Subversa

Azul | Mauro Paz


Não sei quantas tatuagens você já espalhou no corpo. Nem qual o gosto dos teus dedos. Nem qual foi a última vez que você sentiu falta de deixar a cabeça leve no sofá de casa. Sei só da volta que a minha língua faz para falar azul. Você me disse que, em algum canto do Marrocos, azul é oi quando vem do coração. Vejo a sua boca dobrar o ar pra repetir, azul. Repara. A palavra cai por entre seus dedos dos pés e dispara. Derramada pelo céu do deserto. Por Barcelona. Pelas margens do Tejo. Por entre os prédios de São Paulo. E por todos os cantos em que a gente se acompanha mesmo sem você nunca ter me dado a mão. Ou eu travar a respiração pra assistir de perto a elegância incorreta com que você se move. Desde que o céu subiu pela primeira vez, o azul está na intimidade de todas as coisas. Persistente. Inexplicável. Algumas coisas não tem mesmo explicação. Quem explicaria um homem feito como eu sentir saudade de alguém que nunca viu? Ou desejar que Azul fosse uma última música escrita por Belchior sobre a brisa, você e eu.


Mauro Paz | São Paulo, Brasil

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