Subversa

Baile | Loecy Rosa Damásio


Para dançar a noite inteira – sem que o dia o despertasse ao amanhecer – ele desligara a música, enquanto ainda podiam rodopiar alucinados sob a luz artificial do salão.

Eu – que não fora convidado à festa – assistia ao baile do lado de fora, através da janela envidraçada dos fundos. O salão – o que restara de uma antiga igreja – delimitava o centro de um extenso cemitério, o que figurava a quem ali adentrasse a vivacidade oculta de uma atmosfera tumulada. À vista daquele baile fúnebre, distinguira-se um casal de namorados. Dançavam alegres sob a luminária, como dois corvos voando ao luar. De onde eu os assistia – absorto numa cisma profunda – a festa parecia um ritual funesto, mas, embriagados pelas bandejas quase vazias que circulavam com uniformes brancos e pretos, eles se distraíam com o barulho e os borrões – de cores já translúcidas nas roupas daqueles que não dançavam mais.

Embora eu não fora convidado, o movimento me fascinava. O esplendor do salão parecia um convite aos ausentes. Ao soar da meia-noite, e ao decorrer da madrugada, os túmulos se perfumaram com rosas trazidas pelos visitantes. As luminárias do cemitério foram apagadas e os lampadários do salão, acesos. Uma brisa menos fria dissipara a neblina gelada.

Debruçado no vão da janela, contemplando espectros envoltos em retalhos – eles repetiam suas fantasias de outros bailes –, duvidara que estivesse acordado. Ou, talvez, possuído pela loucura daquela atmosfera fantástica, eu alucinasse junto aos antepassados. A dança dos namorados – o fandango se limitara a realizar-se em torno deles – causava-me estupor. Compartilhava da vertigem daqueles passos animados. Dançante, uma vez mais, eu pensara: dançarei a noite inteira. E tivera o sentimento – ou a crença – de que aquele baile jamais teria fim. Não haveria razão para a música parar de tocar.

Fora repentina a descoberta de que eu invadira o salão. E não ser um dos convidados revelara-se um privilégio raro. Eu não precisava beber para me embriagar. Dispensara os uniformes pretos e brancos, com suas bandejas vazias. Não me misturara à multidão, que formara um círculo agitado em torno dos amantes. Inclinara-me, sem sair do lugar, e – para além das frestas no tumulto – eu a vira. O rosto pálido igual ao de uma escultura ao luar.

O lugar girava. Eu – que desaprendera a dançar – compartilhava da embriaguez do casal. O salão se estendera. Havia, ali, espaço para uma estação. Derretidas as paredes de cera – a solidez da neblina –, restara uma antiga incandescência. As iluminuras no teto moviam-se à macabra dança dos vivos. Tocava “The Windmills Of Your Mind”. Todos se confundiam ao fulgor dos candelabros. Solitário, eu me animava à vigilância de um espírito noturno.

Eles madrugaram, naquele verão, numa antiga igreja. Não sabiam que madrugavam. Mas não dançaram quando o dia amanhecera – com a nebulosidade de um dia qualquer. Só então souberam. Os túmulos sepultavam o mesmo baile. Dois epitáfios por uma dança.

Movido pelo estupor que aquela dança me infligira, tornara-me outro na multidão daqueles que já não dançavam mais. A presença dos convidados ocultava as luminárias pendidas nas paredes. E – formada a sombra em torno do salão – imaginávamos se eles ainda dançariam ao silêncio da música. Ninguém se atrevera a distraí-los, embora estivéssemos cansados, e não tardaria até que o dia amanhecesse e víssemos a nebulosidade para além do saguão.

Mas inspirado pela dança – que convidava coveiros a acenderem ainda o pavio das candeias – eu me separara da multidão e – distinguido pela luz artificial – fora flagrado. Consciente de minha presença intrusa, voltara-me – sem pensar – a ela. E tão logo o tocara – às costas – para pedir-lhe que me permitisse assumir seu lugar, ainda que pelo tempo mais fugaz, um espaço se revelara à minha frente – à dispersão da multidão, à dissipação da sombra, eu vira minha imagem no vidro da janela dos fundos. Minha cabeça. Minha cabeça olhando-me do lado de fora do salão. Tocava Whiter Shade Of Pade. E – agora – ela dançava sozinha.

Porque dançaram, uma vez, ao sol da meia-noite, transpareciam um tom mais branco de palidez. E quando esquecidos à neblina mais densa no cemitério dos dias, ainda aquela dança.

De súbito, eu soubera o que aconteceria. Éramos os únicos presentes. Mesmo o salão se ausentava – tudo estava claro. Eu vira seu rosto pálido – mais pálido que a lua. E à atmosfera, antes fantasmagórica, fora atribuído um tom mais branco de palidez. Apesar de minha vigilância neblinada, ela ainda dançava. Eu desliguei a música – e dancei em silêncio.


Loecy Rosa Damásio | Porto Alegre, Brasil | loecydamasio@outlook.com

 

 

 

 

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