Subversa

Apenas um Poema no Papel (inspirado em Pierre Bourdieu) | Leonardo Camargo Ferreira


Eu ouvi dizer que hoje era o fim das classes sociais
Do mundo. O fim das divergências económicas.
O fim das desigualdades da cultura. O fim de
De quem é ignorado, porque mais ninguém
Seria ignorado. O fim de uma sociedade com
Dobras de poder e linhas sem habilidade.

Ah, eu ouvi muitas coisas pouco rigorosas…
Ouvia-as de quem nunca soube o que é que o fim
Terminava.

Quem não sabe a diferença não sabe
A igualdade; quem desconhece a falta não conhece
A posse, apesar de a ter. Mas a ignorância,
Se nunca relevada, nunca é tomada, e apenas objetivada
É a sua verdadeira expressão.

Pois, então, que as classes sociais jamais acabarão,
Porque nunca chegaram a começar e nunca saberão
Como terminar. As classes são toda a realidade que
As pessoas conhecem, conhecendo-a mal nas palavras
E bem naquilo que veem todos os dias.

Eu ouvi dizer que hoje era o fim das classes
Do mundo. Não vejo como seria natural quem
Nunca viveu sem dizer como viver sem. Não reconheço
As palavras de quem só palavras reconhece.

Mas, afinal, este é só mais um poema no papel. Um poema
Teórico. Um poema apropriando um real fragmentado
Pela fragmentação poética. Este é só mais um poema no papel,
Mas que de vegetal só tem a fibra da fábrica das diferenças
De onde veio.


LEONARDO CAMARGO FERREIRA | Vila Nova de Gaia, Portugal | Leonardo-Camargo-Ferreira@hotmail.com

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