Subversa

A Face Oculta | Adriana Campos Virtuoso (Brasília, DF, Brasil)

Ilustração: A. Mimura


A primeira lembrança que me despontou na memória, quando acordei naquela manhã, foi o seu sorriso. Não me lembro de ter pensando nele antes, não daquela forma. E, nos meus sonhos de garoto de um subúrbio escuro, era como se a própria felicidade me estivesse sorrindo, iluminando minha existência. Tudo em que pudera pensar fora no quanto queria vê-la mais uma vez.

A primeira vez que vi alguém realmente morto, ou melhor, que não vi – um lençol encardido  escondera de meus olhos a face da morte –  foi aos nove anos. A imaginação descontrolada e perversa descobria a cada anoitecer uma figura mais horripilante do que a anterior. E por um longo tempo essa lembrança me perseguiu os sonhos, num misto de euforia e pavor.

Foi num dia de sol, um dia de dezembro de calor infernal, o início do fim. Quando os teus lábios, Nerinha, tocaram os meus pela primeira vez o chão fugiu-me, enquanto o meu coração dançava frenético dentro do peito. Não sei dizer o porquê dele ter te escolhido, mas lamento profundamente que o tenha feito.

Voltei a casa, naquela noite, para sonhar com um amor que nunca aprendeste a partilhar.  Caminhei pela rua escura, enquanto a fome do teu beijo me sucumbia a alma. Esperei que o desejo esvaísse-se de mim como a água da chuva que violenta as vielas da cidade e depois segue seu caminho para juntar-se ao mar, num fim de tarde de verão. Mas, quanto mais o tempo passava, pior me sentia. Eu vivi noites inteiras, Nerinha, noites inteiras doente daquela folia. O teu perfume rememorava o ardor que me dilacerava a alma sempre que passavas por mim. Ainda posso senti-lo.

E a lembrança daquele sorriso agora me perseguia.

Afastei-me de ti crendo que a distância daria fim ao meu tormento, mas perseguias-me onde quer que fosse. E eu, tomado por um desejo absurdo, fugia da tua presença, da tua lembrança, acreditando que um ardor assim não haveria de durar. Embora muito a ti quisesse, nada te pediria. Nada. E por andares demasiadamente junto às serpentes, seu sibilar era tudo o que podias ouvir. Deixei-te a conferir os bolsos e a contar as moedas com minha partida. Nada dali levei, Nerinha, senão, meu coração partido.

E perdoei-te por não compreender o que meus olhos te diziam. Perdoei-te tantas vezes, tantas, enquanto meu corpo inflamado de paixão reclamava a tua ausência. Acreditei que haveria vida, ainda, sem o teu abraço. Logo, caminhei o mais distante que pude, enquanto, dissimulada, perguntavas-me: – Onde vais? Por que partes assim sem razão? Grande tristeza causaram-me as tuas propostas infames criptografadas por sentimentos mesquinhos que revelavam-me a tua aura lúgubre. Estive disposto a esquecer-te de vez por todas, mas não sem que antes pudesse levar de ti uma derradeira lembrança, em honra ao sentimento que habitava em mim.

Nosso último momento deveria ser, então, aquele do qual me lembraria por toda a existência. A partir disso, quando a saudade sobreviesse-me, haveria aquela última imagem do teu sorriso para lembrar-me de nosso último instante, após todos aqueles dias sombrios.  Em certa ocasião, o poeta disse que a primeira vez é sempre a última chance.

Somente teus olhos frios testemunharam os últimos segundos de minha vida.  Jamais percebera, antes daquele momento, quaisquer pequenos vestígios que fosse da loucura no teu sorriso, que só me parecia doce. Acho que fui louco também por cultivar desejos banais.

Enquanto olhavas meu corpo caído naquela estação vazia, com o meu sangue colorindo as tuas mãos pequenas,  pude finalmente contemplar a face da morte – e tinha o seu rosto, Nerinha.


ADRIANA VIRTUOSO CAMPOS é graduada em Letras, Especialista em Língua Portuguesa (UFF) e mestranda em Estudos da Linguagens (UFF). Atua como professora de Português e Produção Textual no Distrito Federal. É escritora durante o pouco tempo que resta entre ser mãe, esposa, mulher, professora e estudante. A leitura e a escrita são, desde sempre, primeira e a mais fiel de todas as paixões. | DRI_SC@HOTMAIL.COM

Sobre o Autor

1 Comentário

  1. Hermes 28 de maio de 2017 em 22:44

    Parabéns!
    Pelo lindo trabalho!
    Deus te abençoe!

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