Subversa

afonia | Amanda Lins


ela olha pra mim de lado. meio perdida, meio desconfiada. meio esperando que eu olhe de lado pra ela, também. com olhinhos de criança que brinca de pique-esconde com o pai e quer passar despercebida, mas não muito. fica te vendo por trás da cortina, pela brecha do sofá. já queres me atravessar com os olhos? olho de volta para ela, esperando resposta. às vezes, não sei se abro a boca de verdade ou se conversamos por pensamento, meus neurônios em sinapses com os dela. no fim das contas, isso não importa. de um jeito ou de outro, as palavras vão ao ar, para nossa atmosfera à parte do resto do mundo. agora, o olhar me calcula. não te atravessar, hoje não. só enxergar.

ela me escuta. ela me vê, humana, sal terra suor proteína água oxigênio às vezes lágrimas. mas não me enxerga. não mais.

eu nunca tinha vindo à praia. tu sabia? em voz alta dessa vez. ela diz de forma displicente, mas como uma confissão, quase que envergonhada de dividir aquilo comigo. vergonha. não me lembrava dessa sensação. sou uma desconhecida agora? vergonha implica distância. mas eu não sabia. não sabia, não. gostasse daqui? eu já havia vindo. mas nunca entrei no mar. meia vida na praia, nunca entrei no mar. guardo para mim essa parte, talvez esteja com vergonha também. é bom. traz paz. paz. o assunto entre nós acaba novamente. estranhamento. quão estranho é olhar de fora pra alguém que costumava fazer parte de você? eu costumava senti-la em minhas entranhas. em meu pescoço, em meu estômago. respirando entre uma costela minha e outra. pensando dentro de minha cabeça. até ontem. ou antes de ontem. ou mês passado. é assim. tu sente as pessoas, e depois, um dia, elas não são mais ninguém. é como repetir muitas vezes uma palavra, até que deixe de possuir significado. estranho. estranho. estranho. estranho. um conjunto de letras. nada de especial. mas tu mantém até onde pode, porque afinal, não se corta assim uma palavra do dicionário. é doloroso. como poderei tirar alguém de dentro das minhas costelas?

ponho breezeblocks, do alt-J, pra tocar. alguma coisa precisa preencher nosso silêncio. no fundo, nós duas sabemos o que está acontecendo, mas ninguém ousa dizer palavra. olhamos para outros lugares, protelando o momento das conversas e dos pontos finais. o que se diz no momento dos pontos finais? obrigada, seja feliz, até mais ver. depois busco minha escova de dentes. merda, péssima música. please don’t go, I love you so… a letra preenche os espaços entre nós e em troca, deixa um clima quase que irônico no ar. please break my heart, ohhh… queria ser expectadora dessa cena. eu daria boas risadas, olhando de fora. a vida é irônica.

não sei se já se passaram cinco horas ou cinco minutos. eu quase que me acostumo à atmosfera estranha, como quando a vista se acostuma à luz muito forte ou à escuridão total. penso até poder me acomodar a este momento, como um bebê que encontra amparo em seu cansaço de choro e adormece. posso não mudar nada, posso não gastar energia com nenhuma ação. mas a maré me enche e traz uma corrente de água fria até minha cabeça. estou sendo atingida por consciência. de viver, de existir aqui. sinto nojo. um tapa em minha cara de puro nojo. sinto que posso vomitar aqui, agora, nessa tão limpa areia. nessa tão limpa vida. sinto náusea. quero um espelho para checar se meu rosto não está verde, rosa, azul, cor de bile.

não sinto nojo dela. sinto nojo de mim, de nós, dessa situação, de quem nos tornamos. um segundo atrás, eu poderia beijá-la. agora, com meu estômago pelo avesso, não mais. tenho nojo de minha língua, esse monte de carne, veias, sangue. nojo de minhas glândulas, de minha saliva, de meus dentes. posso arrancá-los todos agora. eu sinto e abomino este meu suor frio, denunciando a todo segundo minha humanidade. não sei se ela me nota. e, sinceramente, ainda não sei se se passaram aqueles cinco anos ou cinco segundos. sempre que tento espiá-la, ela desvia o olhar – foi espiada espionando-me.

funciona de um jeito engraçado, vê. seguem linhas, linhas, movimentos retos, chão, planície, marasmo, vírgulas, pontos. uma decisão que muda tudo. uma encruzilhada. uma pedra. no meio do caminho. um salto. um ponto. tudo muda tudo. não sei que ponto, que vírgula, que decisão. não posso saber.

posso saber que lhe encontrei. desvirada. de cabeça para baixo.

posso saber que tenho uma voz em minha cabeça que não para de me condenar. se minha própria, se sua, meu interlocutor, se dela!?, incógnitas. e, se há diferença, e se há hierarquia entre a palavra condenatória e o ser que condena, e se só um deles importa, deixo à filosofia. explico à voz, à que me persegue, que sem ela eu não seria quem sou hoje, e que ainda assim é preciso deixá-la ir. é isso também a vida, não? o momento de cada encontro e o esbarrão com quem nunca mais vai falar e também quem mora em você por algum tempo e vai embora.

mas de novo sinto a náusea de não poder aguentar a ida com o estoicismo que as heroínas de guerra deveriam ter, a seu tempo. estou no ápice da guerra, no ponto alto, no pico de adrenalina. sinto minhas veias humanas demais em embate com minha criação cristã demais e a herança da culpa, e a tentativa de ser como cristo, na cruz, sem gemer ou lamentar. sinto-me humana e nauseada e viva como nunca antes. às vezes a vida é vinagre em sua boca, mas você não deve praguejar. eu sinto o medo bloqueando meu ser em níveis diferentes e todos absurdos. o medo do mar o medo da solidão o medo do absurdo do medo do absurdo da existência humana. os cristãos cantam nas igrejas, posso ouvi-los, mas cristo já me é alheio, porque não pude seguir o que seus homens ensinaram. eu posso ouvir o mundo inteiro, o mundo inteiro está ao meu lado. os pássaros, os peixes que tão perto e tão distantes, a vida marinha, essa mulher que não sei mais reconhecer à minha frente. o mundo sou só eu e a mulher que me viu virar outra pessoa, também, e o mundo é esse momento. e o mundo me paralisa. estou num impasse. preciso me mover e não posso me mover de forma alguma.

(…)

escuta.

não, espera. não posso ouvir nada agora. preciso entrar na água. quer vir comigo?

não. tá tudo bem.

tá tudo bem. tá mesmo tudo bem. eu me afasto e continuo sentindo o olhar dela em mim, mas que, tão bem, eu de alguma forma sei que não me reprova. não me julga, não se entristece comigo. olha, me escuta. não sei mais quem sou. eu sei que tu me entende, eu sei que teu tá tudo bem me diz mais do que me responder sobre entrar no mar. os créditos já sobem na tela, os espectadores já pegam seus casacos e vão embora, e suas palavras me dizem muito mais do que palavras normalmente dizem. pode ir sozinha, tá tudo bem. percebo que estou estagnada em frente ao mar, as ondas quebrando em meus pés. onde minhas decisões me trouxeram? imagine nadar e morrer na praia. aqui, onde as ondas batem em seus pés. morreu na praia. seria melhor não ter nadado? se entregou, não soube nadar. ou morreu na praia.

escuta, não sei mais quem sou. ser alguém é uma decisão? o peso de todas as decisões nos meus ombros. decidir pelo amor, decidir pela distância, decidir pelo medo. não decidir, uma grandecíssima decisão. não ser alguém – a decisão de não ser. parada em frente ao mar, eu espero que uma onda seja forte a ponto de me arrastar pra dentro – ou me empurrar de volta. a decisão pela espera. não posso mais. mergulho, acompanhada de três chacoalhões em meu estômago e um arrepio na espinha.

sou muitíssimo grata por meu estômago estar já revirado, porque recebo uma enxurrada de água, sal e areia no rosto. não sei se penso em minhas narinas queimando, ou em meus olhos, ou em meus pulmões. ou se penso que a minha grande cena de coragem foi um monte de dor e atordoamento. mas estou aqui. e, da mesma maneira que queimam meus olhos e minhas narinas, queima meu coração e meu cérebro, e de uma só água, e da mesma indagação, quem me tornei? impasse na areia e no mar. estou na areia e preciso do mar. estou no mar e preciso reaprender sobre o funcionamento de meus pulmões. mais uma onda, dessa vez sei virar as costas, mas a onda traz o desconhecido: hoje, a dor. existir. meu corpo inteiro sente o choque, a queimação, em um nível insuportável. quase caio. e vejo a água-viva se afastar. sua defesa, injetada em mim. suas toxinas. de súbito, como que por outro choque, perco o nojo de mim. eu agora também posso ser essa toxina que me queima, até que meu corpo seja capaz de expeli-la, sozinho. e não grito. meus olhos estão cheios de lágrimas, meu corpo está fraco, mas não grito. comanda meus sentidos essa inquietação para ser humana até o fim, num gesto quase de expiação de meus pecados. a voz em mim não mais condena.

volto para a areia. absorta em sua própria versão desse momento que vivemos tão juntas como nenhum outro e tão separadas como nunca antes, ela não pausou a música, de maneira que toca outra de alt-J, do mesmo álbum. breath in, exhale…flood of blood to the heart…

uma água viva me queimou. tu sabe o que fazer de você? olha, não sei mais quem sou. mas eu fui queimada porque precisei entrar. eu nunca havia entrado no mar, sabe. eu decidi hoje, eu me expus à água viva e a toda a vida marinha e agora minhas costas queimam e o sal gruda em minha pele mas nunca me senti tão limpa. eu sou humana, Clara. eu sou humana, não sei o que fazer de mim, mas eu me expus, pela primeira vez, e não parece ser um caminho em que se olha pra trás. tu me entendes? a vida trouxe um impasse, eu sei que tu entendes, tu soube antes que eu soubesse. tu leu tudo antes de mim, tu esperou que meus neurônios se alinhassem com meu coração. tu me deixou descobrir sozinha eu mesma por mim, sem se magoar, sem que a gente se magoasse mutuamente. parece óbvio, agora. pra saber quem somos é preciso deixar quem nós éramos. tu sabe quem tu é?

(…)

os olhos dela, agora, eles sim tem o estoicismo de jesus na cruz. cristo ressuscitou para expiar nossos pecados. e todos nós ressuscitamos, dia após dia, por viver. e todos nós carregamos nossas cruzes, porque pecamos de novo, porque somos humanas. porque ninguém pode carregar outra vida nas costas. sabe, a gente cresceu e mudou junta. a gente viveu e amou a vida. amamos o amor, amamos as dores, aprendemos com as dores, amamos uma a outra. e agora, nosso amor representa isso. e, talvez, o maior gesto de amor que ainda possamos dar uma a outra seja saber se distanciar, da forma mais delicada possível, para permitir que se viva e se descubra novas vidas sozinha. ela me virou os olhos de novo, vi uma lágrima nascer e os ouvi pela última vez. tudo foi dito, no não-dizer desse dia inteiro. adeus, meu bem.


Amanda Lins | Juazeiro, Brasil | lins.amanda@hotmail.com

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