Subversa

A penteadeira | Glauber Costa


Um som abafado, de algo batendo de encontro ao chão, deixou subitamente as orelhas do gato em alerta. Marta, varrendo a casa, enquanto passava pela janela, deu uma espiada para fora.

Juca tirou os olhos da TV, sem nada dizer. Mas como Marta continuava varrendo e olhando para fora, e vozes e outros barulhos prosseguiam, ele levantou-se para abrir a porta da frente e conferir o que havia.

Surpreso, deparou-se com um aglomerado de gente fazendo volume na casa da esquina. Coisa que não dava para imaginar de dentro de casa. Aquele formigueiro, entre silencioso e barulhento, lhe aparecia de súbito, como uma realidade que vai ganhando som depois de um torpor de sono. Mas que já estava lá, pronta.

A movimentação se concentrava onde morava uma senhora sempre reservada, vista apenas quando deixava a janela aberta, e ele estava passando.
Um caixão era retirado pela porta, e ela morava só.

Seu Antonio, dirigindo-se para lá, chamou o casal para participar do que acontecia. Os vizinhos estavam pegando objetos da casa, obedecendo a um bilhete que a moradora havia deixado junto à cama onde dera seu derradeiro suspiro.

Curioso e atônito, Juca vestiu uma camisa e acompanhou a esposa, que já se dirigia para a rua.

Aproximando-se, Juca foi observando que, enquanto analisavam a mobília, as pessoas lamentavam vagamente não ter convivido mais de perto com uma senhora tão benevolente. Mas, lá dentro, em tom cortante, o senhor Bezerra já bravejava, para quem quisesse ouvir, que talvez ela não tivesse com quem deixar tudo aquilo; e que, além disso, alguém solitário não poderia ser digno de muita confiança. No que a dona Gestrudes retrucou para calar o homem, “mas ela poderia não ter escrito nada, e escreveu”.

E assim as pessoas discutiam, especulavam e saíam levando um objeto ou outro; ou nenhum.

Juca, que ouvia tudo em silêncio, viu que Marta olhava para a penteadeira do quarto onde a senhora havia falecido. E sem mais demora, foi o que escolheram. Juca estava muito pensativo para avaliar outras opções.

Apenas, no dia seguinte, no café da manhã, ele externou algum pensamento para Marta. Que ninguém sabe nada da vida daquela mulher. Que morrer assim desconhecida e tão próxima de todos deveria ser um fenômeno corriqueiro nos dias de hoje. Mas que não sabia se, naquele caso, isso seria lamentável ou proposital.

Marta achava perguntas sem resposta divertidas. Boas para pensar. Mas Juca não parecia tão relaxado.

Depois de criar mais e mais perguntas para si durante o dia, mais tarde, no quarto, ao apagar a luz para dormir, ele viu uma silhueta passar pelo espelho. Acendeu rapidamente a lâmpada, e não havia nada. Foi deitar para dormir, e o seu reflexo no espelho, indo também, o incomodou. Mas não olhou. Dormiu.

Quando acordou, com Marta já fora do quarto, Juca viu, mesmo após esfregar os olhos, dentro do espelho da penteadeira, uma senhora tricotando. Ele levantou assombrado e tocou o vidro espelhado. Mas a senhora não o notava.
Marta entrou no quarto e elogiou o marido, ao pensar que o seu olhar para o espelho era uma inédita e charmosa vaidade dele. Mas Juca, ao invés de corresponder ao carinho, se espantou por ela não estar vendo o que acontecia bem à sua frente, dentro daquele espelho. Olhou para uma e para outra, e não conseguiu dizer nada.

Os dias se passaram e Juca passou a acompanhar, com sustos e muita cautela, a rotina da senhora da esquina, de quem ele nem sabia o nome, agora dentro do seu quarto. Quando quis saber o nome por Marta, ela comentou que pensava que ele já tivesse esquecido aquela história de perguntas sem respostas. Logo ele desconversou.

Passou a observar a vida secreta atrás do espelho, apenas quando a esposa não estava presente.

Observou-a cuidando de jarros, lendo livros empoeirados, tomando sopa, olhando para o nada, cochilando, falando sozinha pela casa. Porém nunca a espiava com tranquilidade. Achava que a qualquer momento ela poderia notar o peso dos seus olhos.

À medida que os dias se passavam, ele já começava aprender de cor a rotina da pacata hóspede, e sem notar, começava também a adivinhar dedutivamente o que faltava para entender aquela senhora. Começou a pensar nos filhos, amores, aventuras, saudades, nos possíveis netos que a idade lhe permitia pensar, e nos motivos prováveis da solidão no final da vida. Às vezes, passava horas em frente ao espelho daquela penteadeira.

Seu novo exercício diário, e prazeroso, começava a absorvê-lo completamente. Tanto que acabou se tornando perceptível no seu comportamento. E só percebeu que estava ficando explícito o que fazia, quando Marta acabou por confessar que já havia percebido sua fixação pelo móvel há alguns dias; que, às vezes, ela entrava e saía do quarto e ele nem via, que tinha os olhos absolutamente tomados pelo espelho.

Como os seus avisos não adiantavam, Marta só voltou a lhe alertar mais veementemente para aquela obsessão quando aconteceu dele faltar ao trabalho sem nem perceber. Ela, inclusive, disse, na ocasião, que era melhor se desfazer daquele objeto, que tão misteriosamente roubava o seu tempo.

Juca se desesperou pela ameaça. Não poderia abandonar assim a vida daquela senhora à toa por aí. Ela já estava tão segura em seu quarto… E contou o que via todos os dias através do espelho. Marta, com olhar filosófico, acrescentou que talvez ela quisesse discrição, e ele estivesse sendo bisbilhoteiro. Juca retrucou que o deixasse ao menos entender o que se passava ali em seu quarto. “Mas essas coisas são assim, Juca, não têm fim”, disse Marta, “se deixar, te rouba a vida toda”. E piscou lúdica para o marido, já o conhecia muito bem.

No outro dia, Juca acordou sem a penteadeira no quarto. Quase teve um surto desesperador. Mas logo se conteve, respirando fundo. E, com a cabeça, fez um gesto afirmativo de que a esposa tinha razão.

Sentado na cama, tentou lembrar a história que estava descobrindo sobre a senhora, mas muitos detalhes iam lhe fugindo. E o que seria de uma história sem os detalhes?

Decidiu que era melhor esquecer tudo. E um aperto no peito lhe acometeu no momento dessa sua decisão. Parecia que isso o fazia abandonar mais do que uma penteadeira. Talvez mais do que uma senhora. Parecia que tudo estava agora abandonado no mundo.

Ele, então, levantou bruscamente para afastar aqueles pensamentos, e quando abriu a porta do quarto, sentiu, às suas costas, os sons de uma respiração, de panelas, de passos arrastados, do folhear de um livro, de uma voz rouca, e até de risos de crianças, tudo misturado atrás de si, em seu quarto vazio, ainda com a marca retangular, na parede, que havia sido deixada pela penteadeira.


Glauber Costa | Ubatã, Brasil | glauber.costa@hotmail.com

 

 

Sobre o Autor

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios estão sinalizados *

Entre em Contato

contato.subversa@gmail.com
Brasil: (+21) 98116 9177
Portugal: (+351) 91861 8367