Subversa

Borboleta | Iris Franco


Um dia comum, com nuvens comuns e árvores comuns. Poderia começar esta história com alguma mentira para atrai-lo na teia do escritor (no caso, escritora), entretanto, nada de nada acontecia naquele momento. E neste prosaico vácuo temporal, o qual espetacular era simplesmente não ter nada de espetacular (uma gastura à estrutura urbana!), caminhavam lado a lado fingindo expiar os delitos do dia a dia com o ar fresco. Contudo, quando a mente é inquieta, a mudança dos ares não é capaz de sufocar os pensamentos.

Como um engasgo intrometido, abriu-se o diálogo:

— O que é a vida? — ela perguntou com um olhar esperançoso, mesmo com idade suficiente para saber que nutrir tal sentimento sobre algo é uma das maiores ironias da existência, pois é o primeiro passo para a desesperança.

A pergunta era batida. Claro, para aqueles que pensam, porque se um indivíduo chegou a realizá-la poucas vezes, só pode estar extremamente feliz e, se está em um grau tão sublime de contentamento com as atuais condições de temperatura e pressão terrestre, só pode estar alienado e, por conseguinte, cego.

E acometido por uma das piores cegueiras: aquela que namora a surdez, mas infelizmente, não a capacidade de mutismo.

A tristeza é a maneira que a vida nos deu para apreciarmos com mais maturidade os próximos momentos de felicidade, são institutos complementares. Esconder a dor, em vez de compreendê-la, é a maneira de começar a casa pelo telhado.

Desculpe-me, vou voltar à história e deixar minhas divagações para outro dia. Pois bem, quase que instantaneamente, uma borboleta pousou nos ombros dele. Ignorando a pergunta ou simplesmente se esquecendo de sua aparência, diz em um tom de surpresa:

— Uma borboleta! No meu ombro? Olha que interessante! — ele arruma os óculos de modo atabalhoado, com o objetivo de não perturbar a sublime paz daquele ser de asas de manteiga.

Sim, desafiando a grande lógica da selva de concreto, lá estava a borboleta preta com bolinhas amarelas, borboletando vagarosamente como se fosse hábito pousar nos ombros do primeiro estranho que cruzasse as esquinas do caminho dela.

— Como vamos tirá-la daí? Não podemos levá-la pra casa, o lar dela é aqui, nas árvores comendo as coisas que come.— ela estava segurando o nariz para não espirrar.

— Vamos esperar, com o tempo a borboleta vai embora. — disse ele franzindo as sobrancelhas com um ar de sabedoria que só o tempo traz.

Falaram sobre futebol, filmes, política e sempre com a inquietação de ver se a borboleta se movia do ombro dele.

Nada.

Apenas balançava presunçosamente as asas, como se estivesse a participar de modo altivo das pautas em questão. Talvez, uma balançada com a asa direita era um “sim”, e com as duas um veemente “não”. Porém como os humanos ainda não falam a linguagem dos animais por se acharem um animal mais animal, os interlocutores não foram capazes de distinguir se aqueles sinais eram  “sim”, “não” ou “socorro”.

Ao chegarem no último trecho verde antes de adentrarem o mar plúmbeo, voltou-se a questão:

— O que faremos? Ela tem que ficar aqui!

Instintivamente, ela soprou.

Soprou e a borboleta voou linda, livre e bonita, carregada pelo vento. Seus tons de preto e amarelo eram como grandes borrões de tinta esparramados naquele céu de um azul aquarelado. Repentinamente, o voo não era mais tão voo assim, o lepidóptero bicolor começou a cair, como se a gravidade fosse maior que seu desejo de liberdade e pousou na avenida.

Um gigante caminhão de seis rudes rodas a devorou.

Entre os sentimentos de surpresa com o final da história e a incredulidade galopante, ela sentiu, naquele momento, que a resposta encontrou a dona da pergunta.


Iris Franco | São Paulo, Brasil | iris_fr@hotmail.com

Sobre o Autor

5 Comentários

  1. Wendel 21 de junho de 2019 em 13:09

    Que incrível

    • Iris Franco 22 de junho de 2019 em 14:16

      Obrigada Wendel pelo comentário bonito! Hahahhaha…tá dando asa a cobra!

  2. Iris Franco 22 de junho de 2019 em 01:25

    Queria agradecer a revista pela publicação do meu texto. Vocês não fazem ideia do quanto estou feliz!

  3. Carlos Barth 1 de julho de 2019 em 11:48

    Muito bom! Adorei. Você está de parabéns.

    • Iris Franco 1 de julho de 2019 em 15:45

      Muito obrigada, adorei o seu texto tbm. Muito bom!

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367