Subversa

A lacrimosa | Leandro Costa


Do aquário dourado de bolhas, que iam desaparecendo com o calor, divagou por uma quantidade de minutos que não se preocupou em calcular.

Naqueles dias, pensou em diversas formas de afogamento. Queria morrer como um aborto em alguma placenta da Terra. Todavia, para satisfazer este desejo, precisaria caber no reservatório como um homúnculo.

Homúnculo?! Já o era desde o primeiro minuto em que não tivera coragem de deixar que os primeiros goles de cerveja lhe invadissem com violência a garganta, como os machos fazem.

De que lhe serviria o falso moralismo da indecisão? Já havia morrido e ressuscitado uma dezena de vezes com o mesmo sentimento de mar revolto.

Os homens sorriam e meneavam as cabeças diante da situação hilária de um sujeito com o olhar perdido no espelho d’água do primeiro copo. Alguns lhe deram tapas nas costas e conselhos consternados que não ouviu.

Invisível aos olhos de todos, a mulher sentada na cadeira vazia à sua frente, fitava-lhe com frios olhos de nunca mais. Aquela postura desconhecida lhe deixou numa angústia paralisante. Não conhecia aquela faceta. Quem estava sentada ali?

Preferia quando carpia, com grandes e doces olhos marejados, perturbando-lhe a razão e a memória com os cálculos insolvíveis do “se” e os ângulos que a displicência não viu.

O cantar do Gonçalves, antes longínquo, foi ganhando nitidez e agradável volume até chegar à sua inteligência: “Se ela me deixou a dor, é minha só, não é de mais ninguém…”.

Ele julgava não poder viver sem ela. O mestre boêmio lhe fez perceber que, em verdade, em verdade, ele a dominava e oprimia com sua desnecessária dependência. Não queria finar-se no mar dos esquecidos. Seria um ato de coragem desistir.

Erguendo os olhos do copo, fitou-a, beijou-lhe as mãos e acompanhou-lhe até a porta. Na cadência bonita do rebolado de suas cadeiras, sem olhar para trás, ela desceu a ladeira até sumir na névoa que vinha do mar.

Vestiu o paletó branco, pôs o chapéu-panamá e subiu a ladeira a convite do sol que sorria no topo. Nunca mais escravizou dor alguma. Aves de arribação existem para ir e vir.


Leandro Costa | Santana do Acaraú, Brasil | costafranciscoleandro@gmail.com

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2 Comentários

  1. Glauber 15 de junho de 2020 em 19:55

    Belo texto! Poderoso.

    • Leandro Costa 16 de junho de 2020 em 00:05

      Obrigado Glauber.

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