Subversa

A Fraqueza do Amor | José Vieira (Santa Cruz, Portugal)

₢Luciana Belinazo

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Chove lá fora.

Estou junto à janela a beber o habitual chá de camomila e penso. Penso em tudo o que passou e o que levou a que estivesse assim… Sozinha e com uma gata! Refugiei-me nesta minúscula casa, longe da cidade, nesta vila onde ninguém me conhece.

Da casa vislumbro a vasta planície com a enorme plantação de vinha. Esta casa, que escolhi para libertar o meu coração das amarras que o prendem, pertencia a um velho solitário que aqui nasceu e aqui morreu. Nunca saiu daqui, nunca teve mulher e nunca deixou de viver. Os locais dizem que já teria mais de cem anos quando faleceu. Costumava todos os dias visitar a plantação de vinha. Era o seu trabalho. Há décadas que laborava para a família proprietária da vasta Quinta dos Cardais. Um dia o seu cão desapareceu. O velho, possivelmente, andou à procura, sem sucesso. Provavelmente não aguentou o desgosto e faleceu. Dizem que o cão era o seu único amigo.

Por vezes, quando deambulo pela casa fico a pensar como seria a vida desse homem. Sozinho a viver com um cão, nesta pequena habitação com um belo jardim de hortênsias e o horizonte a perder de vista.

Não tinha ninguém. Quando morreu ninguém na vizinhança se apercebeu da sua ausência. Cada um encontrava-se vidrado no seu mundo e o velho não permitia que ninguém se aproximasse de si. Só quando deixaram de ver o cão, a deambular pelos campos, é que acorreram até esta casa e encontraram-no morto. Pelo que as mulheres contaram, quando cá cheguei, o velho encontrava-se numa cadeira junto a janela a olhar para o extenso planalto. Encontrava-se, muito provavelmente, onde estou agora a beber o chá e a olhar o horizonte.

Hoje, o céu cinzento adivinha intensa precipitação. Consigo ouvir o rugir do vento batendo contras as árvores. A gata enroscasse na manta, que tenho sobre as pernas. Adormece, enquanto continuo a olhar lá para fora. Nada a apoquenta. A sua respiração torna-se mais lenta e profunda. A gata dorme e eu continuo a olhar para o horizonte. Um relâmpago irrompe nos céus e um grande clarão alastra pela janela, iluminando todos os cantos e recantos. A gata continua a dormir. Está serena. Algo que me causa um pouco de cobiça. Como eu desejava que a minha vida fosse assim… Uma leve brisa de Primavera que apazigua.

Penso no velho. Estava sozinho como eu. Medito sobre a sua vida e como rumou a esse estado de solidão. Não encontro respostas às minhas inquietações.

No outro dia num antigo baú, que se encontra junto à lareira, encontrei várias cartas. Eram cartas de amor. Cartas escritas, pelo velho, para uma mulher. A escrita era elegante. Denotava-se sentimentos puros e verdadeiros. O inquietante é que pareciam escritas para alguém que nunca as recebera. Entre as cartas, um retrato, a preto e branco, de uma jovem. Era bela! Devo dizer que nunca vira mulher com tamanha beleza, como aquela. No verso podia ler “não deixes de amar apesar do que aconteceu”.

Lá fora começa a chover. A gata acordou, espreguiçou-se e foi a correr para debaixo das almofadas no sofá. Arrefece! Coloco na lareira lenha a arder. Aos poucos o cheiro e o som da combustão começam a notar-se. A sala aquece. O dia será assim, chuvoso e ventoso. Não admira é fim de Outono.

Quando cheguei a esta casa era Primavera. A pequena moradia estava à venda por uma ninharia. O velho não tinha família. Mas mesmo que tivesse descendência, estes não ficariam com a habitação já que pertencia aos senhores da quinta.

Continua a chover!

A frase que li no verso do retrato ainda ecoa na minha mente. Inquieto-me! Penso no que terá sucedido para que aquela bela mulher tivesse escrito aquelas palavras.

Fantasio com a sua história!

Estariam enamorados um pelo outro. Seriam jovens e com inúmeros sonhos para a vida. Sonhos a dois! Amavam-se às escondidas dos olhares reprovadores dos progenitores e da vizinhança, que não estavam habituados a demonstrações de carinho. Um amor proibido, possivelmente. Imagino um casal que fugia a qualquer norma imposta. Uns rebeldes, para aquelas gentes, contudo verdadeiros à sua essência.

No entanto interrogo-me o que terá sucedido para que a jovem deixasse aquela mensagem no verso da fotografia. O que terá corrido mal e que não permitiu que aquele amor vingasse? O amor deveria ser suficiente. Devia bastar para suportar qualquer infortúnio, que surgisse no caminho daqueles que amam.

Sentada junto à janela, vislumbro a vasta planície e imagino os dois jovens a correr por estes terrenos sem fim. Ouço palavras e risos trazidos pelo vento. Escuto murmúrios apaixonados e promessas de amor eterno. E de repente o silêncio. O vento levou tudo consigo. Deixo de ver os jovens e apenas terra árida e seca, com fracas videiras a tentar, a todo o custo, dar fruto. Não há qualquer sinal de amor. A terra parece infértil num longo processo de aridez. Não há sinal dos jovens. Já não estão juntos.

Um dia ela chega a casa e descobre que irá partir para a cidade. Vai para longe porque os pais não querem aquele romance. Ele é demasiado pobre para ela. Não lhe dão alternativas, ou parte para junto da tia ou será deserdada e esquecida. O amor deveria ser forte e ela permaneceria ao lado do seu amado, independentemente das dificuldades. Ela sempre fora mais racionalista que ele e por isso sabe que não aguentará viver assim. Com o passar do tempo sabe que o enamoramento cessará perante as vicissitudes da vida. Ela sente e sabe que não será capaz de manter a chama acesa quando não tiver comida na mesa, roupa para se cobrir ou contas para pagar… Porque estarão reduzidos à pobreza.

Ela escolhe partir mesmo amando. O coração vai despedaçado! Nem se despede. Pede ao irmão que entregue a carta com a fotografia deles. Não tem coragem. Faltam as forças. Sabe que se o ver não conseguirá ausentar-se e o futuro não será nada agradável, para ambos. O amor é forte mas as desventuras irão miná-lo e estragar algo belo e puro. Ela parte para poderem ser felizes. Ele fica. Recebe a carta e a fotografia. A foto guarda no fundo do baú. E a carta? Recusou ler e queimou? Imagino a luta interior daquele homem. Anseia por respostas às suas inquietações. Porquê terá ela partido? Amava como dizia? Onde ficou o amor? Quando começou o fim? O que aconteceu com eles? Sente o coração bater a um outro ritmo, mais acelerado. As mãos começam a tremer. Calafrios percorrem o seu corpo. E um suor frio teima em descer-lhe pela testa. É nervosismo, é tristeza é fúria! Rasga o envelope, abre a carta e lê. As últimas palavras da amada! Não acredita. Não quer acreditar. Voltar a ler e a reler. Não encontra sentido naquela justificação. Aquele acto irracional não é coerente para ele. É decepção, raiva e incredulidade. Todo o corpo vibra. Vários sentimentos e pensamentos assolam ao seu ser. Por instantes não sabe quem é e onde está. Por momentos perde a sua identidade. Passado e presente deixam de existir. Naquele pequeno ápice a sua dor desaparece, porque ela não existe, ele não existe e eles nunca se encontraram. Contudo o sofrimento regressa de rompante e começa a atormentá-lo. No início uma pequena dor que magoa apenas quando se recorda, por fim uma dor intensa a toda a hora. Não sai do pensamento. Sente que perde a sanidade. A pequena sala vislumbra o que parece um furação. Em segundos está destruída e ele ofegante. Sentado no chão olha para as mãos, que um dia acariciaram a amada, e vislumbra sangue. Chora! As lágrimas percorrem a sua face. Está só… Inevitavelmente só! Ela abandonou-o em prol de uma vida desafogada. O amor não bastou!

Imagino que nem ele nem ela tiveram outros amores. Permaneceram fiéis, longe do olhar de cada um. Não foram felizes. Não era para serem!

Anoitece e lá fora os últimos raios de sol despontam no horizonte. Imagino o velho nesta casa, sozinho, apenas com a companhia do seu cão. Sinto a sua tristeza e a sua solidão, dia após dia. A sua dor esta presente nestas quadro paredes… A dor de um coração partido. A dor de um amor que fora fraco.


José Vieira é o pseudónimo de Teresa Vieira Lobo. Jovem nascida na década de 80 numa pequena localidade chamada Gaula, terra de amoras, padres e doutores. Em 2014 estreou-se no mundo da escrita com o livro “Estranhas Coincidências”.

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