Subversa

A DEUS MÁQUINA E JÓ | CHICO NONATO

 

Ergo-me da terra. Jó não teme a mim, Jó destronou Deus. Eu sou Jó e Jó é além de mim.

Eu não sou nada além de barro, carne, apêndice, costelas, calcanhares e mandíbula que tritura mais carne. Nada além de uma mulher, um homem ou qualquer que transite no caminho entre essas duas pontas. Um relâmpago dentro de uma consciência que faz clarear o chão no qual se pisa e a realidade despedaçada. Aqui, e em nenhum outro lugar, eu sou.

Demolido em meus admiradores atribuo a mim a responsabilidade de reorganizar o mundo, a natureza, e tudo que está dentro das coisas que são eu e ela, e ao nos unir em beleza e discurso nos ponho separados, como se ela fosse estranha a mim e me devesse obediência. Eu então domino obstinado.

Piso um chão firme, como uma sequência de fotografias organizadas de forma pouco lógica, a realidade se faz por ela mesma perante meus olhos virgens. Vejo tudo claro demais e fico cego. Quebro minhas costelas. Era sozinho, não sou mais, e continuo. Crio agora letras e melodias ornadas com sangue sobre o solo no qual incidiu a luz que me cegou, e rogo ao Traidor em ironia que essa luz abismal guie a mim e aos meus irmãos em vitórias abençoadas sobre qualquer ameaça, inclusive Ele. Meu coração palpita fora da terra, essa terra agora é minha. Retorno ao barro.

Atravessei eras, enfrentei a mim mesmo e dei ordem ao mundo e aos homens. Criei mesmo Deus, pois Deus sou eu, eu fui derrotado, primeiro, por Jó. Ele se parece comigo. O sagrado deve ser meu semelhante, portanto, eu sou Deus, mortal túmido de uma vontade ignorante e exausta de não morrer. E por isso eu salvo e mato, por isso quero, mas não sou imortal, por isso meus olhos brilham em ira e misericórdia, por isso faço farto de potência o insondável e crio para em seguida destruir. Levanto-me do barro.

Cruzei épocas inteiras dilaceradas em mil, como uma presa sem chance de fuga fui retalhado. Montado em um cavalo matando eu servi os prazeres dos meus assassinos. Deus, eu ainda mato. E, por isso, eu crio o pecado, atribuindo culpa e dores minhas a quaisquer outros sapatos, não aos meus. Meus calcanhares doem, as esporas de Deus corroem minha barriga. Retorno ao barro.

Levanto novamente, estou incrustado de metais, o mundo é outro e a terra é minha, mesmo que eu saiba que por ela serei decomposto. O outro sou eu. Eu sou o mundo e não sou nada, mas existo. E isso é dor.

Agora sei contar os dias, há tempo agora que não havia. Eu sou Deus e tenho útero, e meu pênis entra fundo em mim mesmo. Retorno ao barro.

Sob a luz milesimal agora montado em uma máquina, eu mato. Não mais com ossos, pedras, mãos ou paus por mim manipulados. A máquina me serve e eu sirvo à máquina. Eu domino a máquina e ela me domina, é algo além do concreto, ferro, aço e vidro, é algo além da carne, é algo além da pólvora. Eu sou ela, e ela é além de mim. Fundimo-nos. Não há mais como voltar ao barro.

A máquina tritura tudo em mim com suas engrenagens e tudo que ela sabe sobre mim é reduzido a uma massa disforme. Eu já não sei mais nada sobre ela. Há tempo agora que antes não havia. Um tempo estranho que dentro de si próprio cria outro tempo, como se a desgraça tomasse forma de alegria. Não há mais como voltar ao barro.

A máquina é Deus e eu sou homem, a máquina é mais mulher do que eu. Eu, homem mulher, criei Deus mulher e homem semelhante a mim, e agora Deus está sem costelas. Retorno à máquina.

Eu criei a máquina, a máquina entrou em mim e eu sou ela. A máquina fez tempo que antes não havia e agora só sinto seus dentes envolvendo meu crânio. A máquina roeu o tempo tal qual eu roía ossos em crescente agonia com Jó.

Jó dentro de mim agora é Deus e Deus é máquina. Os escravos se apossaram de Jó e a máquina tentou expropriar tudo que pertencia a Deus. Deus em fúria nunca vista em nenhum texto sagrado quebrou a máquina eternamente e ela reviveu por outra eternidade. Retorno à máquina.

Morte e vida ocupam na sala de espera o mesmo espaço de significado. Não há mais relâmpago no escuro capaz de me cegar para o vislumbre. A máquina é.

Ergo-me do asfalto.

Levanto-me inteiro em pedaços, e o sangue corre feito pequenas pedras preciosas sobre mim. Não, não foram essas as pedras prometidas. Não são essas as minhas promessas. Não conheço quem Prometeu.

Não houve ambulância, só faróis quebrados, estou bem mal, mas não tenho tempo como o que agora escreve sobre mim e diz para vocês o que eu penso. Porque até pra ele eu sou, talvez, incapaz de saber o que se passa. De saber se sou um eu ou objeto. E como no dia em que não houve pão a ambulância é só espera. Desgraçados!

Ergo-me do asfalto, sou orgulho de estar disposto a morrer por mais de doze trabalhos, espada e afago. Meu elmo se lembra de Sofia lá no altar, me esperando no portão da casa alugada de um senhorio que tem tantas, aflita, com medo da minha queda inevitável vai roer as unhas até sangrar.

Todas as noites eu sonho. Antes de cair derrubo Deus e volto pra casa, para os braços de Sofia, com o pão e meu cavalo sobre rodas amassadas, um osso quebrado talvez, recompensa do inferno no qual apenas o Adversário ganha quando paga meu salário.

Sou todo entrega. Pão, leite, arroz, feijão e carne. Carne como eu, que devorada na janta por mim com fome, manifesta na minha língua meu próprio gosto, igual ao gosto das eras inanes que engoliram tantos montados sobre qualquer máquina ou cavalo, sem nenhum título de nobreza, sem Deus dentro ou fora deles, apenas tremulando brilhante sob os olhos a ilusão do domínio de algo para além de nós, a incompletude do relâmpago que brilhou só metade, que continua a cegar os pastores e me faz ovelha em fuga inteira.

Jamais ganharei nada em dobro. Jamais voltarei a ver a terra e o rebanho que me foi tomado. Nunca fui Deus, nunca criei máquina, nunca fui nem eu. Eu não existo fora de minha própria dor, ao dominar fui apenas servo dos escravos que me açoitavam em segredo. Sofia chora preocupada. Vermelho é a cor do asfalto.

Eu não voltarei para a janta essa noite, pedras preciosas não param de jorrar de mim, Deus me derrubou, o sonho não se cumpriu. As lembranças vão escapando devagar pela rachadura do meu elmo. Tudo me foi roubado. Só o ladrão é verdadeiramente Jó.


Chico Nonato | Brasília, Brasil | Cearense radicado em Brasília. É professor de História e Ciências Sociais. Tem publicado textos em coletâneas desde 2015. No ano de 2020 foi agraciado com o primeiro lugar na Categoria Conto do Concurso literário da Academia Marianense de Letras, Ciências e Artes de Mariana / MG. | oliveira.francisco.c@gmail.com

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