos cânticos

ardores de palavras

vultos, voos, anjos de mármores

ao redor de tua crina embalsamada.

 

Não há rios nem corredeiras de águas

para matar-te a sede das coisas antigas

da vontade dolorida de florir.

(Rostos endurecidos, fecham-se).

 

O que resta da morte inocente

ungida nos pilares do grito e da rouquidão?

São os pés de barro dos vultos inertes

– corpos áureos aquecidos por labaredas,

simples pomar de laranjas da terra e

cavalos  galopando o céu.

 

Multidões ameaçam partir.

 

Assim, de flagelo em flagelo,

a alma animal  é cantiga e viagem.


Mírian Freitas | Juiz de Fora, Brasil | mineira, doutora em estudos de Literatura (UFF), escritora, professora do IFSUDESTE/JF. Autora de Intimidade vasculhada (contos- 7 Letras), Exílios naufrágios e outras passagens (poemas- Patuá) | mfreitasbrazilmg@aol.com

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