Subversa

Capivaras | Gusthavo Gonçalves Roxo

 

Esse lugar tá cheio, gente por todo lado, livros por toda parte, dizem que esse é o maior público da Bienal na História e ainda não é nem meio dia. Meus amigos e eu marcamos um lugar em comum, entre três estandes, para nos encontrarmos durante as buscas literárias. Comecei procurando um livro da Wisława Szymborska, grande poeta polonesa, seu livro fino e um tanto caro não coube no orçamento do meu bolso, pouco mais de cem páginas, metade em português, metade em polonês, não faria muito sentido dar 70 reais para 50 poemas, tendo apenas 43 trocados incluindo a passagem.

Quando voltei do estande e fui ao ponto de encontro, uma amiga minha sorria de lado a lado, “Encontrei o Daniel”, perguntei que Daniel?, “O Daniel que estudou com a gente, dá 203 pô”, não lembrava de nenhum Daniel, ela sabiamente percebeu completando “Tudo bem ele também não lembra de você”. Ela me apresentou um livro laranja, era uma longa história em quadrinhos chamado Persépolis, disse que foi sugestão do tal Daniel, pelo visto ela valorizava muito o que esse cara comentava.

Me despedi e fui a outro estande, procurei uma obra de Saramago, Claraboia, o segundo livro escrito por ele e publicado apenas depois de sua morte, achei um exemplar defeituoso custou apenas 8 reais e tinham tantos, parece que as pessoas só pegam os seus títulos de maior sucesso e não ouviam o que o jovem José queria dizer.

No retorno mais uma vez minha amiga sorrindo disse “Encontrei a Amanda!”, respondi, Que Amanda? “A que ficava com a gente na ponte depois da aula no sétimo ano!” Não lembro, adimiti, acho não andava com vocês naquela época.“Tudo bem, ela também não lembrava de você”. Sorrindo minha amiga me mostrou um livro verde do Neil Gaiman, o título se escondia embaixo do nome em fonte alta do autor, Lugar Nenhum, ela não soube me dizer sobre o que era o livro, mas pareceu empolgada, foi sugestão da Amanda, ela disse, um livro que ela nunca se esqueceu.

Nos separamos mais uma vez, fui em outro estande procurar um livro da Clarice que nunca tinha lido “A legião estrangeira”, contos cotidianos, escritos por uma jovem nada comum que só viria encantar o mundo de verdade, muito tempo depois. Voltando para o meio do pavilhão, encontrei minha amiga Larissa sorrindo para um livro, Memórias do Subsolo de Dostoiévski, dizia em voz alta que esse era o livro favorito de André Cardoso. Perguntei a ela quem era André Cardoso, ela olhou para mim e perguntou “Quem é você?”, disse que não sabia quem era e ela respondeu “Tudo bem, eu não te conheço também”.

 


Gusthavo Gonçalves Roxo | Rio de Janeiro, Brasil | Carioca, Museólogo e Escritor. Atualmente é Mestrando em Arqueologia no Museu Nacional/UFRJ. | gusthavogoncalvesroxo@gmail.com

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1 Comentário

  1. Felipe 17 de junho de 2021 em 07:49

    Muito gostoso seu texto, Gusthavo! Abraços,

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