Subversa

Cardosseia | Norberto do Vale Cardoso


Quando à noite se sentava na varanda da sua casa – era nos primeiros dias de agosto – esperava que a janela do sótão da casa violeta se abrisse e, por ela, uma luz se elevasse sob as estrelas do céu estival. Enquanto o fazia, pensava noutros agostos em que se sentava, sozinho e num estado de placidez, a contemplar os carreiros das formigas. Agora, na sombra da casa, ponderava no que se tinha tornado, porventura um pão oco de que nem uma formiga se haveria se abastecer. Ali sentado, começava a sentir uma espécie de formigueiro por todo o corpo. O cão farejava pedaços de côdeas como se de ossos se tratassem. O corpo do animal movia-se impiedosamente. O corpo. Os corpos. Os corpos atraem-se e aproximam-se e, nas forças que cada um possui, esmagam-se, contudo a escrita não há-de ser assim – pensava, sentado à luz da lâmpada pejada de mosquitos –, dado que as palavras só se deixam construir se forem tomadas com naturalidade, sem forçar. Com as palavras, a força contra força resulta em redundância. As palavras, como o amor, requerem tempo. Não podemos ser pedantes com a linguagem, não podemos usá-la com luxúria – sussurrava para o animal, como se este o pudesse compreender –, enquanto esperava que se abrisse a janelinha do sótão da casa um pouco distante e, ao mesmo tempo, se lhe avivava na memória o papel de parede da casa do avô, representando uma mimosa. Esperava enquanto os imensos mosquitos iam aglutinando-se sob a lâmpada. Tenteava algumas palavras, homem dotado de visão incapaz de ver no meio das trevas:

O mar tinha um rumor. Era diferente do ruído da cidade. Lá tentava captar as coisas através do aquário onde os peixes vogavam numa liberdade condicionada. Era também assim que se sentia, um peixe vivendo – sem saber porquê – num tempo medido, num espaço meramente recriado. Já o mar seria a eterna liberdade, o espaço aberto; mesmo que não a vida, seria pelo menos o espaço certo para viver em conformidade com uma essência mais própria. Aquela imagem cravara-se nele de modo tão ruinoso que havia devolvido os peixes ao mar. A partir dessa altura não mais recriara o habitat dos peixes – ainda que isto não seja o mesmo que dizer que alijara a sua própria recriação.

O rumor do mar. Tinha uma constância equivalente à de alguém que ocupava a casa violeta durante a primeira quinzena de agosto e que, noite após noite, subia ao sótão da casa e acendia a luz noite dentro. Não sabia quem era nem o que fazia, mas isso não era para si o mais importante. Como se sabê-lo destruísse o que queria projectar. Era como observar os percursos das formigas até à entrada do formigueiro e depois adivinhar apenas o seu interior sem o aluir. Era como a vida submersa dos peixes, ou dos frades nos claustros. Interessava-lhe aquela pessoa constante enquanto verbo, mesmo que a sua identidade fosse uma incógnita. Parecia estar dependente da acção de um ser alheio, desconhecido, que não tinha a menor ideia que era observado. E, ao mesmo tempo, aquela atitude seria irracional, esperar ver ao longe uma luz que um desconhecido acendesse e que, involuntariamente, lhe emitisse um sinal que só ele haveria de descodificar.

E então levantava-se. Ia passear à beira-mar. Sentia-se separado de um nicho, e a responsabilidade era exclusivamente sua. Era terrível sentir-se assim. Protestava consigo, apetecia-lhe pontapear as pedras do caminho, mas aqueles passeios feitos para os veraneantes estavam demasiado bem apurados. E também por isso se sentia estranhando-se a si próprio, cristalizando os seus projectos, as folhas brancas que revestiam a sua vida como o papel de parede forrava a casa do avô (ou eram as cortinas que tinham mimosas?). Transgredia em protestação. Pisava a areia, notabilíssima na sua liberdade, molhava os pés descalços para se sentir vivo e esquecer o papel de parede ou as cortinas da casa do avô (ou a máquina de costurar da casa da avó – ou seria do avô?), e não mais lembrar a parede dando sombra àquele homem central como o miolo do pão, como em sinal de respeito adquirido; esquecer os formigueiros, esquecer a casa violeta, esquecer a lua, os mosquitos, os peixes, os cardos, o alçapão do sótão e a obsessão (que não tem jubilação) das palavras. Esquecer. Como dizem que os peixes esquecem.

Na borda do passeio, retirava, de entre os dedos dos pés, as areias que lhe lembravam as migalhas que colocava à disposição das formigas nos seus carreiros. E reiniciava o pensamento: até a areia conseguia encontrar o seu lugar com mais facilidade, fluindo. Quando ele não era mais do que côdeas entumecidas de coisas que vivera e que não era capaz de transpor em palavras, se calhar não bem côdeas, migalhas que de não restará memória. Enquanto o pensava, reparou num homem curvado para um balde exposto na borda do passeio. As costas do velho pareciam exercer nele o ruído da madeira apodrecida dos barcos deteriorados em que, quando mais jovem, talvez tivesse partido em direcção ao alto-mar. Agora parecia ter recuado, estava ali atido à extremidade dos passeios na fronteira da vila, já não no mar, ainda que bem perto, como que para lhe não perder o odor, a brisa, o efeito da salitra no rosto. Possivelmente, o seu mar era outro. As suas costas eram outras. A sua orla a beira da vida. O velho curvava-se para o balde e mexia qualquer coisa – deviam ser peixes – que não via bem de onde se encontrava, também ele agachado a calçar os sapatos.

Eram quase onze da noite. Passavam os veraneantes, soprava o vento corroendo as escarpas (onde os cactos e os cardos teimavam em vingar), levando-as a uma lenta queda que ninguém vê: o trabalho da natureza, moroso, minucioso. Mas o homem parecia imutável, já habituado à invisibilidade; como se o velho pescador soubesse que a existência trata das coisas que acontecem e não se conseguem ver; e era como se essa fora sempre desde tempos imemoriais a sua lavra. E o mar, não o imenso mar, mas o mar de Társis, não o do areal, não o dos pára-ventos, não o dos guarda-sóis, não o dos turistas, não o dos castelos de areia, mas o mar do inverno, do vento constante, do uivo dos velhos pescadores nas suas casas emadeiradas, o mar das coisas invisíveis.

Já no seu quarto, e antes de apagar a luz, ainda espreitou a casa violeta, mas, estranhamente em relação a anos anteriores, naquele princípio de agosto a janela parecia manter-se fechada. Era como se os ‘contrabandistas’ cessassem a sua actividade o que, para ele, representava uma espécie de abstinência comunicativa. Necessitava daquela luz para reconfigurar os seus códigos. Alimentava-se deles. Sustinha-se à tona das coisas através do que julgava as coisas serem, mesmo que não o fossem. Naquela e na outra noite não houve códigos. Nem nas seguintes. A peneira da imaginação recodificava a luz do alçapão e atribuía-lhe agora o poder de um farol sem o qual havia de quebrar os seus cascos na dureza das rochas. Inquietava-se, temia por si próprio como uma criança que, mesmo que explicado o escuro, continua a temer as sombras que as coisas e o seu próprio corpo projectam. Começou a pensar que, naquele ano, a pessoa já não vinha. A configuração da morte levou-o a pensar em todas as oportunidades perdidas. Padeceu por breves momentos, como se aquele pedaço de luz proveniente da clarabóia fosse já um pouco seu também.

Empreendeu novamente o seu deambular pelo passeio marítimo, pela água gélida, pelo local onde o velho pescador costumava estar todas as noites. A sua mente era um pedaço de areia invadido de algas e sargaços que lhe prendiam os movimentos, barco em busca de uma salvação, como a luz projectada daquelas águas-furtadas seria para si um pedacinho de esperança. Porque, durante anos consecutivos, acorria à casa da praia e olhava com esperança o telhado de onde havia de ver erguer-se uma luz. Quando entrava de férias, dirigia-se para lá num nervosismo miúdo. Para não se distrair na condução, costumava ouvir poetas e escritores recitando os seus textos, o que o fazia sossegar, como se o silêncio diminuísse a velocidade das coisas e permitisse a concentração da condução. Os escritores: escreviam porque tinham silêncio – e desejara-o para si, procurara-o como procurava aquela luz aparentemente inócua, mas pungente dentro dele, mesmo que não soubesse porquê. Talvez o mundo mudando tivesse deixado de escutar o silêncio por estar desconcentrado na sua própria velocidade.

E, muitos anos depois, quando ainda pensava nisso, continuava sem saber, ainda que também lhe parecesse que talvez não houvesse nenhum motivo inescrutável. Adormecia. Sentia-se a desfiar. Agora era velho. Estava velho, como o nazareno que nunca mais vira e que já devia ter morrido. Fazia a barba cada vez com maior lentidão e imprecisão, com uma lâmina das antigas que não deixava enferrujar, e impregnava o rosto de álcool, que queria sentir sarando os rasgos da sua vida longa de velho de noventa e muitos anos. Era velho e fazia sestas nas tardes longas; sonhava com o tempo, computava-o, pensava-o, como se os pensamentos se pudessem mexer no fundo de um balde. Acordava, os cabelos ralos esvoaçavam com a aragem quente. Afagava o cão. Pinhas caíam das árvores. Mimosas floresciam. Raízes que pareciam veias gigantescas da terra ganhavam terreno aos passeios. Era da velhice, aquela fase em que os dias se mastigam como peixes amassados no fundo de um balde. Na parcimónia da sua idade, gostava de observar as coisas com outra lentidão. E de pensar. Recostava a cabeça sem o tónus de antigamente, e adormecia na cadeira minuciosamente colocada debaixo da mangueira.

Olhava ao espelho o seu corpo mirrando, o seu corpo enrugado, e não podia deixar de pensar que a vida fora para ele um mirrar do tempo porque o que ele fizera não fora mais que caminhar na direcção oposta ao que queria. Se soubesse, não teria ido na direcção contrária, mas, naquela época, não percebia ainda a dimensão temporal que as coisas têm e, por isso, não aproveitara devidamente o amor. Esse sentimento, que assomara cedo na sua vida, lembrava-lhe o extremo que jogava football sobre a neve. Corria sobre ela, galgava-a como se nada o travasse, e a sua camisola de flanela álacre era um impulso vogando, isto até ao momento em que uma malograda lesão numa perna o afastou irremediavelmente dos campos. Lembrava-se bem. Também ele se afastara sem nunca ter sido mais do que uma promessa para si mesmo, corroído por uma lesão que não sabia localizar. As coisas não se apagavam. O velho pescador não se volatilizar, antes parecia ter-se gravado em si através de palavras que não dissera nem ouvira, mas que, paradoxalmente, pareciam ser mais imutáveis que um texto. Esse homem, a insistir no mesmo movimento, através do qual se agachava nos limos da sua vida, fazia-lhe perceber a sua fragilidade.

O que lhe restava eram os homens que tinham sido capazes de escrever. Lembrava-se de quando lera, com quinze anos, Machado de Assis, que dizia que a sarna de escrever só tem cura na mocidade, e de como então se assustara. Não o entendera imediatamente e por cada dia que demorara a entender tinha perdido tempo. Doía-lhe saber que o não tinha feito: condenado irremediavelmente pela fome. A ‘fome’, porque o escritor que pensara um dia ter havido em si não tivera sequer os seus domingos nem os seus golos, condenando-se à espessura do bafio. Era estranho que a solução estivesse lá atrás, quando ainda mal corria, quando o que fazia era pegar no martelo e dedicar-se a partir uma pedra (ainda se lembrava da sua tonalidade, do local concreto, porque agora, no lugar da pedra encontrava sapos de pedra, casas de pedra, peixes de pedra). Tinha estado tudo lá atrás e não se dera conta disso – porque os outros lhe diziam sempre que ainda tinha tempo, que era novo, etc. Mas a culpa era dele porque cedera a uma postergação constante.

Que dia funesto para morrer. Um dia em que só um intenso nevão era capaz de extinguir as estradas e esbater as comunicações. Falar em manto de neve era eufemismo. Não era um manto que cobria a terra, as árvores e as estradas. Eram mantos sobre mantos e tudo o resto um mundo subterrâneo. Caminhar entre as casas da aldeia, alpendorada no morro da serra, tornara-se numa tarefa quase inconcebível. A aldeia volvera-se num cemitério, do qual só pareciam notar-se vestígios de janelas, folhas de telhados ou riscos de antenas, aqui e ali, pintalgados em esboços inconclusivos. Nesse dia escreveu o seu único texto: A vida é uma imensa cardosseia à qual não vale a pena deprecar um perdão.


Norberto do Vale Cardoso | Chaves, Portugal | norcardo@gmail.com

 

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