Subversa

A vida dentro de uma vida | Alexandra Lopes da Cunha (Porto Alegre, RS, Brasil)

Ilustração: tela de Jaime Ferreira


Acontece aos domingos, quando já despertou e tornou a adormecer algumas vezes, quando já deixou os olhos vagarem, quer por entre páginas coloridas da edição de domingo do jornal espalhado pela cama, quer pelo quarto em desordem, de desejar outra vida, mais regrada, mais metódica, mais certinha. Compreende: são manifestações ocasionais de uma condição muito comum: genus traditium acutus, vulgarmente conhecida como “síndrome da família feliz”, mas que só se a acomete nestes dias de preguiça: domingos e feriados.

Começa por um desejo de ordem e progride para o anseio de uma rotina a definir seus movimentos, a guiar a extensão de suas horas: a semana a começar não às segundas-feiras, mas aos domingos, todo um cronograma definido, objetivos em mente. Neste dia em especial, a reunião familiar. A sua meta: a preparação do almoço e a recepção dos convidados, tudo previamente organizados com as compras feitas à véspera, os produtos escolhidos conforme a estação do ano. O produto final, o almoço, composto de assado, legumes, acompanhados de vinhos e finalizados com as sobremesas, cafés e licores.

Dando seguimento aos sintomas, seguem devaneios sobre o domingo da família feliz: acordaria sem cogitar mais uns minutos à cama, ela, que costuma abandonar-se ao ócio durante todo esse dia, levantaria sem titubear e, uma vez vestida, seguiria para a cozinha para iniciar os preparativos.

Escutaria alguma música, beberia um café de pé, diante das carnes, dos legumes, conferiria o horário no relógio e se colocaria em ação diante das facas e caçarolas, com a destreza daquelas mulheres dos programas de culinária, nos quais nada parece difícil e tudo dá sempre certo e fica com um aspecto divino. Pois comandaria o seu exército de panelas com graça e elegância para depois ir despertar seu marido, este, que, por vezes, pensa em ter, para dividir a cama e as angústias antes de adormecer, e o casal de filhos com os quais sonha eventualmente: a menina de cachos e covinha no queixo, o menino com olhos marotos a brandir uma espada de madeira e dizer-se Peter Pan, todas estas alucinações, sintomas também.

Tomariam café na balbúrdia alegre e despreocupada dos finais de semana, com direito a panquecas e melado, o sol brilhando e todos vestindo roupas imaculadas de tão brancas. Seu devaneio é uma mistura de todos os comerciais de cereais e café instantâneo que assistiu durante a vida, mas não se importa, continua a vislumbrar a família imaginária. Depois da refeição deliciosa, tudo se arrumaria rapidamente, pois todos colaboram.  São, afinal, uma família, mesmo que imaginária, talvez por isso mesmo, e sairiam depois para um passeio pelo parque, ou para uma volta em bicicletas. As crianças correriam carregando às mãos balões coloridos ou cata-ventos (também coloridos), enquanto ela e o marido conversariam sobre a vida, fariam planos para as férias, para o futuro dos filhos, andando de braços dados, sempre confiantes. O marido não seria um homem necessariamente bonito, maduro sim, alguns fios prateados a adornar o cabelo e a barba? Teria barba? Não consegue se decidir, mas acha que não.

Também não o imagina calvo, prefere uma basta cabeleira grisalha e rugas, sim, junto aos olhos, como as dela.  Um casal bonito, com filhos bonitos, envelhecendo com leveza a sabedoria.

Amaria este homem, apesar do entusiasmo exagerado dele por esportes (não consegue decidir-se por quais, pensa em polo aquático, mas acha muito improvável) e seu otimismo inveterado (precisa acreditar que ele acreditaria nesta família imaginária e que faria tudo para que fossem todos felizes).

Por ele, aprenderia a cozinhar a ponto de se tornar admirada por toda a família – sua sogra se tornaria sua fiel escudeira e admiradora maior -, e os almoços dominicais transcorreriam entre elogios à sua comida, aos arranjos da mesa que, durante os meses quentes, seria posta no terraço amplo da casa de campo que teriam em um lugar que se assemelha muito à ideia que faz da Toscana.

E música: um de seus novos parentes tocaria violão, outro, gaita, e todos cantariam e dançariam, terminando o domingo ante a visão do por do sol. Antes de se irem os convidados, todos ajudariam a arrumar a profusão de pratos e copos, e ela e o marido cuidariam das crianças exaustas pelo dia agitado. Seria dele a obrigação de colocá-los no banho e ela se deleitaria em vê-los a rir e a brincar na banheira repleta de espuma. Quando estivessem enfim dormindo como dois querubins, ela e o marido dividiriam um bule de chá e terminariam o domingo fazendo amor. Ele seria muito doce e atencioso. Um sexo doce, sem muitos sobressaltos, mas tudo o mais faria com que valesse a pena a vida juntos, e dormiriam abraçados, sem preocupações com o dia seguinte, certos que teriam diante deles uma sucessão de dias felizes, em que haveria trabalho, evidentemente, mas também amor, sem contar o otimismo exagerado dele, além daquele amorzinho doce de todos os domingos.

Como sabe do que se trata, e que não há grandes efeitos colaterais, deixa-se pensar nesta família imaginária durante longos períodos em que, deitada na cama, em especial aos domingos, depois de uma noite em que se divertiu, fez bom sexo, ou não fez, mas jantou bem e saiu para dançar com as amigas, ou com algum paquera, e sorri para si mesma, enroscada nas cobertas. Há situações em que sente tesão ao imaginar alguma cena de sexo mais apimentada entre ela e o marido imaginário. O remédio mais eficaz é masturbar-se até o gozo e, depois, um banho frio, que ativa a circulação e abre o apetite.

Após a higiene matinal, tranquilizada até o próximo surto, arruma-se para sair e comer fora, pois não tem em casa mais que iogurte e cereal, alguma fruta e água, além da comida do gato.


ALEXANDRA LOPES DA CUNHA  tem 3 livros publicados: Amor e outros desastres (2013) e Vermelho-Goiaba (2014), ambos de contos. O último foi ganhador do concurso IEL 60 anos na categoria autor estreante, além de Bífida e outros poemas (2016). Doutoranda em Escrita Criativa pela PUC-RS. Mora em Porto Alegre, Brasil. | ALEXCUNHAM@GMAIL.COM.

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