Subversa

A última cena de um romance | Eber S. Chaves


As cortinas se abriram.

No palco os tons preto e cinza predominavam.

Mesa de vidro, tapete estampado, um abajur em Art Nouveau, luzes em luminárias pendentes, moldura clara em parede escura, um sofá suficientemente grande para caber duas pessoas: era este o cenário em que transcorreu a última cena.

O ator circulava através do cenário.

Diante dele, uma personagem melancólica nos detalhes, apoiada numa dramaturgia onde nada faltou ou sobrou.

Ela estava ali. Ela continuaria ali. Pés no chão, descalços. Olhos brilhantes e mãos que lhe puxavam.

— Adeus! — disse o ator.

— Ah! Queres que me lance a teus pés — disse a atriz. E lá foi, e chorou.

E caída falou desde o chão, mas suas palavras saíram abafadas pelo choro, e a sua voz subiu do chão como sussurro de um fantasma na tumba.

O ator nada disse, nada pediu.

Extrema reflexão. Silêncio do ventre.

A angústia erguia-se como dique em oposição às doces lembranças.

Na face do ator uma expressão quase inexprimível, às vezes triste, às vezes neutra, às vezes comum, às vezes apagada.

No olhar suplicante da atriz, além das aparências e envoltórios, via-se a alma.

— Como aconteceu isso? — perguntou alguém na plateia.

— É impossível de se saber toda a verdade. Fala-se de amor. Isso é o que vem sendo dito há séculos. — respondeu outro.

— Esta cena é uma perfeita imitação da realidade! — exclamou um terceiro.

Aqueles que ouviram tal afirmação acenaram com a cabeça em sinal de concordância. Ainda assim, na plateia, pairavam pensamentos medievais tão saturados de histórias de amor.

 

Era um fim de tarde, fim de tudo.

— Adeus! — tornou a dizer o ator.

Virou-se, caminhou em direção à porta. Em seus pensamentos pareciam fluir, naturalmente, lembranças e frases complicadas de longas canções.

O amor afundava-se para sempre, e morria lentamente.

Ele olhou para trás, em direção à atriz, e seus olhos se encontraram pela última vez.

— Amanhã me renovo e também vou seguir em frente! — ela falou eloquentemente, e depois se calou, baixando a cabeça para que ninguém contemplasse sua tristeza.

Era a última cena de um romance, da qual não se podia dizer que fosse infernal, porque era o próprio Inferno.

Sentado na terceira fila, e mergulhado no ambiente onírico-teatral de azuis esverdeados, entendi, enfim, que o papel principal não cabia a quem entregou sua vida para salvar um amor, e sim a quem deveria padecer para condenar aquele que carrega consigo a culpa por ter deixado de amar.

O ator abriu a porta. Passos titubeantes. Desceu as escadas em direção a um abismo, degrau por degrau, até desaparecer de cena.

 

Era um fim de tarde, fim de tudo, como já foi dito.

Além da noite que estava por vir, novos alvoreceres surgiriam.

Por que então deveria existir alguma culpa ao invés do esquecimento?

Silêncio, silêncio, silêncio.

Fecharam-se as cortinas.

Aplausos!


Eber S. Chaves |  Vitória da Conquista, Brasil | eber.chaves79@gmail.com

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