Subversa

Carta para meu amor distante | Edson Amaro (São Gonçalo, RJ, Brasil)

Ilustração: Karolina Whoo


Como Penélope amou Ulisses,
Aquele desejo que transpunha os mares
Em noites de gulosa saudade e solidão pontiaguda,
Amo-te com afeto que atravessa
A minguante Mata Atlântica e o deserto crescente no sertão:
Meu amor pisa o território do semiárido
– Fronteira móvel da caatinga que esperneia para não ser Saara –
E vagueia pelas ruas e praças de João Pessoa
Como a Sulamita nos becos de Jerusalém
E pergunta aos repentistas e aos estudantes:
– Viram meu amado?
(Não repetirá o erro da Sulamita e passará longe dos guardas:
Para quê perguntar pelo amor
A quem aluga seu braço à violência do Estado?)
Meu amor chove versos – às vezes com metro
Mas em dias de urgência corre livre.

Quando quando quando
Nosso umbigos e lábios,
Nossas barbas e hálitos,
Nossos dedos e línguas
Entrelaçados e livres?
Quando, meu amor, nossos rostos juntos
Sobre o mesmo livro de Mia Couto?

 


EDSON AMARO publicou pela editora Buriti sua tradução do romance “Valperga”, de Mary Shelley. | PLANTEARVORES2@GMAIL.COM

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