Subversa

Analfabetismo sentimental | Vagner Silva (Lavras, MG, Brasil)

Ilustração: Marilia Moser

Ilustração: Marilia Moser


Desculpem-me, mas não sei jogar o jogo da sedução. Não sei lidar com a sorte dos dados bailando loucamente sobre a mesa. Nessa onda da conquista, vejo-me sem lugar. Ou melhor, sou surfista amador, em um período em que o salva-vidas está de férias. Por isso, se eu gosto, sem muita firula, eu me entrego e ponto.

            Avisem ao autor que não quero ser o protagonista cujo dizer se torna totalidade, ante a pequenez do agir. Que ele me dê o papel de um coadjuvante ou, até mesmo, de um figurante qualquer. Eu não me importaria, contanto que o meu dizer e agir estivessem em sintonia; sem verdades meias, por favor.

            A lógica do fazer-se ausente querendo um carinho ou do jurar-se presente estando em outro ninho tem dilacerado a nossa ideia de união. Vocês ainda não perceberam? Estamos, todos, padecendo do analfabetismo sentimental. Não conseguimos ler o coração um dos outros. E se atentem que, para essa leitura, não é exigido um grau de instrução específico. Nesse ato, reinam a democracia e a pluralidade, mesmo que alguns doutos, infantilmente, advirtam que não.

            Precisamos enxergar que na escola do amor, fomos, todos, reprovados, alguns com notas mais próximas da média. Por carecermos de sensibilidade, somos frios, somos pedras, somos crus. Conseguimos entender, perfeitamente, a geografia do corpo, mas não queremos ouvir nem um pouco da história. Estabelecemos contatos de forma matemática, e temos até certa consciência do que significa somar. Porém, na redação, escrevemos a palavra amar como se significasse armar, e tramamos artimanhas várias, numa conquista vale tudo.

            Ao contrário do que possa parecer, não prego o culto ao amor puro e inocente, longe disso. Apenas me indigno, como vítima e algoz, ante o amor fantasia, o amor manipulador, o amor lábia – aquele amor que diz ser amor.


VAGNER SILVA é graduando em Direito e bolsista do Programa de Educação Tutorial Institucional (PETI) pela UFLA. Publicou, em 2015, o poema “Mudo (n)o mundo” no livro “15º Concurso de Poesias”, organizado pela CNEC de Capivari/SP. E, no 1º semestre de 2016, os textos poéticos “Costura amorosa” e “Rosa de 12 de Junho” na Revista Subversa e “Desamor” na Revista Philos. | VAGNERSB94@GMAIL.COM

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