Subversa

“A gente rouba porque precisa escrever” | entrevista com Bomqueiroz (Ladrão de Chapéus)

Recentemente tivemos a oportunidade de conversar com o nosso colunista Bomqueiroz, conhecido na Subversa como o Ladrão de Chapéus. Publica poesia e prosa poética de 15 em 15 dias. Nasceu em Uruguaiana e vive em Porto Alegre, onde se formou em Letras. Bomqueiroz se prepara para publicar seu primeiro livro.


O autor em sua casa, em Porto Alegre.

 

Qual sua pretensão?

A minha pretensão é conseguir arranjar um emprego, primeiro. A minha primeira pretensão é conseguir me sustentar. Trabalhar, obviamente.

A literatura vem antes disso?

Bom, a literatura está aí na realidade. Eu não escolho, ela é um fato. Mas ela não me mantém, quer dizer, é difícil viver de literatura, mas tu podes viver para a literatura.

Qual a diferença?

Viver de literatura é quando o teu trabalho literário te dá algum sustento. Tu vives de escrever livros, as pessoas te pagam para isso, tu consegues pagar teu aluguel, tua conta de água e de luz com a atividade de escrever livros, ou de escrever histórias ou de escrever poemas.  Agora, quando tu vives para a literatura, talvez a ideia é de que tu não dependas dela para viver, mas tu vives em função dela ou vive para ela também.

Não tem como abandoná-la…

Exatamente.

Isso, na tua opinião, é uma escolha?

Eu acho que se impõe, é uma imposição, na verdade. Uma imposição da vida e da existência. Tem uma frase muito boa do Proust, que diz “A única vida possível é a literatura” e outra do Pirandello também, que diz “A vida, ou é vivida ou é escrita”. Esses caras eram tão compulsórios na escrita que eles viviam para escrever. Então a vida deles era escrever de fato. Então na realidade eles não tinham vida, a vida deles era escrita. O Proust passou 300 anos escrevendo aquele romance “Em busca do tempo perdido”…

 Ah, mas então o escritor que vive para escrever está como suspenso da vida?

Sim…. Sim [rs].

[Não sou eu que estou dizendo, são frases de escritores famosos que escreveram livros importantes].

Mas na época deles era tudo bem diferente…

Era, era tudo mais difícil, me parece, também.

Por quê?

Porque muitas vezes se escrevia só a mão, ou só numa máquina, ou para publicar devia ser mais difícil do que agora, por exemplo. Por isso que tu olhas para o passado e vê só grandes escritores, porque só esses grandes escritores publicavam! [rs]. Os pequenos não publicavam, os insignificantes, digamos, esses ninguém ia publicar.

E eles não tinham Facebook.

É, eles não tinham amigos para curtir as coisas.

Mas voltando à vida escrita e a vida vivida, a vida escrita também é vivida, você não acha?

Sim.

Senão ninguém ia querer fazer isso…

Mas as pessoas fazem por que, será? Fazem por fama ou fazem por compulsão? Elas podem fazer por fama, por serem reconhecidas e aparecerem, por exemplo, em jornais e revistas. Ou elas podem simplesmente fazer porque elas acham que tem alguma coisa para comunicar ao mundo.

É bem diferente.

Eu digo: Eu escrevo para não passar uma vida em branco. Porque se eu não casar, se eu não tiver filhos, o que eu vou deixar na vida? Eu passei a vida a passeio, flanando?

Tem que começar a publicar, então.

Outra coisa que também não é prioridade para mim. Hoje eu prefiro escrever um poema, simplesmente escrever o poema e, como existe a internet, mostrar o poema. Eu conversei com um cara, que disse: “tu tens que publicar um livro, vais estar num outro nível, num outro patamar”, e tal. Eu acho que enquanto artista, digamos.

Um outro nível interno?

Não sei, talvez o reconhecimento. As pessoas vão saber que eu tenho um livro. O livro pode ser ruim, eu posso ser um escritor ruim, essa é a questão, mas aí que tá, eu já não sou o guri do blog, da internet.

Mas tem um certo charme nisso, de não publicar nunca.

É, tem… Não publicar nunca, mas ser lido, né.

Para terminar: por que “Ladrão de Chapéus”?

Na verdade, o Ladrão de Chapéus nasceu da ideia de um romance que ainda está em processamento. Não vou explicar muito porque vai perder a graça, mas o Ladrão de Chapéus dá a ideia de que o escritor é também uma pessoa que vive roubando chapéus. Aqui o chapéu é uma metáfora para ideias, aquilo que as pessoas carregam em suas cabeças. E também o que as pessoas são capazes de roubar ou de tirar do que um escritor tem para dizer, então na verdade é uma amálgama, as coisas se confundem. É isso. Ladrão de Chapéus porque, na verdade, eu estou disposto a roubar as ideias. As pessoas tem as ideias roubadas e nem sabem. Quer dizer, a gente não rouba de propósito, a gente rouba porque precisa escrever, e aquilo que a gente escreve, em alguma cabeça foi pensada.

Mas é um roubo que não é fiel. O chapéu é rearranjado, costurado, customizado…

É um roubo que só é consciente muito depois, é sempre um roubo inconsciente.

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