Subversa

A Bruxa dos Ventos | Hebe Santos (Estância, SE, Brasil)

Pulsante nas paredes da casa em ruínas, as memórias de Opala imantavam os espaços vazios e impregnados de pó, emprestando ao ambiente os destroços de seu ser desmembrado pela dor. O seu olhar de espera passiva fulgurava nas paredes como um tesouro que almeja ser encontrado e os seus lábios sequiosos de correspondida paixão pareciam entreabrir-se no piso deteriorado, sempre pisoteado por forasteiros incrédulos, porém curiosos. Sua efígie tinha por moradia o ar, este elemento indefinido e que está em tudo; invisível.

O jardim abandonado há anos havia adquirido um ar misterioso e sombrio, com árvores de grande porte ora frondosas, ora secas, jardim este que se situava diante da casa habitada somente por enigmas e memórias e o espectro sussurrante de uma mulher esquiva, fascinante, cujas mãos espalhavam folhas e pétalas caídas sobre o chão. Pássaros chilreavam, gatos pretos espreitavam, meus passos avançavam no interior da casa. Observava e era observada.

Estava a caminhar pelos cômodos quando, de súbito, vi emergir parcialmente de um montículo de poeira e folhas um caderno. Peguei-o e me pus a folheá-lo. Havia fotos, citações, receitas e um relato intrigante de uma paixão incontida. Ei-lo:

– “Conhecemo-nos numa noite de esbath, noite na qual uma exuberante lua cheia ornamentava o céu acompanhada por seu séquito de estrelas. A priori, não pude me aproximar por temer a recusa, embora tivesse notado que ele também era um prosélito do oculto. Os ventos, diante de meu temor, fizeram as folhas secas rodopiarem no sentido horário em torno daquele que estava fazendo pulsar meu coração de modo intenso. Aproximei-me desse homem ansiado por minha alma e por meu corpo, dei-lhe um beijo e ele me apertou contra si de modo que os meus pensamentos ficaram turvos e a razão emudeceu. Levei-o ao meu quarto, amamo–nos e os nossos corpos foram batizados pelo bruxulear hipnotizante das velas dispostas em círculo sobre o chão, em derredor da cama. Aos primeiros raios de sol ele se foi, silencioso, assim como chegou. Nenhuma palavra rompeu o silêncio. Meses depois, o elo tornou-se carne. Sibéria nasceu. ”

Nas redondezas, Opala era vista como uma bruxa má cuja morte era um mérito improtelável. Fanatismos e preconceitos à parte, ela era uma mulher misteriosa que lecionava artes, amava a filha e esperava a volta de seu amor primeiro, único, o qual deixou rastros de sua passagem em seu corpo, em sua vida, em seu coração. Não a conheciam: era um enigma, e, no entanto, criticavam-na e tratavam-na como jamais cogitariam tratar um criminoso, pois esse se vinga com igual empenho, sem remorso. Prossegui a minha leitura atenta, com a voracidade de quem almeja desvendar um enigma que perdura, indecifrável, há décadas.

-“Os ventos outonais não varrem as memórias do prazer experimentado pelos sentidos e o rosto do homem que me teve figura nos vidros das janelas e nos espelhos de minha imensa casa. O seu corpo ainda está em mim. Suas mãos ainda estão entremeadas ao meu cabelo e seus lábios vêm me beijar à noite. Os resquícios de sua virilidade ainda pulsam em meu corpo como dádivas da juventude. Voltarei a vê-lo? Não sei. Minha vida é uma interrogação eterna. ”

Lembro-me vividamente de quando fui pega em flagrante a colher hibiscos vermelhos em seu jardim. Opala olhou-me risonha, como se o furto e a invasão de propriedade por mim cometidos não significassem nada. Empalideci, mas não sem antes levar a mão à testa e simular um desmaio. Ela carregou-me entre os braços até a sua casa, colocou-me no sofá e foi à cozinha colher as suas guloseimas de bruxa. Abri os olhos sorrateiramente e pude vê-la deslocar-se de um canto para outro, na cozinha, enquanto depositava sobre uma bandeja de prata os feitos mágicos e alguns enfeites. Na sala em que eu estava, quadros coloridos, pincéis e tintas chamavam a minha atenção. Uma bruxa pintora! – Murmurei espantada, planejando contar a novidade ao meu diário e às minhas poucas amigas com a merecida ênfase. E estava de tal modo mergulhada em meus planejamentos de menina mexeriqueira que não a vi se aproximar. Assustei-me.

Trouxe-lhe bumbuns de duendes, bolinhos da juventude e néctar das fadas. Você quer? – Diante desta oferta fantástica, não hesitei em escolher o maior bumbum de duende e o mais colorido bolinho da juventude e, como era gulosa, devorei-os sem dó. Ela riu de minha gulodice. Eu também. Senti-me tão à vontade que tardei a voltar a minha casa e, quando finalmente estava nela, relatei a minha mãe o que havia se passado. Ela me bateu de modo que, temendo outras represálias, nunca mais fui à casa de Opala. Disse-me, a minha mãe, que ela era uma bruxa má, uma devoradora de crianças e de vidas, um ser capaz de determinar o destino de uma pessoa. Lembra-se do Sr. Lindalvo? Pois bem… saiba que ele perdeu tudo graças a um sortilégio feito por ela, só porque o pobre homem disse que ia queimá-la viva. Ora! Ela é uma bruxa e Deus odeia as bruxas! O pastor nos diz que devemos colocá-las em estacas e queimá-las, pois é um dever cristão matar essas pessoas que não hesitam em prejudicar os outros só porque se sentem ofendidas, agredidas. Não volte lá, Soraia! ”- Olhei a minha mãe com espanto, pois me era inconcebível tirar a vida de alguém só porque não compartilha da mesma religião, dos mesmos pontos de vista. Por que as pessoas são intolerantes e tão manejáveis? Perguntei-me e, logo após, tratei de pesquisar o histórico de Sr. Lindalvo. Ele era viciado em jogatinas desde muito jovem. Estava com os bens hipotecados e com uma amante financeiramente insaciável que o ajudava a dilapidar com mais rapidez o pouco que tinha. Perdeu tudo, inclusive a mulher, a qual já lhe tinha terrível asco. É natural.

O som das árvores farfalhando ao vento e a música das águas do rio compunham o ritmo quase tribal do transe que ia gradativamente se apossando de meus membros cansados. As folhas ressequidas presentes no lar abandonado giravam, crepitavam como se alguém estivesse pisando em seus corpos sem vida e depois paravam a um canto para, doravante, reiniciarem a sua dança circular. Dispersadas as lembranças, retomei a leitura:

-“Os passos vacilantes de Sibéria e a sua risada festiva preenchem, aos poucos, todos os espaços vazios de minha casa e de meu coração. Há um ano e três meses a minha boneca colore a minha vida com o seu amor imenso e os seus grandes olhos verdes e atentos, como os do pai. Assim não o esqueço, uma vez que a sua memória rodopia e canta, carnalizada, nos cômodos imensos. ”

Opala encomendava os materiais necessários aos seus ofícios de artista e professora de artes mensalmente, de modo que as pessoas sempre se perguntavam sobre o que havia nas caixas enormes que chegavam a casa. Ela ria, em seu íntimo, da curiosidade impertinente dos outros, mas não a considerava inofensiva: a vida lhe havia ensinado que as diferenças são o alvo da crítica destrutiva e da intolerância. Continuei a ler o diário da esfinge:

-“É noite. Lá fora, as luzes dos vaga-lumes errantes povoam os espaços, sempre largos. Um homem espreita e, tendo percebido que eu notei a sua presença, desapareceu na escuridão. Amedronto-me pois, excetuando-se aquele que adentrou em meu templo de desejos febris, pessoa alguma ousava, até então, entrar em meu arborizado sítio. Vultos brancos bailam ao vento, sob a luz da lua, mostrando-me os seus rostos macabros e disformes. Estremeço. A morte espreita. ”

Ainda hoje rememoro a perplexidade estampada em alguns rostos assombrados em face da barbárie. Outros olhos espionavam satisfeitos, gulosos, almejando degustar os detalhes de uma especiaria intragável para o paladar de poucos. O brilho reluzente dos flashes iluminava o enigmático arvoredo e um tom vívido de vermelho escarlate manchava a terra e as folhas secas caídas sobre o chão. Próxima a uma árvore de hibiscos brancos, Sibéria estava nua e morta, tendo os olhos arrancados depositados sobre a sua mãozinha pálida, minúscula. A poucos metros de distância, recostada a um hibisqueiro de rubras flores, com os seios à mostra e sem o coração que antes pulsava em seu peito, Opala parecia observar o infinito.

Abruptamente arrancada da inércia em que me pôs o pensamento por um farfalhar plural, senti intenso torpor se apoderar de mim. Uma revoada de pombos negros parecia anunciar um segredo adormecido, sobrevoando, doravante, sobre o rio, com as suas asas falantes e inquietas.

O ocaso me parecia belo e misterioso naquela circunstância, coroado de folhas e flores. O vento fazia rodopiar a folhagem enquanto emitia os seus gemidos aflitos. Sentindo-me guiada por seu corpo invisível, deixei-me ir de encontro à margem do rio. Borboletas ainda esvoaçavam, estranhamente, sobre o cristalino espelho. Compreendi, em silêncio, mas não sem estar com os olhos marejados, que a verdade se despe para quem a busca com o olhar limpo e o coração pulsante, ofertando perenemente a própria vida como prova de lealdade. O coração de Opala havia sido depositado no relicário de águas geladas para todo o sempre.


HEBE SANTOS nasceu em Esplanada, Bahia, dia 01 de fevereiro de 1986. Participou da coletânea Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora, com o conto A Deusa do Silêncio Eterno, e do projeto A Arte do Terror, vol. 4, com a obra O Gênio Incompreendido. É formada em Letras, Língua Portuguesa. | HEBE.SANTOS@GMAIL.COM

 

 

Sobre o Autor

3 Comentários

  1. Alex 14 de setembro de 2019 em 06:43

    Hola, me fascinó su obra. Tiene tintes novelescos muy sensuales, sutiles, místicos, románticos y mágicos.

    Engancha pues no domino el portugués pero me imagino y me impregno del magnetismo de sus palabras.

    Tal vez sea la magia? O la imaginación? Sea lo que fuere, me encanta el modo reflexivo de seducir y ser seducido por tus palabras en un contexto tan mágico y sensual como místico.

    Mis deseos de éxito, sean contigo.

    Un cordial saludo
    Abrazos fuertes

    Alex

    • Hebe Santos 5 de março de 2020 em 20:00

      Hola, Alex. Es inmensurablemente placeroso que mi cuento te haya gustado. El cariñoso mensaje que me enviaste me llena de una alegría cuya intensidad es indiscutible. Te pido perdón por no haberte contestado en el debido tiempo. Todavía estoy sorprendida con la exposición sencilla y poética acerca de las impresiones que mi cuento generó en tu interioridad! Al diario, intento traerles a las personas los tonos mágicos que la vida oculta de nosotros. Seguramente, lo hago por medio de las palabras, estos pájaros distintos que vuelan hacía el cielo de nuestras almas y colorean todo con sus alas, pinceles vivaces en eterno movimiento. Gracias por haberme mensajeado de manera tan adorable.
      Un gran abrazo
      Hebe

  2. Hebe Santos 4 de março de 2020 em 20:29

    Hola, Alex! Gracias por haberme expuesto tus impresiones acerca de mi cuento. Es inmensurablemente placeroso saber que mis palabras , pájaros cuyas alas son pinceles que colorean los espacios amplios de incógnitos paisajes, trajeron hacía tu alma una conexión con la magía que, con frecuencia, es menoscabada por el toque duro de la vida que nos golpea al diário con su realista y fría mirada. Enserio, estoy sorprendida con tu amable y cariñoso mensaje. Te pido perdón por sólo haberte contestado ahora. Espero estés gustando leer las obras de los escritores brasileños y portugueses que son publicados en esa respetuosa revista.
    Un gran abrazo, Alex!
    Hebe Santos

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