Subversa

Ascendente | Sam Moura


Renata acordou cansada, espreguiçou-se longamente e levantou para fazer seus exercícios de respiração. Ao final de dez minutos, já se sentia bem disposta. E até mesmo um sorriso tomou seus lábios. Começou a pensar no seu dia e se deteve: queria tomar um café da manhã com calma e ler um pouco, de preferência coisas sem importância, daquelas que preenchem a rotina. Procurou o jornal e se sentiu grata ao marido por ter insistido que retomassem a assinatura do jornal em papel. Não queria nada com tecnologia naquele momento. Tinha saudade do passado, até mesmo daquele que não era dela.

Sentou com o seu café, abriu o jornal e seus olhos foram diretamente ao encontro do horóscopo. Começou a ler com a curiosidade de quem, sem saber, espera encontrar ali uma justificativa ou provocação. Foi então que Luiz surgiu na varanda com cara de quem havia acordado em cima de um porco espinho. Ele despejou todas as preocupações que tinha para o dia, e cobrou de Renata respostas a questões práticas sobre as quais ela não queria pensar naquele momento.

Renata se sentiu como uma bola de festa de criança que, dançando no ar, encontra uma luz quente o suficiente para estourá-la. Os últimos tempos vinham sendo difíceis. Luiz era a amargura ambulante, sempre pronto para o embate. Faltavam ouvidos e sobrava boca. Talvez ela estivesse sensível demais: já não conseguia ser nem ouvidos, nem  boca. As interações entre eles eram sempre desastrosas: invariavelmente saíam estourados ou murchos.

Ela explicou que não queria falar sobre aqueles assuntos e precisava de um tempo. Ele veio atrás insistindo que precisavam falar, que ele precisava saber. Ela deixou o café, pegou o jornal e se dirigiu ao banheiro, onde constantemente se refugiava. Teve vontade de gritar.

Sentada no tapete, pensou em como havia ido parar ali. Havia conhecido Luiz com quinze anos. Apaixonou-se por ele e pela ideia de estar com ele, um cara bonitão cinco anos mais velho que já frequentava a faculdade e tocava violão como ninguém. Parecia que tudo vinha na direção dele, que o mundo o abraçava. Adorava pensar nos dois juntos e quando pensava, se via, e quanto mais se via com ele mais se apaixonava. Começaram cedo a fazer planos. E assim seguiram juntos. Nunca havia se permitido questionar essa escolha feita há vinte anos.

Apesar da agitação, não quis desistir do que estava fazendo. Não queria se dar por vencida. Voltou ao horóscopo:

“Seu poder de comunicação está em alta. Vão prestar atenção a suas palavras. Escute-as também. É um bom momento para apostar em novas saídas. Com cautela, trarão bons frutos.”

Pensou em como sentira orgulho do seu signo: intenso, misterioso e profundo. De uns tempos para cá, simplesmente não se identificava com ele. Uma amiga havia dito que depois dos trinta o que valia era o ascendente. Adorou. Nem mesmo com o signo conseguimos ficar a vida toda, pensou. O ascendente vem como uma segunda chance. Qual seria o ascendente de Luiz? Sorriu ao se escutar. Leu o  ascendente:

“Dê asas aos seus desejos de mudança. Nunca é tarde para recomeçar. Aposte em um clima descontraído.”

Saiu do banheiro decidida a ter um dia leve, e secretamente esperando que Luiz houvesse sumido. Ele também estava esperando. Por ela. Queria saber a que horas o eletricista vinha, se ela ia ligar para o encanador, como iriam fazer com os armários, se a mãe dela viria ficar com as crianças ao meio dia ou às treze horas. Ela cantarolava mentalmente para não ouvir. Perguntou ao Luiz qual era o seu ascendente. Ele não entendeu. Mesmo quando entendeu continuou sem entender. Ela insistiu que precisava saber. Ele não sabia. Ela perguntou a que horas ele tinha nascido. Ele se irritou, ainda mais pela certeza de que era isso que ela queria. Ele não sabia a hora que tinha nascido, não se importava e não entendia a relevância daquilo, ao contrário dos assuntos que ele trazia que, de fato, precisavam ser resolvidos.

De repente, sem lembrar do que o horóscopo dizia sobre a força de suas palavras, ou talvez por isso mesmo, ela disparou: talvez não devêssemos continuar juntos.

Ele olhou para ela atônito. Pegou o seu violão e foi para o quarto.

Mesmo se vendo sozinha, como havia desejado, ela continuava querendo fugir. Colocou uma roupa qualquer e agarrou a bolsa. Saiu decidida. Foi bater a porta de casa atrás de si, e uma outra porta veio em sua cara. Ela gritou mais de susto do que pela dor no nariz. Era a porta do elevador que havia sido aberta com um empurrão de  força desproporcional. Ao perceber o que tinha acontecido, o vizinho pediu desculpa imediatamente.

Ela entrou no elevador em modo automático e depois de passar pelo quinto andar, se olhou no espelho e desatou a chorar. Chegou ao térreo e não conseguiu sair. Subiu novamente ao seu andar. Precisava ver o Luiz.

Entrou e não ouviu o violão. Procurou pelo apartamento. Luiz não estava. Ele havia levado a sério suas palavras. Sentiu um desespero tomar conta de si. E se de fato acontecesse o que ela queria? Se deixou escorregar em um canto e chorava alto. Até que, entre soluços, ouviu passos. Era Luiz que voltava de jogar o lixo fora. Ele tinha o olhar perdido e exausto de quem tenta, ao fim de um dia cheio, aprender alemão. Não olhou para ela. Renata se sentiu aliviada.

“Luiz, esquece o que falei. Devemos continuar juntos sim. Não quero saber do seu ascendente!”

Ele subiu o olhar para ela.

“O que houve com o seu nariz?”

“Deixa pra lá. Foi um sinal de que não deveria ir a lugar algum.”

“Onde você ia?  É, deixa pra lá. Que horas a sua mãe vem?”

Renata suspirou resignada. Ainda guardava a intensidade do seu signo e preferia a amenidade do sol que ainda a aquecia ao que poderia surgir, ou não, no horizonte. Decidiu que não mais leria horóscopo.


Sam Moura | Rio de Janeiro, Brasil | PhD em Direito pelo Instituto Universitário Europeu em Florença, mãe, psicanalista em formação, apaixonada pela singularidade que universaliza. Instagram @dumbigopralem.

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Leandro Costa 18 de junho de 2021 em 17:49

    Sam, gostei muito do seu conto, sobretudo deste trecho:
    “Renata se sentiu como uma bola de festa de criança que, dançando no ar, encontra uma luz quente o suficiente para estourá-la. Os últimos tempos vinham sendo difíceis. Luiz era a amargura ambulante, sempre pronto para o embate. Faltavam ouvidos e sobrava boca. Talvez ela estivesse sensível demais: já não conseguia ser nem ouvidos, nem boca. As interações entre eles eram sempre desastrosas: invariavelmente saíam estourados ou murchos.”
    Amei as metáforas presentes nele. Fizeram-me refletir.

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