Subversa

Atemporais | Isabella Luiz


os pingos de chuva equivaleram a vinte um dias

evocando os sentidos todos e as memórias úmidas de um tempo morto pela seca das retinas. ainda agora retorno às minhas memórias de menina.

vovó ainda cantarola e lava a louça na cozinha com a porta do quintal aberta
continuo deitada no chão de cerâmica do terraço sem camisa com a respiração cortada
permaneço à espera na porta pelo primeiro namorado, o cheiro ainda sufocante de perfume barato
as voltas do colégio sozinha sussurrando com os gatos das esquinas

sem pressa as lembranças batem nas telhas
trasbordam os recipientes dos olhos
ouço ainda minha voz a repetir eu te amo
meus gemidos a beira-mar nublada
um estúpido pedido de namoro numa rua de barro

-a única não calçada do bairro

a chuva carrega consigo pancadas
e gosto de molhar o rosto na janela aberta
sinto algo de vida no cheiro de mormaço

lembro do sertão de mainha
de Mariquinha a me deixar do lado de fora da casa pra acabar com meu medo de trovão, lembro de pular com as outras crianças da rua
era o pavor, era o frio, era uma excitação estranha
que fazia meu corpo tremer e correr rápido através das bicas

em dias que chovem o equivalente a vinte e um dias enxugo águas, penso nas partidas
e principalmente em segredos guardados por muitos anos
mesmo que nada faça sentido agora
o som é o mesmo no quintal, é o mesmo no terraço
mas parece que me falta bravura de deitar com o peito no chão e ouvir dilúvios
falta na tempestade quem me prenda do lado de fora
falta a dança dos primeiros temores

falta a menina nas escadas do colégio pensando em como sentiria saudade no futuro
me resta a mulher nas ruas alagadas de Recife pensando em como não sentir saudades
a enxurrada traz as vozes dos demônios e as desculpas dos anjos
e ao redor do tempo escorro para o centro, para a Maciel Pinheiro, para a Bruno Veloso
correndo da chuva na chuva da primeira chuva e da última
fazendo tanto sentido quanto sombrinha barata em temporal
molhando a casa quando estou só

evocam os últimos pingos de chuva as lágrimas, as salivas e os gozos
as coisas que escorrem nem sempre silenciosas
boiando nas vias púbicas, entupindo as artérias e jorrando das glândulas
deixo a chuva me levar aos dias dos inícios enquanto vivo os últimos

mexo os pés no embalo dos pingos, na sinfonia do passado que atenua os dias secos, que enganam as meninas e inebriam as mulheres.


ISABELLA LUIZ | Recife, Brasil | https://medium.com/@isabellaluiz

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Felipe 29 de setembro de 2019 em 14:44

    Que coisa linda! Estou encantado Isabella!

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