Subversa

AQUI | Ângela Vilma

 

Não sei quem me deixou aqui

onde não há água

nem comida

nem afeto.

 

Pergunto ao mundo:

meu coração sabia de tudo

antes de entrar no navio?

 

Meu coração foi auscultado

e visto do grande telescópio?

Caso tenha sido, quem o conteve

 

de sair fugindo?

 

Quem o amarrou à proa,

como se faziam aos escravos?

 

Alguém à noite ouviu seu canto

desesperado?

Seu banzo, sua febre, sua doença

santificada?

 

Meu coração quis outras plagas,

mas não essas, de água contaminada

e pessoas com branco pálido.

 

Meu coração quer a procissão dos anjos

e braços, levando nos ombros os santos

com seus ares indiferentes de festa.

 

Mas no exílio não há estética,

há ramerrão, e esse mundo, tenho certeza,

é velho e estúpido, sem esperança.

 

Nunca dá, por exemplo,

para sustentar uma prosa em verso

com os transeuntes que param

diante do sinal aberto.

 

Todos não estão preocupados

com as máquinas que nos esperam:

será que elas, um dia mortas,

ainda enforcarão as crianças?

 

Sou muito mais o nonsense

para o meu coração enganado,

levado num navio, às cegas,

 

aprisionado.

 

Aqui não tem nada:

comida,

afeto,

respeito.

 

Me deixem sair.


Ângela Vilma nasceu em Andaraí-BA. Publicou, entre outros, Poemas para Antonio (P55, 2010) e A solidão mais funda (Mondrongo, 2016). Participou de algumas antologias, entre elas, Concerto lírico a quinze vozes – uma coletânea de novos poetas da Bahia (Aboio livre edições, 2004) e  Mulheres poetas e baianas (Caramurê, 2018). Escreve no Facebook e no Instagram.

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. elimacuxi 15 de janeiro de 2021 em 15:54

    “No exílio não há estética”
    Inspirador!
    Que possamos sair, em voos solos ou conjuntos, para o espaço que liberta nossos corações.
    E não haja mais porões <3

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