Subversa

A avó | Daniela Rezende


A primeira filha da avó se chamava Madalena. Madalena que era – ou que seria – a tia mais antiga. O ano era 1964, mesmo ano do golpe. Madalena tinha apenas dois anos de idade e estava doente. A família morava na roça, no interior do estado de Minas Gerais. A região era o Vale do Rio Doce, onde já há duas décadas a mineradora do lugar explorava o ferro da terra. O sal da terra. E o povo da terra. Madalena ficou doente de algo que não se sabe bem o quê; uma febre, uma fraqueza. A avó queria levar a menina ao médico, mas o avô, rígido homem, não quis. O médico era longe, na cidade a vinte quilômetros de distância. Para pegar o ônibus que levava à cidade, era preciso chegar antes à estrada asfaltada. Para chegar ao asfalto, era preciso caminhar vários quilômetros pela estrada de terra, sempre cheia de lama. Não havia telefone para pedir um táxi; não havia vizinho com carro para emprestar. Não havia sequer geladeira na casa, ou uma privada. Era tudo muito simples e humilde e prático – e quem quisesse usar o banheiro, podia usar o mato mesmo. Ou, então, a casinha caiada que ficava do lado de fora.

A avó dizia que a criança ia morrer. Parecia que ela tinha um pressentimento: ela chorava, ela implorava. “Morre não”, o avô respondia, “mas se tiver de morrer, é porque era pra ser”. E Madalena seguia doente de algo que não se sabe bem o quê; uma febre, uma fraqueza. A avó não se conformava: foi até o mato; procurou pelas ervas certas; perguntou para a comadre sobre remédios; fez as preces e as novenas para o santo – e para a santa. Santa Maria Madalena, no caso. Pedia pela vida da filha. A avó fez tudo o que podia fazer – em 1964, na roça, no interior do estado de Minas Gerais, na região do Vale do Rio Doce, onde tudo era muito simples e humilde e prático, e ela também era muito simples, humilde e prática e recém-casada, ainda por cima, com pouco mais de dezoito anos de idade. Com pouco mais de dezoito anos de idade e uma filha doente, a avó fez tudo o que podia fazer para salvar a menina.

Mas foi em vão: Madalena, a primeira filha da avó, que era – ou que seria – a tia mais antiga, morreu ainda sem saber o que era o mundo. Madalena morreu sequer sem saber – ainda – a quem esse mundo pertencia: não a ela, obviamente, tampouco a sua mãe ou a qualquer outra mulher de seu passado ou de seu presente. No dia do enterro, enquanto um buraco era aberto a sete palmos na terra para acomodar o frágil e pequenino corpo, um segundo buraco, mais fundo, gélido e pesaroso, foi cavado nos recônditos do coração da avó, que nunca se recuperou da perda.

Depois disso, a vida continuou. A vida sempre continua para quem está vivo. E a avó teve outros doze filhos.


Daniela Rezende Soares | São Paulo, Brasil | rezende.dna@hotmail.com

 

 

 

 

 

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