Subversa

Baldeação entre ensaio e crônica | Felipe Eduardo Lázaro Braga


Todo morador da grande São Paulo possui seu próprio sistema de trens, seu próprio sistema de metrô. Embora seja um único sistema para todos, meu metrô tem basicamente três linhas, a Linha Amarela, a Linha Esmeralda, e a Linha Diamante. Em todos os outros trilhos, sou confesso forasteiro, completamente intimidado com as escadas rolantes da Linha Lilás, perdido nas saídas da Luz, espantado com as duas estações Lapa, que compartilham o nome, mas nenhuma passagem entre si. Aliás, meu metrô não tem linhas, tem trechos de linha – a Linha Esmeralda do meu metrô só vai até Pinheiros; a Linha Diamante, que sai de Júlio Prestes até Itapevi, só vai até Osasco, e acaba ali. Linha Rubi, no meu sistema metroviário, só existe enquanto reta colorida de um mapa. Linha Vermelha, Azul e Verde são as linhas de lazer, existem para eu chegar na Avenida Paulista nos finais de semana.

O sistema de metrô cultiva, além disso, um sentimento que lhe é próprio, bastante característico dos aglomerados urbanos. É uma espécie de ansiedade trabalhada em expectativa, o sentimento de quem caminha sempre na arriscada fronteira do atraso – nunca completamente seguro, a ponto de observar a hora do compromisso no horizonte longínquo da tranquilidade; nunca completamente arruinado, a ponto de desistir do encontro no meio da maratona metroviária. É uma sensação diferente de estar atrasado – se tudo der certo, absolutamente tudo, eu chego lá tropeçando na hora marcada. A catraca do metrô é a alternativa mais segura para derrotar as extensões metropolitanas, de sorte que a batalha cotidiana do horário cria sua própria subjetividade vigilante, ansiosa com a iminência do atraso, mas esperançosa de uma pontualidade flexível.

Caminhar (apressadamente) nessa linha estreita de ansiedade exige que o sistema funcione na medida exata da urgência, isto é, que a chegada do trem combine antecipadamente com a baldeação o momento perfeito da pressa; que as pessoas permaneçam escrupulosamente acorrentadas à esquerda, quando nas escadas rolantes; que não haja aglomerações nas catracas bloqueando meu egoísmo atrasado. * Amigo, com licença… o senhor vai descer na próxi… Também? Certo, desculpe*. Se a agenda é com os amigos, os compromissos são mais sorridentes, e não intimam uma pontualidade desumana. O relógio do celular, nesses casos, só acusa um suspiro de culpa quando a vizinhança dos 15 minutos de atraso, já convertidos em regra paulistana de polidez, estão me cumprimentando.

A tarifa do Bilhete Único, por outro lado, compra pequenas felicidades, tão triviais que se camuflam de multidão na invisibilidade das plataformas. Encontrar um assento livre no horário de pico é uma alegria genuína, alegria da subjetividade-CPTM; encontrar um assento livre, no horário de pico, que não seja reservado a idosos, é um elogio que a cidade faz ao meu cansaço; encontrar um assento livre, no horário de pico, que não seja reservado a idosos, na volta da faculdade, são 23 minutos a mais de sono por dia, na ditadura da dupla jornada. Minha felicidade metroviária favorita, no entanto, é ser escolhido pela beldade do vagão para compartilhar a dupla de assentos, nos minutos de deslocamento. Tantos outros lugares, e a beleza escolhe a minha direita, num gesto de carinhosa indiferença.

As estações centrais do sistema distribuem as centenas de milhares de cansaços nos quatro cantos da cidade. Sé, Barra Funda, Luz, Brás são, na verdade, milimétricas coreografias de multidão, individualidades mutuamente coordenadas que caminham na sinfonia da pressa. O sistema é, além disso, um reflexo de hierarquias sociais que divide o planeta São Paulo em duas categorias de pertencimento, centro e periferia, numa relação matemática perfeita: multiplica-se o número de estações para o destino final, com o número total de baldeações necessárias; quanto maior o resultado obtido pelo usuário, mais próximo estará do extremo periferia (aí incluídas as cidades do entorno de São Paulo que, na percepção de distância do morador do centro, estão todas na fronteira com o Paraná). Se, além disso, o sujeito precisa pegar um ônibus antes de chegar no trilho, ele, como eu, habita a periferia profunda, os territórios de São Paulo em que a mesma distância geográfica se converte em triplos de jornada. *A CPTM informa, ao desembarcar, cuidado com o vão entre o trem e a plataforma*. Atenção, passageiros: o vão é, nas estações dos extremos, uma armadilha de acidentes para capturar idosos, crianças e cadeirantes.

Conquanto tudo isso seja verdade, o metrô representa, para a maior parte dos usuários, um anti-espaço, um espaço-neutralidade. Ninguém está no metrô ou no trem metropolitano como um fim em si; ele é, antes, o intermediário necessário entre a minha falta de tempo e o meu destino final. Infelizmente, a familiaridade de todos os dias impõe à percepção uma melancólica indiferença, de modo que deixamos de olhar aquilo que vemos todos os dias.

Sábado à noite, dia absolutamente normal, peguei o trem pra ir ao teatro. Naquele horário, as composições estão confortavelmente vazias, entrei no vagão e escolhi um assento colado à janela. Na estação seguinte, um cara sentou ao meu lado. Aliás, ele não sentou: ele se despejou ao meu lado, claramente desrespeitando os territórios de assento. O cara era um grandalhão, impôs sua presença esperando uma submissão encolhida. Errado, amigo! Travamos ali, nos treze minutos de percurso, a batalha patética dos centímetros: pernas rigidamente coladas uma na outra, defendíamos nossas respectivas posições com a arma do desconforto alheio, numa caricatura de supremacia. Cada movimento brusco do trem representava um revés momentâneo para um dos lados, e obrigava um sutil recrudescimento de pressão, tudo para retomar uma insignificância de espaço. Era uma operação delicada, pois um empurrão mais intenso de joelho poderia escalar o conflito para além do silencioso contato de coxas, e estávamos ambos concentradíssimos em fingir recíproca indiferença. Lá pelas tantas, a bandeira branca do afastamento discreto de pernas foi hasteada pelo agressor, e recolhi silencioso minha medalha de ridículo.

Saí do trem antes do espaçoso e fui fazer a baldeação para o metrô. Estação cheia, sempre: Barra Funda não conhece vazios, sua tranquilidade é sempre aglomerada. Na plataforma da Linha Vermelha, é possível entrar na composição por ambos os lados do trem. Em prejuízo dos assentos livres, escolhi a porta que abre depois, apenas para ficar do lado de cá da multidão. Um rapaz parou ao meu lado, estava sozinho. Depois de um tempo, começou a fazer gestos sistemáticos e contundentes com a mão, cada vez mais animado. Eu o espiei de canto de olho, seu rosto exclamava satisfação, seus braços desenhavam formas indecifráveis no ar, apenas eu, ele, e sua excentricidade entusiasmada. Era um rapaz bastante bonito, escondi minha admiração atrás do olhar de surpresa. As outras pessoas na plataforma também olhavam pra ele, mas não só para ele: do outro lado da estação, um segundo rapaz, nem tão bonito assim, respondia aos acenos do colega com afirmações gestuais igualmente silenciosas, igualmente excitadas. Percebi, então, que os dois garotos travavam uma intensa conversa inter-plataforma, e riam deliciosamente entre si, suas piadas protegidas pelo idioma mímico. Todos olhávamos para os dois, e os dois adoravam esse efêmero protagonismo, numa encantadora demonstração de vaidade em libras. Nossa atenção era, para todos os efeitos, um holofote de visibilidade que os resgatava do anonimato metroviário (quase na hora da peça! Cadê o trem?).

Três minutos de espera foram suficientes para interromper a palestra gesticulada, e o trem chegou na plataforma. Esperamos sair para depois entrar: os meninos encontraram um assento para si, pouco antes da ponta do vagão, e eu fiquei de pé, colado à porta. Do meu lado esquerdo, um grupo de jovens cristãos conversava introvertidamente, cada qual carregando sua bíblia de estimação (duas delas tinham a capa colorida e personalizada, um arroubo de juventude neopentecostal). Estavam completamente vestidos de etiqueta evangélica, saias discretas e monótonas para as meninas, gravatas vaidosas e puídas para os meninos. Era, sem dúvida, uma sincera tentativa de elegância, desfilavam com orgulho o recato típico de duas gerações anteriores. Do meu lado direito, um grupo menor de pessoas, quatro ou cinco sorridentes, equilibrava a si e suas latas de cerveja nos tropeções mais intensos do trem, o equilíbrio desajeitado de quem já venceu três horas de boteco. As mulheres de meia-idade vestiam ousadia, compensando os homens que eram de todo desinteressantes. Enquanto a voz do grupo pronunciava embriaguez, as risadas, cada vez mais audíveis, escalavam uma euforia bêbada e desleixada. Não percorremos nem três estações quando aquela conversa de frases pela metade se transformou num coral desafinado de axé, uma mistura de desarmonia e Ivete Sangalo. O vagão pertencia completamente àquele porre.

A única coisa que separava a timidez bíblica e o entusiasmo bêbado, naqueles segundos de convivência desajeitada, era o meu deslumbramento urbano, meio curioso, meio zombeteiro, definitivamente agradecido. Adoro pensar o metrô como um desbravamento de diversidades justapostas. Aliás, mais do que justapostas: misturadas, quando não exprimidas. *Next station, República. Access to subway line four yellow. Mind the gap between the train and the plataform*. Minha estação chegou, corri pro teatro (estava em cima do horário, ansioso para alcançar a terceira chamada em tempo).


Felipe Eduardo Lázaro Braga  | Osasco, Brasil | braga.felipe@aol.com     

 

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1 Comentário

  1. Iris Franco 22 de junho de 2019 em 01:04

    Eu me senti dentro do texto! Só se sabe o que é viver em São Paulo, vivendo em SP. Ao mesmo tempo que vc sente uma agonia pela necessidade de pontualidade, é possível se apaixonar pelos detalhes. Este texto expressou brilhantemente o que é viver aqui, um profusão de sentimentos desgovernados. Muito legal, parabéns.

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