Subversa

Amatéria literária | Giovane Adriano dos Santos

“E cada qual lê. E cada qual escreve o sentido.”

 

O Parágrafo das Ausências

 

Anteontem, caminhando pela Rua dos Ipês, Ofélia lembrou-se das discutições que outros dias ecoavam pelas feições entreabertas das portas e janelas do edifício em frente do qual passava. Professora de comunicação, pessoa afeita à retórica e a construções linguageiras diversas, a jovem que olhava pelo retrovisor do tempo, à maneira de quem supõe transitar por ruas de cidade fundada sobre a pedra – por atecnia não se enuncia rocha – da incerteza, regressa do mercado municipal. As vitrinas que sorriam para a rua dizem, caladas, inevitáveis restolhos de verdade: a estas mercadorias ninguém deseja; nota-lhes o preço, o esquecimento, as cores flamejantes e os números insossos. Não pôs o pé à terra da economia; deixou a ciência, para a qual tinha escassa autoridade e nenhuma diplomação, ao esforço de quem a conheceu disciplina, segundo repercutido pelos bancos e pelos bancos. Formada no curso em que se formara, bancos e bancos poderiam ser objetos de pergunta de vestibular, de concurso público, uma vez que a indagação aí pertinente encontrasse raiz nas derivações impróprias.

Parou na biblioteca do bairro central. Sem demora, lembrou-se das duas temporadas que residiu na capital do Estado. Na primeira oportunidade, é certo que voltou às origens hábil a lecionar Francês; depois, vendo crescerem os vários intercâmbios do início do milênio, caminhou ao mestrado sobre mídias digitais. Por hipótese de preparar-se à submissão do que julgava a prova mais difícil que realizaria, pôs-se a estudar; com os olhos fitos no edital, escavou os textos indicados e soube dos textos dados a público. Intuindo, porém, que o que a si indagou sobre bancos e bancos não constituiu fato linguístico somente, releu e releu o material com que outrora disse à banca o “eu sei” – é incorreto supor que o tenha reestudado; tempo raríssimo para isso – e buscou em cada linha uma lição que pudesse, vento forte, romper a névoa posta sobre a diversidade de mensagens, de anúncios, de desinformações, de informações, de formações e de ações com as quais a fatia urbana, se fosse metáfora, confessaria a si nublada e quase chuvosa.

Dois moços que vinham pelo passeio empenhavam-se em entender o pouco movimento citadino. Entraram na instituição. Sentaram-se à mesa mais espaçosa. Muitos dos que lhes ouvissem poderiam sugerir que pusessem freio aos disparates, valendo-se, para o empenho, de informá-los que a regra matemática não se aplica às esferas outras: menos com menos, vários são os exemplos, é menos. Um dos rapazes, com as partes frontais dos óculos à altura do nariz, olhava por cima das lentes e comentava como quem houvesse levado à retina os vidros unifocais da verdade. Nada dizia esse comportamento. Talvez há quem sugerisse que os óculos constituiriam meros enfeites, peças voluptuárias e desapegadas das funções precípuas reservadas aos bons inventos da civilização… O outro, interlocutor de seus trinta anos, assentia com a cabeça e pedia que as questões postas ao pequenininho debate fossem analisadas à exaustão dos ângulos imagináveis; pedia razões históricas, políticas, econômicas, religiosas.

Ofélia mal ouviu o trecho de conversa que lhe poderia interessar de modo significativo. Em certo momento, os óculos penderam para a mesa e caíram. O som do acessório, egresso do toque das lentes no tampo de madeira, foi suficiente a que a análise da forma colocasse borra às letras do conteúdo que lhe chegava aos ouvidos. Postos à face, os cristais davam ao falante um tal ar senhorial inatingível sem a regência de dois maestros filarmônicos: o tempo e o estudo. É o caso em que a imagem sobrepõe-se ao som, sendo pouco importante que agora ecoe dos vãos das prateleiras enfileiradas qualquer coisa sobre os discursos, as ideologias, e o modo mediante o qual uns e outros são articulados. Quem duvida de que sabem a respeito do que ouvem de suas próprias bocas? A convicção de ambos, fosse em outros tempos, talvez desaguasse em texto da Enciclopédia Britânica e, com mais empenho, e sorte, e citações, e boas editoras, não causaria espanto se ganhasse traduções alemãs e resenhas de universitários dos países nórdicos.

Quem sabe, pensou, estão a constituir obra grafada pela coautoria. A velocidade com que expressam conceitos e palavras, que antes significavam muita coisa, dá prova de que não se pode verter ao papel a ordem de ideias que lhes sai da boca ao natural, quase bocejo, muito espontânea e senhora de si. Desguarnecidas dos óculos, as retinas protegem-se ao abrigo das pálpebras que se põem próximas; ao longe, Ofélia quer entender que o olhar conota falta de segurança e, denotativamente, interpreta apenas que a luz vinda do rumo da fronte do prédio que dava para o leste, às oito horas, banhava a face do rapaz cujo ângulo com que se punha à sala de leitura não poderia conduzir a cenas diferentes desta. Reagiria ele ao que ouvia? Ao que estava a ver? O computador repousado entre as falas, em cima da mesa, pode ser útil à transcrição literal de todos os ditos; bem equipada a máquina, a posteridade não verá diferença entre aquelas palavras e a dos grandes autores. A escritura dá conta de ironias, redundâncias, pleonasmos, redundâncias; a escritura, faça-a quem fizer, comporta matéria variada. Os bancos da biblioteca, passados dois terços de hora, estavam todos preenchidos, com exceção de um que descansava perto do corredor principal, com exceção de um abandonado por Ofélia há trinta minutos.

Por algum acaso sem qualquer importância ou brilho, ao descansar os olhos da leitura, Ofélia teria reparado no aviso modesto afixado na parede dois metros distantes de si: “Silêncio! Espaço de estudos!”. Que mal há nisso? Finalmente, pode-se supor que os sons constituíam, como requer a moda, audiobooks. É a sorte dos narradores, propriedade única dos senhores do texto: estes entram pela porta da frente, contam o que tem de contar. Caminham, sem barulho, por sobre o piso; [por isso] a personagem não os ouve. Depois, talvez regressem amanhã, façam reparos, emendem o relato… talvez voltem no próximo mês.


GIOVANE ADRIANO DOS SANTOS é de Morro do Ferro, MG. Publica na Revista Subversa no quinto dia de cada mês.

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